Cascais – Nazaré – Cap. V

O quinto troço do percurso foi da Praia do Rio Sizandro até à Lourinhã.

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Cascais-Nazare-mapa-Cap5

Início: 23-04-2016, 15:04
Velocidade média: 3.617 km/h
Tempo: 05h 41m 15.601s
Espaço: 20.570 km

Quando cheguei a Santa Cruz, começou a doer-me a articulação da anca esquerda. Era uma dor nos tendões que estão presos ao fémur. Fui massajeando o topo do fémur para aliviar a dor e ver se conseguia continuar a andar. Depois de passar Santa Cruz, começou a doer-me o joelho esquerdo, à frente, aparentemente também num tendão. Um pouco mais tarde senti os músculos, por trás do joelho, doridos também. Parei para ver se a dor aliviava. Procurei, no tablet, se havia transportes para Lisboa. O autocarro da Rede Expressos mais próximo era na Lourinhã, que ficava a catorze quilómetros. Decidi tentar chegar à Lourinhã. Foi um percurso com muitas paragens, feito com um esforço enorme. E quando cheguei à Lourinhã tive mesmo que interromper a caminhada. O Igor continuou e chegou à Nazaré no dia seguinte.

O joelho esquerdo está inchado e vermelho. Já apliquei um emplastro de tofu para reduzir o inchaço, mas a inflamação ainda não desapareceu por completo. Espero curar isto e poder voltar em breve para terminar.

(em atualização)

Cascais – Nazaré – Cap. IV

O quarto troço do percurso foi do Barril de Cima (na Foz do Lizandro) até à Praia do Rio Sizandro.

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Cascais-Nazare-mapa-Cap4

Início: 24-04-2016, 07:07
Velocidade média: 4.596 km/h
Tempo: 05h 33m 15.979s
Espaço: 25.530 km

Parámos na Praia do Rio Sizandro, para almoçar. Colocámos os sacos cama a secar ao sol e ao vento. Aproveitei para dar um mergulho. Ficámos cerca de uma hora e depois continuámos.

(em atualização)

Cascais – Nazaré – Cap. III

O terceiro troço do percurso foi da Praia da Aguda até ao Barril de Cima (na Foz do Lizandro).

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Cascais-Nazare-mapa-Cap3

Início: 23-04-2016, 22:06
Velocidade média: 5.015 km/h
Tempo: 03h 09m 57.793s
Espaço: 15.879 km

(em atualização)

Cascais – Nazaré – Cap. II

O segundo troço do percurso foi do Cabo da Roca até à Praia da Aguda.

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Cascais-Nazare-mapa-Cap2

Início: 23-04-2016, 18:59
Velocidade média: 4.899 km/h
Tempo: 02h 27m 58.126s
Espaço: 12.082 km

Parámos para jantar, num pequeno largo, com bancos de pedra, na confluência da Avenida Nossa Senhora da Esperança e a Rua da Bajada Comprida (38.845234 N, 9.455790 W). Demorámos trinta e oito minutos a jantar e depois partimos.

(em atualização)

Cascais – Nazaré – Cap. I

O primeiro troço do percurso foi de Cascais até ao Cabo da Roca.

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Cascais-Nazare-Cap-I

Início: 23-04-2016, 15:04
Velocidade média: 5.607 km/h
Tempo: 03h 52m 19.640s
Espaço: 21.712 km

Saímos da estação de comboios de Cascais e dirigimo-nos ao porto, onde tínhamos terminado a caminhada anterior. Apesar do nosso destino ser para norte, estávamos a andar para sul, pois tínhamos decidido caminhar ao longo da costa.

Era sábado, estava uma tarde de céu limpo, com sol, e o paredão estava repleto de turistas, atletas e ciclistas, que se cruzavam connosco nos dois sentidos.

Em pouco tempo chegamos à Boca do Inferno onde, um dia, há mais de vinte anos, fui pescar com a Teresa, numa manhã com o mar agitado. Estivémos uma hora a lançar os anzóis à água, até que uma onda mais forte bateu na muralha de rochas, elevou-se mais de dez metros acima de nós e terminou a nossa maravilhosa manhã de pescaria. Voltámos encharcados para o carro.

BocaDoInferno

Continuámos pela costa de Cascais e entrámos na estrada nacional 247, que nos acompanhou quase sempre até ao fim da caminhada. Seguimos a caminho do Guincho.

Guincho

O IPMA tinha previsto uma tarde com vento fraco, mas o vento estava bastante agreste. Penso que a previsão mais correta teria sido de vento moderado.

Guincho2

Passámos pelo cabo Raso e pelo farol do Guincho e chegámos à praia do Guincho. Dentro de água, avistavam-se talvez uma dezena de surfistas. O céu estava limpo e com sol, mas não havia banhistas na praia devido ao vento desconfortável que soprava de nordeste e que arrastava areia com ele. Na estrada, antes de encetarmos a subida para a Malveira da Serra, cruzámo-nos com os últimos banhistas que abandonavam aquele ambiente agreste e desagradável.

Após o Guincho, a estrada entra na serra, ladeada de árvores altas e o vento deixou de se sentir. Fizémos a primeira paragem no ponto 38.732835 N 9.466553 W para urinar e comer uma maçã.

Contrariamente ao troço anterior, de Cascais até ali, o caminho até à Malveira, não tinha bermas para peões. Tínhamos que caminhar pela estrada e, por vezes, resguardarmo-nos nas valas de escoamento de água, para deixar passar os automóveis.

