Ilhas da Ria Formosa – capítulo VI

O sexto troço foi a passagem da barra Culatra-Armona a nado.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap6.kml

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Início: 26-09-2015, 13:58
Velocidade média: 2.126 km/h
Tempo: 00h 15m 58.643s
Espaço: 0.566 km

Enquanto esperávamos pela paragem da maré, passaram alguns barcos na barra Culatra-Armona. A barra tem cerca de 560 metros, precisaríamos de dez a quinze minutos para a atravessar a nado, e por isso havia o risco de nos cruzarmos com uma lancha, ou um barco de pescadores.

Pouco tempo antes de entrarmos na água, passou um barco de recreio perto de nós com uns indivíduos de aparência russa ou eslava: dois homens e uma mulher. A mulher ia à frente, no convés, em topless. Pararam umas dezenas de metros à frente, do lado da ria, saíram do barco, vieram até terra; ouvia-se o som das vozes deles, embora fosse incompreensível.

Quando a água deixou de correr, preparámo-nos para entrar – mochila nas costas e prancha na mão – e avançámos mar adentro. Entretanto, do mesmo lado de onde tinha vindo o barco anterior, chegou uma lancha da polícia marítima. Aproximou-se dos russos e parou. Interpelaram-nos e, antes que viéssem ter connosco e nos proibissem de atravessar a barra a nado, deitámo-nos em cima das pranchas e começámos a nadar.

Com maré cheia, a barra tem quinhentos e sessenta metros. Já tinha nadado mais de metade quando surgiu um barco de pescadores. Era uma barco cabinado e alto. Decidi bater os pés com força, para levantar água e tornar-me visível. Penso que ele me viu, pois desviou-se e continuou o caminho para sul.

Cheguei à ilha da Armona em quinze minutos. Pousei a prancha e a mochila e fiquei à espera do Igor, que se atrasou por ter algumas dificuldades em nadar com a mochila às costas. Entretanto o barco do pescador voltou para trás e não viu o Igor. Passou perto, mas sem perigo. Daí a pouco inverteu o rumo e voltou a navegar para sul. Aparentemente andava a pescar ali mesmo na barra, mas não viu o Igor e voltou a passar perto dele.

Um pouco mais tarde, o Igor chegou à Armona e sentámo-nos na areia a descansar durante uns minutos.

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Ilhas da Ria Formosa – capítulo V

O quinto troço foi a ilha da Culatra, com paragem a meio para pequeno almoço.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

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Início: 26-09-2015, 08:36
Velocidade média: 2.827 km/h
Tempo: 02h 56m 31.618s
Espaço: 8.318 km

Chegámos à Culatra! Conseguimos passar a barra de Faro.

Um dia, há muitos anos atrás, morri ali; e voltei a nascer. Estava a fazer caça submarina do lado leste do molhe da Culatra/Farol e apanhei um polvo com três quilogramas e meio. O polvo era enorme e tive imensa dificuldade em dominá-lo. Tinha o polvo preso no arpão da espingarda e queria pendurá-lo na boia para poder continuar a caçar, mas o polvo era demasiado grande e rápido. Demorei talvez quinze minutos para conseguir fazê-lo. Era de manhã, numa lua de marés vivas e a maré estava a encher. Eu estava concentrado a lidar com o polvo e não dei conta de estar a ser, lentamente, puxado pela corrente. Quando me apercebi, já estava demasiado próximo da entrada da barra e a corrente era tão forte que, apesar do desespero com que bati os pés não consegui contrariar a força da água. Deixei-me levar e centrei a minha atenção em evitar embater nas pedras do molhe. Entretanto a boia ficou presa nas rochas. Tive que largar a arma, que estava atada à boia por uma corda com cerca de quinze metros, e deixei-me levar pela água. Passei ao lado de um cargueiro enorme, à entrada da barra, e depois junto a uma traineira. Acenei a pedir ajuda, mas o pescador acenou-me de volta, como se me cumprimentasse. As ondas eram enormes e tapavam-me a visibilidade. Olhei para o fundo e não vi nada, apenas água por ali abaixo: mais de cinquenta metros de profundidade. Desisti. Logo depois, já no interior da Ria, a barra alarga, a água tem mais espaço, a ondulação diminui e a corrente acalma. Nadei para o molhe. Entretanto a boia, que se tinha soltado, veio com a corrente e pude recolhê-la, assim como a arma e o polvo. Foi a segunda vez que nasci.