Lembro-me de ter descido aquela estrada, no passado, de automóvel, talvez duas vezes, e ao chegar ao fim deparei com as extensas areias do Guincho, quase a perder de vista. Nunca parei para desfrutar da praia, nem mergulhei naquelas águas, mas são ambas muito convidativas.

Continuámos a subida até à Malveira e, à chegada, confirmei que o ritmo da nossa passada era elevado. Desde a saída da estação de comboios em Cascais, até à Malveira da Serra, tínhamos andado catorze quilómetros, num período de duas horas, a uma velocidade de sete quilómetros por hora.

Malveira

Se eu tivesse ido sozinho teria caminhado mais devagar. Ao tentar acompanhar o ritmo do Igor, tive que fazer mais força com os pés no chão, colocar os dedos dos pés em forma de garra, sempre tensos, e fiquei com a sensação de estar a começar a formar bolhas nos pés – coisa que nunca me tinha acontecido em nenhuma caminhada no passado.

Não pedi ao Igor para abrandar o ritmo, nem fiquei para trás – acompanhei-o sempre – mas talvez essa opção tenha sido errada.

Depois da Malveira da Serra, voltámos a caminhar em campo aberto, sem a proteção da montanha e das árvores e voltámos a sentir o vento forte e constante. A estrada continua a não ter uma berma para peões, pelo que é preferível andar por caminhos ou estradas secundárias.

Malveira2

Quando desenhei o percurso de Cascais à Nazaré, tentei escolher, sempre que possível, estradas secundárias, para evitar o tráfego intenso das estradas principais, e o perigo que isso representa para os caminhantes. Mas assim que entrámos no primeiro caminho com o chão de cascalho, o Igor queixou-se por causa do calçado que levava.

O Igor tinha levado uns sapatos de corda, com uma sola de borracha mole igual à das sapatilhas de borracha usadas na praia. Sente-se confortável com eles, mas não caminha com facilidade em solos acidentados.

Continuámos ainda na estrada alcatroada até entrarmos na freguesia de Colares (38.766811 N, 9.473536 W).

Colares

Quinze metros à frente, desviámos para o caminho do Rio Touro, em direção ao cabo da Roca. O caminho desce ligeiramente e entra, mais à frente, numa zona ladeada por árvores,

(em atualização)

Cascais – Nazaré – Introdução

Agendei a subida até à Nazaré, pela costa, para o fim de semana do 25 de abril. Fui acompanhando as previsões do tempo, que esteve chuvoso durante quinze dias, mas que se manteve seco durante o percurso até à Lourinhã.

O cartaz do percurso, a pedir caminhantes voluntários, foi o seguinte:
Cascais-Nazare

O Igor manifestou interesse desde o início, pois nunca tinha estado na Nazaré e era um sítio que gostava de visitar. Como o Igor estava ocupado durante a manhã de sábado, só pudémos partir de tarde. Ficávamos, assim, com pouco mais de dois dias para fazer um percurso de 147 quilómetros. Era difícil, mas poderíamos tentar. Apontámos para o seguinte:

  • cinquenta quilómetros no primeiro dia
  • oitenta quilómetros para o segundo dia
  • vinte quilómetros para o terceiro dia

No sábado de manhã, 23 de abril, cozi arroz integral e fiz as usuais bolas de arroz – onigiri -, o meu alimento principal para as caminhadas. No total, preciso de duas horas para tudo isto: uma hora para cozer o arroz na pressão e outra hora para fazer as bolas. As bolas de arroz são primeiro prensadas com as mãos molhadas, depois coloco ameixa salgada – umeboshi – no interior e prenso novamente. Por fim, envolvo totalmente em alga nori e pressiono novamente até a alga, entretanto húmida, ficar completamente colada ao arroz.

Para além das bolas de arroz, coloquei na mochila um quilograma e meio de tangerinas e um quilograma e meio de maçãs reinetas, as minhas frutas preferidas para as caminhadas. Três garrafas, de vinte e cinco centilitros cada uma, com café e um cantil com água completaram as necessidades alimentares para o trajeto.

Na caminhada anterior, de Tróia até Sagres, tinha tido imenso frio nas duas últimas noites, tendo conseguido dormir apenas duas horas e quatro horas, respetivamente. O saco-cama que levara era pouco espesso e devia ser utilizado com uma temperatura mínima de onze graus, mas as temperaturas desceram abaixo dos cinco graus. Para a caminhada da Nazaré, a temperatura esperada para a noite era cerca de dez graus, o que me deixou hesitante sobre o melhor saco-cama a levar. O ideal é levar o saco-cama mais leve posível, pois qualquer peso adicional, ao fim de cinquenta quilómetros, torna-se incomodativo e até mesmo insuportável. Mas, por outro lado, um saco-cama leve e fino não garante, em geral, uma temperatura confortável para dormir.

Eu tinha apenas dois sacos-cama: um muito fino, de caminhada, para o verão; e outro, com o interior de flanela, grosso e pesado, para ser usado em tenda no inverno. Nenhum deles era o indicado para esta caminhada até à Nazaré. Decidi comprar um terceiro saco-cama que fosse leve, ocupasse pouco espaço e garantisse bons níveis de conforto a baixas temperaturas.

Comprei, na Decathlon, um saco-cama para usar a partir dos cinco graus Celsius de temperatura exterior, e com pouco mais de um quilograma de peso. Só não me agradou o volume que ocupa.

saco-cama

Para além da comida e água, acomodei, ainda, na mochila os itens seguintes:

  • fio dental, escova de dentes, papel higiénico
  • óculos escuros
  • protetor solar
  • fato de banho, toalha pequena
  • saco-cama
  • chapéu (panamá) e gorro de lã
  • smartphone, tablet e baterias
  • lanterna (incluída na bateria)
  • BI, cartão de débito e dinheiro
  • dois pares de meias
  • três pensos rápidos
  • canivete suiço
  • bandas e gorro refletores para andar de noite na estrada

Para o Algarve tinha levado umas botas de caminhada novas que não me causaram mazelas nenhumas nos pés. No entanto, eram muito quentes para fazer uma caminhada, debaixo de sol, no fim de abril. Por esse motivo, comprei umas sapatilhas para caminhada, com uma sola robusta e impermeáveis à água.

Encontrei-me com o Igor no Cais do Sodré, onde apanhámos o comboio para Cascais. Tal como na caminhada de Belém a Cascais, o Igor tinha-se deitado tarde. Tinha estado na festa de aniversário de um outro antigo aluno meu, o Lee Vitongue, numa discoteca só para os convidados, com miúdas loiras e muito álcool. Na aula de mandarim, uma hora antes, escondeu o sono com os óculos escuros, mas não conseguiu parar o zumbido e os sinos que repicavam à volta da cabeça. Enquanto falávamos, abriu e bebeu uma lata de uma bebida energética, para tentar estabilizar os níveis de atenção e vigilância. Pelas janelas da carruagem, avistámos com agrado, alguns dos troços que tínhamos feito a pé uns meses antes, na etapa de Belém a Cascais.

O comboio chegou às 3h da tarde a Cascais e demos início à caminhada.

Cascais

Tróia – Sagres – Epílogo

Na mesa ao lado, na esplanada, estavam três algarvios que falavam de pesca, de feiras e festas, e de mulheres descascadas. As mulheres iam passando, para um lado e para o outro, o que era um regalo para os olhos.

A certa altura, uma miúda espanhola que vinha a guiar, parou o carro no meio da estrada, saiu, deixou a porta aberta e veio até às rulotes comprar um refrigerante. Nenhum veículo conseguia passar – ela bloqueou a estrada nos dois sentidos – mas ninguém reclamou. Aquilo foi, no mínimo, falta de consciência cívica. Pode ter sido pior que isso, pode ter sido falta de respeito por nós portugueses: provavelmente não teria aquele comportamento na Alemanha.

O Carlos ainda demorou a chegar. Não consegui ficar à espera. Voltei a vestir o casaco e comecei a caminhar na direção de Sagres. Parei junto ao marco quilométrico, sentei-me e esperei ali.

Epilogo

Ele chegou por volta das 15h. Trazia o folar e a fruta, que eu comi durante o caminho.

Parámos no Cercal, para comprar uns bolos de amêndoa e uns bolos de torresmos. Outrora, os bolos de torresmos não tinham açúcar. Eram muito apreciados pelo pai do Carlos e por mim, em resumo, por velhos dinossauros que já não constituem o grosso do mercado gastronómico português. Para vender pratos tradicionais às novas gerações, é necessário torná-los doces, bonitos, enfim, descaraterizados. Infelizmente o açúcar tornou os bolos de torresmos intragáveis: a banha, com o açúcar e a farinha eram demasiado enjoativos. Não consegui comer um inteiro.

Adormeci pelo caminho e só acordei em casa. Quando tirei a tenda do saco, escorreu bastante água para o chão, talvez dois decilitros, provenientes da humidade acumulada na noite anterior.

Uns dias mais tarde, convidei o Carlos e o Raúl para uma ouriçada em minha casa, pelo grande apoio que me deram neste troço da empresa de percorrer o país a pé.

Tróia – Sagres – Cap. XVI

O décimo sexto e último troço do percurso foi de Vila do Bispo até ao Cabo de São Vicente.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

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Troia-Sagres-mapa-Cap16

Início: 02-04-2016, 12:07
Velocidade média: 5.086 km/h
Tempo: 02h 12m 15.146s
Espaço: 11.210 km

Combinei com o Carlos às 14h no Cabo de Sao Vicente. Tinha apenas duas horas para chegar ao fim do trajeto. Era arriscado, uma vez que tinha os pés inchados, já me tinham doídos os joelhos, talvez por má colocação das pernas e dos pés no chão; e, a qualquer momento, poderia ter que abrandar o ritmo, devido a cansaço ou a alguma lesão.

Consultei o mapa no tablet, mas decidi confirmar com a dona do café qual o melor caminho para chegar a pé, o mais rápido possível, ao cabo de São Vicente. Ela disse-me que havia os caminhos velhos, por onde antes se ia até ao cabo, que eram mais diretos e mais curtos: coincidiam com o que eu tinha consultado no mapa. Indicou-me a forma de lá chegar e assim fui.

Conheço bem a Vila do Bispo. Todos os anos passo na vila para comer moreia frita num dos vários restaurantes que servem esse petisco que só os entendidos conhecem. Não sei qual foi a primeira vez que comi uma posta de moreia frita, mas posso enunciar os locais onde já me deliciei com esse pitéu.

  • Em São Torpes, algumas vezes
  • Na Vila do Bispo, muitas vezes, em diversas tascas e restaurantes
  • Nas casas do pai do Carlos, tanto no Algarve, como em Almada, imensas vezes
  • Nas minhas casas, em Almada ou Corroios, muitas vezes também
  • Nas ilhas de Santiago e Santo Antão, em Cabo Verde
  • Em Sines, durante esta caminhada
  • E provavelmente, em muitos outros sítios, dos quais não me recordo

A primeira moreia que apanhei na caça submarina, dei-a ao pai do Carlos para tratar e fritar. Mas a esposa dele não gostou muito da ideia, pois a fritagem da moreia deixa a casa toda suja de óleo. Por isso, a moreia seguinte fui eu que a arranjei, salguei, sequei e fritei. Nesse dia convidei o Carlos para almoçar. A moreia estava tão salgada que comemos apenas duas ou três postas cada um. Tive que demolhar as restantes – como se fossem bacalhau – secá-las novamente e voltar a fritá-las para as poder comer. O Carlos bem estranhou as moscas não se terem aproximado da moreia enquanto secava. Eu tinha deixado a moreia em salmoura durante duas horas, quando deveria ter estado apenas cinco minutos mergulhada em sal.