Chegámos à Culatra. O maior obstáculo estava vencido. Já nada nos podia parar, nem mesmo a próxima barra com mais de quinhentos metros de comprimento. Senti uma felicidade extrema e uma força enorme para continuar.

Chegada à Culatra
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Barra de Faro, uma barra concorrida. Aqui a Culatra, ao fundo a Barreta.
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Partimos, ao longo do molhe, a caminho do farol. Ainda não eram 9h e quase não se via ninguém, para além dos pescadores.

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Ao fim de um quilómetro, chegámos ao fim do pontão. Nesse local, para leste, para o lado do mar, estão as ruínas de um antigo pontão que, em 1984, ainda protegia uma pequena praia que tinha um acesso por uma escada de pedra, um pouco mais a norte.

Fotografia do pontão que protegia a prainha, durante uma agitação marítima de levante. Foto minha de 1984.
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Numa noite de agosto de 1984, por volta da meia noite, fui fazer caça submarina para a prainha. Cerca de meia hora mais tarde, ouvi um burburinho, vindo do pontão e tirei a cabeça para fora da água para tentar perceber o que se passava. Eram os meus parceiros de férias, que caminhavam pelo pontão, naquela noite sem lua, a gritar “invasão, invasão”. Prolongavam bastante a primeira sílaba, carregada talvez pelo vodca e pelo gin que tinham bebido no café da Associação dos moradores do Farol, e o som – caso seja possível reproduzi-lo em escrita – era algo como “in-iinn-vasão, in-iinn-vasão”. Voltei a mergulhar a cabeça, mas pouco depois o rumor aumentou de amplitude. Um deles – o Miguel – atirou-se para a prainha, na escuridão, de uma altura de quatro metros, e bateu com o calcanhar numa pedra. Gritou de dor, os outros correram a ajudá-lo, mas os sete decilitros de gin que tinha bebido depressa ajudaram a dor a diluir-se. Não sabemos se partiu o calcanhar – que inchou – mas coxeou durante o resto das férias.

Cerca de duzentos metros mais à frente, e um ano depois, junto às escadas de acesso à prainha, sentei-me com o Joaquim a comer uma melancia de quatro quilogramas. Comemos metade cada um e ficámos a repousar durante mais de uma hora deitados com as costas em cima do cimento escaldante do pontão. A ondulação era fraca e a água tinha cerca de cinquenta centímetros, lá em baixo, junto às escadas que davam acesso à prainha. O topo das escadas elevava-se, talvez, dois metros e meio em relação à água, e quando vinha uma onda a água teria setenta e cinco centímetros de altura. Decidi mergulhar para a água a partir dali. Esperando que viesse uma onda, e saltando bem para a frente, podia chegar quase na horizontal, e compensar a baixa profundidade da água. Se tivesse visto o filme Mar Adentro, que só foi produzido vinte anos depois, talvez tivesse pensado melhor antes de mergulhar. Bati com a cara no fundo, raspei com o peito, fiquei a sangrar do nariz e com a boca cheia de areia.

Chegada ao farol
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A zona do balnear do Farol mudou muito desde que lá estive nos anos oitenta. As imediações do farol, antes despovoadas, têm agoras mais construções e estabelecimentos comerciais.

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Depois de passarmos o farol, descemos até ao areal e começámos a caminhada pela areia. A maré estava vazia, as dores nos pés pareciam ter acalmado, e a areia húmida estava suficientemente compacta para permitir caminhar a um bom ritmo.

Ao fim de quartrocentos metros, deparámos com uma obra no meio da praia.