Vim também a saber – mais tarde – que a moreia deve ser escalada pelas costas e ficar fechada na barriga, segundo me disse o pai do Carlos. Assim fiz das vezes seguintes. Neste momento sou um especialista de secagem e fritagem de moreias.

Passei junto à Caixa de Crédito Agrícola e continuei para oeste e depois para sudoeste. À saída de Vila do Bispo, já numa estrada de terra batida que passava entre umas terras verdejantes de um lado e doutro, passei no meio de uma manada de vacas: umas com os cornos baixos, outras com os cornos levantados.

Sempre a direita, no rumo de sudoeste, e praticamente sem me cruzar com veículos automóveis, caminhei com os pés cada vez menos sensíveis e mais inchados. “Caminhos velhos” é o nome que os locais dão a estes caminhos abandonados após a construção das estradas de alcatrão, mais extensas e que passam mais a sul.

No vídeo digo “estradas velhas”, mas o termo que me tinham mencionado era “caminhos velhos”

Quase sete quilómetros depois, a estrada toma o rumo sul que se mantém durante dois quilómetros, até chegar à estrada nacional. Nessa encruzilhada, havia uma casa abandonada, com duas carroças lá dentro, que, mais cedo ou mais tarde, vão ficar soterradas pela derrocada do teto da construção que certamente se vai desmoronar.

As habitações tradicionais algarvias – feitas de pedra e barro, têm que ser caiadas regularmente, para evitar que a água da chuva entre para dentro das paredes, provocando o desagregamento da estrutura da casa. Também os telhados – geralmente com telha de barro de meia-cana – têm que ser reparados pelo mesmo motivo.

As casas têm paredes grossas, que mantêm o interior fresco no verão, e aquecido no inverno. Resistem, também, bem a pequenos abalos de terra, uma vez que as paredes são geralmente construídas com grandes lajes de pedra que assentam, umas por cima das outras. Nesta casa, a parede oeste está ainda reforçada com o apoio de contrafortes, para lhe dar mais estabilidade.

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Quando uma casa é abandonada, não passam mais de cinquenta anos até que a edificação se transforme numa ruína sem recuperação, num amontoado de pedras, o que faz, destas casas, habitações ecológicas, perfeitamente integradas no ambiente. Provavelmente, é esse o destino desta casa da encruzilhada.

A partir dali, a estrada ganha um piso de alcatrão, mas é demasiado estreita para permitir a passagem simultânea de duas viaturas.

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São dois quilómetros sempre a direito, que eu percorri de forma mecânica, robotizada, com os pés do tamanho de patas de elefante, a bater no chão a cada passada e, a cada passada, cada vez mais espalmados, cada vez mais desfeitos. Imaginava os meus pés como um monte de carne e ossos à solta dentro das botas, como uma mistura líquida, e só me apetecia colocar o mixer – a varinha mágica – dentro das botas, moer tudo e acabar com aquele sofrimento.

A meio do caminho, pareceu-me que os movimentos descoordenados dos braços, conjugados com uma má respiração, estavam a interferir com as batidas e o ritmo do coração. Provavelmente foi só uma sugestão, pois o coração bate sempre, a vida toda, apesar dos excessos e de outras barbaridades que nos apeteça fazer. Grande companheiro, o coração. Adotei, então uma passada mais calma, acompanhada por um movimento natural dos braços e uma respiração longa e descontraída. E o ritmo voltou.

De início, e como o Carlos se atrasa muitas vezes, planeei ir até ao cabo de São Vicente e depois voltar para trás, para Sagres, para ficar com esse percurso já feito, antes que ele chegasse para me levar de volta a Almada. Na minha senda pela costa de Portugal, ainda me faltava caminhar do cabo de São Vicente até à praia do Ancão, onde tudo começou. E esse percurso teria que ser feito mais tarde. Mas o melhor era iniciá-lo a partir de Sagres, pois Sagres é bem servida por transportes públicos, e poderia chegar lá com facilidade, em qualquer altura, para concluir o troço algarvio. No entanto, cada vez tinha mais dificuldades em andar, tinha imensas dores nas pernas e nos pés, e a possibilidade de voltar para trás, para Sagres, era cada vez mais remota.

Depois de uma pequena curva à direita, com contracurva, cheguei, novamente, à estrada N268 que me levaria ao termo deste projeto Tróia-Sagres iniciado uma semana antes.

Faltavam pouco mais de dois quilómetros para concluir o trajeto. O céu estava praticamente limpo, o sol quente, e eu tinha um casaco de inverno vestido e um chapéu na cabeça. Caminhava todo tapado do sol das duas da tarde para não me queimar, mas isso não me permitia arrefecer o corpo que, para além de quente, suava. Apesar de tudo, penso que essa foi a melhor opção.

Sensivelmente a meio caminho, passei na Fortaleza do Beliche. É uma zona com imensos pesqueiros, onde já vi apanhar vários sargos à cana, todos com mais de um quilograma e meio.

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Para trás, para o lado de Sagres, fica a praia do Beliche, a última grande praia de areia do barlavento algarvio, com uma extensão de areia de leste a oeste, de mais de quinhentos metros. Para chegar à praia, é necessário descer umas centenas de degraus, o que fiz muitas vezes no passado. A praia tem um separador natural a meio – no local onde o promontório avança para o mar – que divide o areal em duas partes quando a maré está cheia. A metade oeste da praia é, tradicionalmente, frequentada por nudistas. Lá no canto oeste, fotografei, uma vez, os meus filhos mais velhos a fazer surf.

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Muitos anos antes, estava eu dentro de água a fazer caça submarina, bem afastado do areal e tocaram-me nas costas. Assustei-me, pois não tinha sentido ninguém aproximar-se e a probabilidade de haver alguém ali, àquela distância da praia, era muito baixa. Aliás, aquela praia sempre me assustou. Sempre tive medo que surgisse um tubarão por detrás daquelas laminárias enormes e compridas que ondulam desde as rochas no fundo até à tona de água. Tocaram-me, assustei-me, virei-me e era um banhista francês, com uns óculos e tubo de mergulho, que me fez sinal para mergulhar e olhar para um buraco numa rocha. Assim fiz, e assim que assomei a cara ao buraco, assustei-me de novo: o buraco estava tapado com uma boca e uns olhos.

O buraco era ocupado por uma boca castanha enorme, de uma ponta a outra, com uns olhos pintados por cima. Não consegui pensar, afastei-me do local e subi os seis metros que me separavam da superfície. “E agora?”, perguntei eu ao francês. “Agora, dispara”, indicou-me ele.

Refeito do susto duplo, oxigenei o sangue durante um minuto, com umas inspirações prolongadas, enquanto refazia as ideias. O que eu tinha visto lá embaixo era um charroco enorme. Era o primeiro charroco que via dentro de água. Tinha a ideia de o charroco ser um peixe pacífico, relativamente lento, e portanto não deveria constituir perigo, apesar de ser grande e ter uma grande boca. Mergulhei, arpoei-o e trouxe-o para cima. Enquanto subíamos, não se mexeu. Lembro-me de o ver a rodar devagar em torno do arpão devido ao atrito da água. Quando o tirei para fora, sacudiu-se energicamente duas ou três vezes e parou.

Foi nessa praia, também, que cacei a única tremelga que alguma vez vi dentro de água. Nem me apercebi do que tinha apanhado, de início pensei que era uma raia. Só, mais tarde, já na areia, quando levei duas descargas elétricas na mão, que me deixaram o braço dormente, é que percebi que se tratava de uma tremelga.

Faltava pouco para chegar ao fim e já tinha desistido da ideia de voltar para trás até Sagres. Não que eu não conseguisse andar, mas as dores eram muitas e o risco de desenvolver uma qualquer lesão aumentava a cada minuto.

Pinheiro que foi crescendo, todo retorcido, sob a força do vento de Sagres
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Cheguei, enfim à extremidade do cabo de São Vicente, vindo de Tróia, após quatro dias e meio a caminhar, interrompidos por uma paragem em Vila Nova de Milfontes.

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Fui até ao ponto mais sudoeste possível e parei o registo do percurso que estava a ser feito pela minha aplicação HighWay Star. No passado era possível ir mais longe, mas o caminho para a ponta mais sudoeste estava bloqueado. Não era possível, sequer, ver o rochedo em forma de pénis ereto que fica dentro de água, no prolongamento sudoeste, a vinte metros do continente, e que costumava ser uma grande atração para os turistas.

Voltei para trás. Despi o casaco e sentei-me numa mini esplanada a beber uma cerveja, enquanto esperava pelo Carlos.

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Tróia – Sagres – Cap. XV

O décimo quinto troço do percurso foi do Monte Velho até Vila do Bispo.

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Troia-Sagres-mapa-Cap15

Início: 02-04-2016, 07:19
Velocidade média: 4.864 km/h
Tempo: 04h 13m 58.514s
Espaço: 20.588 km

Acordei cedo, antes das 6h da manhã. Ainda estava dentro da tenda quando ouvi o relinchar de um cavalo. Lá fora, o céu já começava a ganhar a luminosidade do dia. Não me mexi, não fiz barulho nenhum. Imaginei que o cavalo estivesse ali próximo e que pudesse investir sobre a tenda, ou então que me denunciasse e os donos me encontrassem naquela posição vulnerável. O tempo foi passando e deixei de ter a certeza sobre o som que ouvi: poderia até ter sido um javali. O melhor era mesmo ficar quieto.

Ao fim de algum tempo, sem que se ouvisse ruído algum no exterior, abri a tenda silenciosamente e saí com muito cuidado, depois de ter espreitado da esquerda à direita, pela abertura. Não vi ninguém. Saí.

Comi uma bola de arroz e uma maçã reineta, lavei os dentes, arrumei a tenda e continuei o caminho. Olhei a toda a volta e não vi cavalo nenhum, enquanto caminhava. Fiquei sem saber o que se passou.

Dali para sul, o caminho era estreito, pedregoso e inclinado. Mais à frente, a estrada alarga e perde a inclinação. Ao fim de dois quilómetros cheguei a um cruzamento. Do lado direito, ao fundo, estava uma manada de vacas, que ocupava a estrada toda. Talvez com receio de enfrentar as vacas, mas também porque esse caminho subia para noroeste, decidi virar à direita. Por descargo de consciência, consultei o mapa no tablet e percebi que tinha enveredado pelo caminho errado. Voltei para trás.