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Um tubo largo e enorme descia pela areia, vindo das dunas, até ao mar. Passámos por cima do tubo e continuámos o percurso. Mais à frente, ouvia-se o som de uma escavadora, que espalhava areia pela praia. Um trabalhador da obra soprou um apito e obrigou-nos a contornar a obra pelo norte, pela zona das dunas. O caminho pela areia seca das dunas é mais difícil, pois os pés enterram-se e derrapam na areia. Fizémos cerca de seiscentos metros pela areia mole, até ao fim da obra, e depois voltámos à areia molhada.

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A cerca de dois quilómetros de distância do farol, fica a zona dos hangares. Outrora um local com meia dúzia de edificações para guardar equipamento de pesca, está agora transformado numa zona de suporte a turismo quase selvagem, com uma míriade de construções ilegais na zona da ria.

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Um quilómetro mais à frente, fica a zona balnear da povoação de Culatra. Parámos para tomar o pequeno almoço.

Eram 9h30m e não havia ninguém na praia.

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De leste a oeste, não se via uma única pessoa sobre a areia. A praia da Culatra tem esta caraterística: mesmo no pico do verão, há imenso espaço para desfrutarmos da areia, da água, da calmaria, e podermos ter realmente férias. E não há o risco de deixar de ser assim. Porquê? Porque para ir à praia da Culatra é necessário andar meia hora de barco – e só há barcos de duas em duas horas – e, depois, é preciso andar meia hora a pé até chegar ao mar. Tendo em conta que à maior parte dos veraneantes não lhe passa pela cabeça apanhar o barco das 7h da manhã, nem sequer o das 9h, terá que fazer o percurso debaixo da torreira do sol do meio-dia e nunca mais lá volta. 🙂

Quando estou de férias no Algarve, no verão, levanto-me às 5h45m para, depois de um percurso de cinquenta minutos na Via do Infante mais algumas estradas regionais, apanhar o barco das 7h da manhã, em Olhão, e ter uma praia de dez quilómetros só para mim durante duas horas. É esse o meu conceito de paraíso na Terra.

Aproximámo-nos da barraca de suporte à zona concessionada e parámos à sombra para tomar o pequeno almoço.

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O meu pequeno almoço foi uma bola de arroz e fruta. Enquanto comíamos, chegaram os banheiros que nos pediram para nos afastarmos da barraca, porque precisavam de trabalhar. Terminámos o pequeno almoço e fomos para o meio do areal. Tínhamos bastante tempo até à próxima mudança de maré e já não faltava muito para chegarmos ao extremo leste da ilha, por isso aproveitámos para descontrair.

Lavei os dentes, fiz uns estiramentos, dei uns mergulhos e fui aos sanitários.

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Os equipamentos de suporte têm vindo a aumentar na praia da Culatra, nos últimos anos. Inicialmente, era uma praia selvagem. Depois passou a ter o apoio de um nadador-salvador que vinha de Olhão todos os dias. Mais tarde, construíram uma passadeira de madeira, para evitar que os banhistas se deslocassem por cima das dunas, construíram os sanitários e a barraca de suporte às atividades balneares.

Tenho sentimentos mistos em relação a estas alterações. Por um lado, gosto do ambiente selvagem e natural que uma praia pode proporcionar; por outro lado, se a praia começa a ser mais frequentada, é bom que haja equipamentos de apoio, nomeadamente sacos para o lixo e recolha desse lixo, pois os veraneantes não são os seres mais conscientes deste mundo.

Povoado da Culatra, ao fundo
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Adoro a Culatra. Gosto de pessoas que têm uma vida independente, uma vida dura, e que lutam todos os dias para conseguirem colocar comida no prato. Os pescadores desde sempre tiveram a minha admiração.

A Culatra é a única povoação, das ilhas de Ria Formosa, com uma escola. Tal como os outros aglomerados de casas destas ilhas, não é considerado um povoamento legal, pela administração local e central. No entanto, a administração central construiu uma escola e um infantário, com professores e educadores pagos pelas entidades públicas; e, sempre que há eleições, há mesas de voto na ilha.

A casa de banho é outro dos equipamentos bem vindos numa praia que, apesar de ter um acesso difícil, tem bastantes visitantes, principalmente na hora de mais calor. Quando cheguei à casa de banho, a água corria pela sanita: o autoclismo estava avariado. Tentei compô-lo para evitar a perda de água – que é um bem precioso, no Algarve de verão -, mas precisava mesmo de ser substituído. Fechei a torneira e fui informar o responsável pela barraca da praia. Inicialmente recebeu-me mal, já nos tinha expulso de perto da barraca – deve ter pensado que ficámos por ali a dormir na noite anterior, que éramos uns vagabundos – mas depois, quando percebeu a minha preocupação, agradeceu-me – disse-me que já tinha comunicado aos responsáveis – e foi tentar reparar o autoclismo.

Espalhei protetor solar na cara, coloquei os óculos escuros, pois íamos caminhar contra o sol, que ao refletir na água multiplica a intensidade luminosa, pus a mochila às costas e recomeçámos a caminhada. Tínhamos cerca de cinco quilómetros pela frente, até à barra Culatra-Armona, e a mudança da maré era só daí a três horas.

Pelo caminho, encontrámos apenas uma mulher, que tinha entretanto chegado no barco das 9h.

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Mais à frente, a pouco mais de um quilómetro do final do trajeto, estava um sofá perdido nas dunas.

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Não consigo imaginar como terá chegado ali, mas aproveitámos para fazer a fotografia mais inesperada e improvável de toda a caminhada.

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Quinze minutos mais tarde chegámos ao extremo leste da ilha da Culatra. A corrente estava ainda bastante forte. Tivémos que esperar cerca de duas horas até a maré encher completamente e só depois pudémos atravessar para a Armona.

Na Culatra, com a Armona ao fundo
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A espera foi longa. Voltámos a barrar-nos com protetor solar e fomos várias vezes mergulhar para nos refrescarmos.

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Ilhas da Ria Formosa – capítulo IV

O quarto troço foi a passagem da barra de Faro a nado.

Deitámo-nos por volta das 23h30m do dia 25, numa depressão que existia na areia, junto às tendas dos pescadores, que aparentavem ir ficar a noite toda acordados e a pescar.

Acordámos às 6h30m da manhã. O sol ainda não tinha nascido, mas o dia já estava bastante claro.

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A maré vazia era às 7h37m. Fui até ao extremo sul do pontão ver se era viável descer para a água naquele local. A maré ainda não tinha parado e a corrente continuava forte. Decidimos entrar na água pela praia da Barreta, imediatamente a oeste do molhe.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap4.kml

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Início: 26-09-2015, 07:46
Velocidade média: 0.729 km/h
Tempo: 00h 24m 46.197s
Espaço: 0.301 km

“Estes vão dormir aqui no buraco?”, ouvi um pescador perguntar a outro, quando já estava fechado dentro do saco-cama.

Naquela ilha, naquele momento, só havia pescadores e nós dois. Os pescadores estavam com receio da nossa presença. Há um conjunto de regras e limitações impostas à pesca lúdica que, por vezes, os pescadores não cumprem: limite do número de canas, linhas ou anzóis que podem utilizar, a iluminação noturna, o tamanho, número e espécies de peixes, etc. E os pescadores estavam, na certa, receosos que fossemos fiscais de alguma entidade pública.

Na noite de dia 25, quase no fim da caminhada na Barreta, a cerca de um quilómetro da barra de Faro, encontrámos as primeiras pessoas que vimos no trajeto. Eram pescadores e tinham várias canas espetadas na areia, ao longo da linha de costa. Por cortesia, cumprimentei-os, perguntei se já tinham pescado algo, e depois, sem pensar, perguntei a um deles se aquelas canas eram todas dele. Respondeu-me de imediato que não. Pela prontidão da resposta, percebi que aquela era uma questão sensível e que teria que ter mais cuidado nas perguntas que fazia.

Ver mais informação sobre as regras da pesca lúdica: aqui.

Durante toda a noite, antes de nos deitarmos, os pescadores que estavam no pontão olhavam para nós com alguma desconfiança. E quando nos deitámos, comentaram a nossa presença em voz alta, numa aparente manifestação de nervosismo, talvez na esperança de obterem uma resposta.