Tinha, agora, que enfrentar uma manada de vacas.Era a primeira vez que estava naquela situação. Não fazia ideia do que se iria passar, estava receoso. Eram talvez umas trinta vacas e todas elas pesavam, pelo menos, quatrocentos quilogramas cada.

Aproximei-me e decidi filmar o encontro: podia correr bem, podia correr mal. Estava a preparar o telemóvel para filmar o momento, quando as vacas começaram a mugir e a mostrar algum nervosismo. Enquanto me aproximava, não tirava os olhos delas, com receio de uma investida sobre mim. De repente, começaram em debandada, estrada abaixo. Quando dei início à gravação, já tinham desaparecido quase todas. Eis o que apanhei.

Uns seiscentos metros mais à frente, cheguei a uma planície onde estavam duas máquinas a desbastar o terreno: a cortar árvores e a arrancar raízes.

Azinheira cortada e arrancada pela raiz
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Mais abaixo, apanhei a estrada de alcatrão, a N268. Para a esquerda, a cerca de dois quilómetros, ficava a Bordeira. Segui em frente, para a Carrapateira. Passava pouco das 8h da manhã. Àquela hora, ainda não havia muito trânsito automóvel e, apesar da estrada não ter bermas, não senti que corresse grande perigo. Perto da Carrapateira, fotografei-me junto a uma árvore que está metade morta, metade viva.

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Na Carrapateira, telefonei ao Carlos, que estava em Budens, e que ia para Lisboa nesse dia. Tinha esperança de conseguir uma boleia, pois quando chegasse a Sagres, teria alguma dificuldade em conseguir transporte para cima. Teria que, primeiro, arranjar transporte para Lagos e, depois, um comboio ou um autocarro para Almada, onde provavelmente só chegaria já de noite.

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O Carlos disse-me que iria sair daí a duas horas e que se cruzaria comigo na estrada. Combinámos, então, que me trazia água, fruta e umas fatias de folar. Assim sendo, decidi não tomar um segundo pequeno almoço na Carrapateira, nem sequer comprar água. Além disso, havia tantos turistas no único café aberto, que não me quis misturar. Não tenho uma cultura de turista, não sou um turista, sou um caminheiro à procura de espaço, e de sentido também. E aquele turismo não sentido nenhum para mim.

Segui em frente, já com alguma sede e sem água no cantil, mas daí a pouco deveria estar a receber uma garrafa de água e fruta.

Pela costa abaixo, encontram-se muitos sinais do vento forte que sopra no litoral. Desde Tróia até ao cabo de São Vicente encontrei imensas árvores caídas, escostadas ao chão pelo vento forte e constante que assola a costa.

Bispo-05

Vinte minutos depois de sair da Carrapateira, parei para rearrumar a mochila. Continuei. Mais à frente, apercebi-me de que tinha deixado o cantil para trás. Já não tinh aágua, mas o cantil era do meu filho mais velho e eu não o queria perder. Cansado e desesperado, voltei para trás a toda a pressa.

Passou uma carrinha. Pensei em pedir boleia até ao cantil, mas não queria quebrar a regra de fazer o percurso todo a pé. Além disso, duvido que me dessem boleia, com o aspeto de caminheiro sem teto, que eu apresentava. Acelerei o passo, agora na direção norte, enquanto verificava se não me faltava mais nada. Com o cansaço, tudo era possível. Descobri, então, que trazia o cantil comigo. Estava mesmo cansado e desorientado. Voltei-me, de novo, para sul a caminho de VIla do Bispo.

Um amigo meu tinha um terreno perto da Raposeira, e recolhia burros, alimentava-os e tratava deles. Conheci-o na Suiça, em Berna: eu estava a fazer um curso de medicinas naturais, e ele era saltimbanco e malabarista de rua. Lembro-me perfeitamente da frase-refrão que ele usava: “Oui, oui, très joli”. Mais tarde, voltei a encontrá-lo na Costa de Caparica, onde me ensinou a fazer malabarismo com três bolas. Mais tarde ainda, nós dois, mais dezasseis cooperantes, criámos a Biocoop, uma cooperativa de consumidores de produtos de agricultura biológica. Tenho-o visto aqui ou ali, pelo país, mas penso que já vendeu o terreno e os burros.

Burro à beira da estrada
Bispo-06

Cheguei a Vila do Bispo, e telefonei ao Carlos. Eram quase 11h30. Ainda não tinha saído de casa. Pedi-lhe então, que adiasse um pouco a saída e que me fosse buscar ao cabo de São Vicente, para me levar para cima. Ficou combinado.

Desci até ao centro de Vila do Bispo e parei numa tasca. Como ainda não era meio-dia, a cozinheira ainda não tinha chegado, e por isso a escolha de petiscos não era grande. Pedi uma tosta mista, uma caneca de cerveja e um prato de percebos.

Bispo-07

Descalcei-me, coloquei os pés sobre as pedras frias da calçada, despi o casaco e fiquei apenas com a t-shirt encharcada de suor a arrefecer-me o corpo. Comi, bebi e, em meia hora, estava pronto para dar início ao último percurso: de Vila do Bispo até ao cabo de São Vicente.