Dentro do saco-cama, publiquei as fotografias no Facebook e respondi a algumas mensagens. Ativei o despertador para a 1h da manhã. A maré cheia era à 1h39m e eu queria ver se era possível passar a barra de noite para continuar a caminhar até à extremidade leste da ilha da Culatra antes da próxima maré vazia.

Não foi fácil adormecer. Os pescadores estiveram sempre a falar, os barcos passavam e, principalmente os de grande tonelagem, emitiam intensas vibrações de baixa frequência, que me acordaram algumas vezes ao longo da noite. Mas o pior foi a festa na Culatra, junto ao farol, ali mesmo em frente, que só terminou às 5h da manhã.

À 1h da manhã, o despertador tocou e eu levantei-me. Calcei-me e fui até ao fim do pontão. A maré ainda não tinha parado, continuava a encher, e a corrente era fortíssima junto às pedras. Não era possível entrar ali. Além disso, não havia visibilidade suficiente, apesar da lua estar cheia e quase no zénite, o que tornava a travessia da barra extremamente arriscada. Desisti da ideia de fazer a travessia de noite e voltei para o scao-cama.

Acordei pouco antes das 6h30m. Ainda dentro do saco-cama pensei: “O que é que estou a fazer aqui? Esta barra é impossível de passar a nado. Vou mas é voltar para trás. Ainda estou a tempo.” Por vergonha, fiquei calado e deixei estes pensamentos definharem dentro da minha cabeça. Sentei-me, abri o saco-cama e fiz umas fotografias.

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O ar fresco, o som dos barcos, o cheiro a gasóleo e iodo, fizeram-me recordar os tempos em que ia com o meu pai para o cais do Ginjal, em Cacilhas, ver os estivadores a carregarem ou descarregarem os navios acostados, em 1967 e 1968. As calhas de transporte de gelo, das quais já não restam sinais, funcionavam com a gravidade, como um plano inclinado, e, de vez em quando, ouvia-se um bloco de gelo a descer para um barco. Os estivadores, passavam com um saco de serapilheira em cima das costas e, por cima do saco, uma peça grande de um alimento congelado do qual já não me recordo. Uns anos mais tarde, a partir de 1973,passei a ir para o Ginjal sozinho, com um camaroeiro, apanhar carangueijos. Mais tarde ainda, em 1982, fui estudar para Lisboa, e fazia a travessia do Tejo todos os dias de manhã. E o cheiro a gasóleo misturado com o odor da água salgada foi sempre uma constante.

Foi esse cheiro que recordei ali, sentado a olhar para aquela enorme massa de água que saía barra fora. Foi esse cheiro, juntamente com o ar fresco na cara, que me deu alento para continuar. Saltei do saco-cama, calcei-me, arrumei tudo na mochila e fui até ao sul do pontão. A maré ainda não tinha parado e a corrente estava muito forte junto às pedras. Decidimos entrar na água pela praia da Barreta.

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Descemos até à praia, vestimos o fato de banho e pusemos a roupa nas mochilas. Pegámos nas pranchas e caminhámos para a água com as mochilas às costas. Os pescadores, para quem a nossa presença até ali tinha sido um enigma, ficaram parados a olhar para nós. Não conseguiam perceber o que se estava a passar.

“Onde é que vão estes dois, com uma mochila às costas, em cima de uma prancha? Para Marrocos?”, terão pensado. Sim, Marrocos era mais plausível do que passar a barra de Faro a nado.

Pousaram as canas e ficaram a olhar para nós, de queixo caído, enquanto entrávamos mar adentro. Alguns, mais tarde, devem ter pensado que aquilo nunca aconteceu. Devem ter pensado que foi imaginação, uma visão fruto das dez ou mais cervejas que beberam durante a noite.

Demorámos pouco mais de dez minutos a passar a barra a nado, em cima das pranchas. No total, entre arrumar a roupa na mochila, entrar dentro de água, passar a barra, chegar à Culatra, subir para o pontão, abrir a mochila e parar o registo do percurso, foram vinte e quatro minutos.