Tróia – Sagres – Cap. XIV

O décimo quarto troço do percurso foi do Rogil até ao Monte Velho.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap14.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap14

Início: 01-04-2016, 13:11
Velocidade média: 3.799 km/h
Tempo: 05h 10m 55.416s
Espaço: 19.689 km

Assim que cheguei ao Rogil, entrei numa mercearia, peguei em duas garrafas de água, paguei e saí já a beber uma. Ainda tive que esperar que um casal de putos fosse atendido, mas foi rápido. Saí e fiquei cá fora, a apreciar a paisagem, a conquista e o memento de pausa, enquanto bebia a água das Pedras. A senhora que me atendeu, talvez a dona da loja, já sem clientes no interior, ficou à porta a olhar para mim. Era uma senhora idosa – bem, pelo menos, mais velha do que eu – e deve ter achado estranho a minha indumentária – casaco de inverno, chapéu, calças de ganga forte, mochila de caça – num dia tão solarengo. Eu tencionava continuar o caminho para Sagres, por trilhos no meio do campo, longe da estrada principal de alcatrão, pois os automóveis passavam muito depressa e havia o risco de levar um toque por distração, ou cansaço. Percebi que a senhora me observava e, assim que acabei de beber a água, voltei-me para ela, para lhe perguntar se havia um vidrão onde pudesse pôr a garrafa. Indicou-me um logo ali perto. Depois perguntei-lhe se havia caminho dali para Aljezur pelo meio das terras. Aconselhou-me a falar com o dono do quiosque, mais abaixo, do lado oeste da estrada.

Depois de lanchar oito bolos e três cafés na melhor pastelaria das redondezas, coloquei tudo às costas e fui até ao dito quiosque. O dono estava ocupado, portanto, e para meter conversa, pedi mais um café. Já era o quarto.

Disse-me que o canal de água não ia até Aljezur, contrariamente à informação qeu o belga me tinha dado, mas que parava no meio do nada e que, no fim, a água se escoava pelas rochas abaixo e se perdia no mar. Aconselhou-me a seguir os dois quilómetros seguintes pelo alcatrão, para depois virar para oeste, por uma estrada de terra e continuar para sul, pela estrada do canil, até Aljezur. Assim fiz.

Pouco depois de sair do alcatrão, perdi o caminho e andei pelo meio dos torrões de terra, muito embora o mapa do Google me dissesse que eu estava em cima de um trilho.

Passei no meio de arbustos, saltei vedações mas acabei por chegar a um entroncamento de estradas regionais, de alcatrão, perto do parque de campismo do Serrão. Lembro-me que o telefone se foi abaixo, mais ou menos por aquela altura, e deixou de registar o percurso, mas o sítio Web de apoio à aplicação consegue ligar os troços, mesmo que haja pedaços em falta.

A estrada para sul, inicialmente de alcatrão, passou a terra batida e, mais à frente, já na descida para Aljezur, tornou-se num monte de pedras e buracos.

Pelo caminho, aproveitei para telefonar à minha mãe, que tinha caído uns dias antes com as costas num vaso e andava cheia de dores. Partiu três vértebras – uma estava mesmo desfeita – e tinha tantas dores que chegou a pensar em desistir. Mas felizmente estava entretida com uns pintainhos que a minha irmã lhe levou, enquanto foi de férias para fora. Chamou-me louco, por me meter nestes desafios inconsequentes, quando podia estar descansado em casa longe dos perigos inesperados que podem ocorrer num empreendimento destes. Senti-a animada e fiquei descansado.

Ao fundo da descida para Aljezur, passei ao lado do canil que o dono do quiosque do Rogil tinha falado. Não havia ninguém, só cães, tristes, assustados e barulhentos.

MonteVelho-01

Entrei pelo acesso norte de Aljezur, onde um antigo anúncio em ferro indica o local onde antes começava a povoação.

MonteVelho-02

Cruzei a povoação de norte a sul e, à saída, voltei a enfrentar um problema recorrente: caminhar pelo alcatrão, numa estrada sem bermas e de noite, era muito perigoso, portanto tinha que encontrar uma alternativa.

MonteVelho-03

Parei, consultei os mapas, e decidi sair da estrada, subir para a direita, para o estádio e ir apanhar a estrada M1003-1. A subida era íngreme e foi difícil. Foi mais de um quilómetro, extremamente inclinado, já no fim do dia, com apenas duas horas de sono, mas, chegado lá acima, foi mais uma vitória.

Junto às antenas de telecomunicações, no topo de Aljezur, na estrada M1003-1.
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A estrada M1003-1 segue para sul durante cerca de um quilómetro e meio, para depois virar para oeste, para a praia da Arrifana. Nesse ponto, continuei para sul, para fazer o resto do percurso pelo meio da serra. Parei um pouco mais à frente para comer qualquer coisa.

MonteVelho-05

O alcatrão desapareceu e só voltei a vê-lo lá mais para a frente, no episódio dos cães. Apesar disso, e uma vez que não sabia com que frequência iriam passar automóveis naquele caminho, vesti-me para a noite, ou seja, coloquei o gorro refletor, assim como as braçadeiras, nos braços e nos tornozelos.

Não me cruzei com mais carro nenhum naquela serra, naquela noite, até parar para dormir.

Eram 20h e o sol já se tinha posto. Ainda havia luz, mas diminuía a cada minuto. Caminhei talvez mais duas horas, até parar para jantar e dormir. Quando parei já era noite cerrada e já não via onde punha os pés.

Durante essa caminhada pela serra, ao lusco fusco, passei perto de duas ou três casas isoladas, de onde vinha um cheiro a lareira de lenha e a cozinhados caseiros. Apeteceu-me bater à porta de uma daquelas casas e pedir para comer com eles. Mas continuei sempre a andar.

Estranhei que, em todo aquele percurso feito pelo meio da serra, por estradas de terra, praticamente sem habitações, houvesse esgotos, água e eletricidade, como num projeto de urbanização citadino. Foram talvez seis ou sete quilómetros de quase deserto servido por infraestruturas que não existem nalgumas zonas do Algarve mais povoadas.

Por duas vezes, ao passar junto a uma casa, os cães ficaram a ladrar até eu desaparecer por detrás do topo do monte seguinte. Eram habitações vedadas, com os cães do lado de dentro: uma proteção usual em casas, por vezes desabitadas.

Já de noite, numa noite sem lua – estava quarto minguante, a lua nasceria apenas às 3h da manhã – quase a chegar ao Monte Velho, fui atacado por dois cães pastores alemães, no local com coordenadas 37.239145 N, 8.844758 W. Este sítio chama-se Monte Novo, e fica cerca de um quilómetro a norte do Monte Velho, onde montei a tenda e pernoitei, pouco depois.

Vindo de nordeste, do Atlantic Riders, cerca de quatrocentos metros depois, cheguei a um amontoado de edificações, que formam um pátio interior, iluminado com uma luz elétrica branca, que se projeta, por entre as casas, para o exterior. As zonas de claridade são interrompidas por espaços de escuridão, espaços onde a luz é obstruída pelo volume dos edifícios rasteiros.

No silêncio daquele ermo, só se ouviam os meus passos e os meus pensamentos, às vezes ditos em voz alta. De repente, dois ou três cães começaram a ladrar. Olhei para o interior do pátio iluminado e vi dois cães a correrem para mim. Contrariamente a todos os outros encontros com cães, antes e depois deste incidente, não havia barreira nenhuma entre eles e eu, e também não estavam presos com correntes ou trelas.

Cansado, com uma mochila pesada às costas – que não me permitia outros movimentos, para além de andar para a frente, sem o risco de me desequilibrar – tinha que enfrentar os cães: entrei em estado de alerta instantâneo.

O primeiro cão avançou para mim, pelo cone de luz que provinha do pátio: em contraluz, mas suficientemente visível para poder perceber o seu comportamento. Gritei, de frente para ele, energicamente, de forma ríspida e com determinação: “Quieto!”. Ele continuou a ladrar e eu repeti, de forma ainda mais incisiva: “Quieto!”. Ele baixou a amplitude e o ritmo do ladrido e eu percebi que já não representava perigo para mim. Faltava o outro. Virei-me cerca de noventa graus sobre a esquerda para seguir pela estrada e o primeiro cão voltou a ladrar forte. Voltei-me de novo para ele e gritei outra vez: “Quieto!”. Fiquei parado de frente para ele e voltou a reduzir a intensidade do ladrido. Voltei-me então para o outro cão e avancei.

O outro cão tinha ficado num espaço de escuridão absoluta, escondido da luz por uma casa. Ladrava continuamente para mim, mas eu não sabia se ele estava perto ou afastado de mim, não lhe via os movimentos e não conseguia prever se me iria atacar ou não. Qualquer movimento que eu fizesse poderia despoletar um ataque e eu só saberia quando ele estivesse em cima de mim. Decidi gritar-lhe, com força e de forma autoritária. Por três vezes gritei “Quieto!” até que a intensidade do ladrido baixasse. Esperei uns momentos, virei-me e segui caminho.

Os cães ladraram durante um pouco mais, talvez um minuto, e depois calaram-se.

Deixei a estrada de alcatrão e segui pela estrada de terra castanha que leva à Carrapateira. Queria tentar chegar à Carrapateira e dormir numa pensão: tomar um banho de água quente e dormir cinco ou seis horas. Na noite anterior só tinha conseguido dormir duas horas por causa do frio e, para essa noite, estavam previstos cinco graus de temperatura, tal como na noite anterior.

Continuei pela estrada de terra mas, com aquela escuridão, não era possível distinguir os buracos e as pedras soltas que existiam ao longo da estrada. Caminhar naquelas condições era arriscado, por isso decidi começar a procurar um sítio para montar a tenda. Tinha que encontrar um sítio plano e abrigado do vento, para que o efeito do frio não fosse tão intenso durante a noite. Com a pequena lanterna de leds da bateria do telemóvel, procurei primeiro do lado direito da estrada: era uma encosta virada para oeste, e o vento previsto para essa noite era de noroeste. Não encontrei nenhum espaço plano suficiente para colocar a tenda. Voltei à estrada e parei, mais à frente, do lado esquerdo debaixo de um pinheiro: havia um espaço quase plano no declive que subia até ao topo do monte, mas ficava mesmo virado para noroeste, portanto voltei à estrada.

Desci pelo caminho, pesquisando, tanto à esquerda, como à direita, mas a arborização era intensa e não permitia a montagem da tenda. Continuei a descer, passei por baixo de um pinheiro caído e, mais à frente, o caminho desembocou numa encruzilhada. Era uma zona plana desbastada de árvores. À esquerda e à direita abria-se uma via de terra batida bastante mais ampla do que a vereda que me levou ali. À frente, debaixo de um amontoado denso de arbustos, uma cama de folhas secas tinha a área ideal para eu instalar a tenda.

Já dentro da tenda, comi duas bolas de arroz e uma maçã. Lavei os dentes e deitei-me. A Teresa tinha-me telefonado um pouco antes e sugeriu-me que tapasse a janela de respiração da tenda, para que não entrasse tanto frio. Às escuras, consegui tapá-lo e isso atrasou a entrada do frio, o que me permitiu dormir quatro horas, mas reteve a humidade dentro da tenda. Na manhã seguinte todos os objetos estavam cobertos com uma película fina de pequenas gotícolas de água, assim como o interior da tenda. Levantei-me às 6h. Não pude esperar que a tenda arejasse: enrole-a e meti-me ao caminho.