Passaram duas lanchas enquanto fazíamos a travessia em cima das pranchas. Gritámos, acenámos, mas só nos viram já muito perto. Na próxima vez levo uma bandeira vermelha encaixada na prancha de bodyboard, a um metro de altura, assim como um apito, ou buzina de ar comprimido.

Ao chegarmos perto do molhe da Culatra, estava um pescador junto à água a lavar material de pesca. Nadámos na direção dele pois, a partir dali, haveria certamente acesso à superfície do pontão. Quando nos aproximámos mais, um outro pescador que estava nas imediações, em cima do pontão, lançou o anzol quase para cima de mim, com um olhar de desconsideração por nós.

Nós não devíamos estar ali, ninguém passa a barra a nado, e, ainda por cima, estávamos a ocupar a sua área de pesca. Bem… isto foi o que eu li no olhar e na atitude dele.

Mas logo depois a atitude mudou. Abriu um sorriso, guiou-nos pelo meio das pedras, pois tinha uma visão privilegiada, de cima do pontão, e não mais se calou com piadas, curiosidades e técnicas de pesca, até irmos embora, meia hora mais tarde. Era um indivíduo do norte, de uma povoação a norte do Porto, não me lembro qual, talvez Vila do Conde, mas, apesar de tagarela, já tinha feito imensos amigos entre os pescadores algarvios, muito mais calados e reservados.

Chegada à Culatra/Farol.
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Ilhas da Ria Formosa – capítulo III

O terceiro troço do percurso foi a travessia da ilha da Barreta de oeste para leste, até à barra de Faro.

Chegámos à ilha da Barreta Barrinha às 20h18m do dia 25 de setembro de 2015. Secámo-nos, vestimos a roupa e continuámos a caminhada, agora com a lua cheia já no horizonte, de frente para nós.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap3.kml

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Início: 25-09-2015, 20:24
Velocidade média: 4.913 km/h
Tempo: 01h 12m 29.675s
Espaço: 5.936 km

A Barreta é a ilha mais a sul do continente português. Sempre tive vontade de visitar a Barreta e de estar no ponto mais a sul de Portugal continental. Fiz férias na ilha da Culatra, tanto no núcleo de pescadores, como na zona balnear do Farol, durante muitos anos e nunca tinha tido oportunidade de ir à Barreta. Fiquei com a sensação de que a Barreta – ou Deserta – era um local inacessível, ou apenas acessível a alguns priveligiados com barco, com autonomia para a visitarem quando quisessem.

Quando coloquei os pés na ilha da Barreta senti uma felicidade extrema e difícil de explicar. Ao caminhar pela Barreta tive a sensação de ter conquistado um bastião que me esperava há muito, um marco que eu precisava de alcançar, um obstáculo que eu precisava de vencer. Não de uma forma simplista, alugando um barco-táxi como um turista, mas com um esforço, uma dificuldade e uma perigosidade, inerentes ao desconhecimento da travessia, e apenas com meios próprios. E consegui.

Caminhámos a custo durante cerca de quatro quilómetros até começarmos a vislumbrar, ao fundo, uma inflexão na costa para norte. Estávamos a chegar ao ponto mais a sul de Portugal. A lua já estava alta e parámos para tirar uns autorretratos no local.

Ilha da Barreta, no ponto mais a sul de Portugal continental, 25-09-2015, 21h12m
36°57’36.5796″ N, 007°53’13.3404″ W
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Daí até à barra de Faro são mais dois quilómetros. Demorámos mais vinte e quatro minutos a concluir o percurso.

Pelo caminho fotografei um covo que se soltou de uma armação de algum pescador e deu à costa.
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Entretanto calcei as sandálias. A dificuldade em caminhar agudizava-se a cada passo. Caminhava inclinado para a frente, para não ter que fazer tanta força com as pernas, nem com os pés, para tentar aliviar as dores nas articulações társicas. Procurei um caminho mais plano para não esforçar tanto os joelhos e as ancas. Mas o caminho plano tinha areia mais mole e forçava mais as articulações dos pés. Cada passo era um martírio. Por vergonha não parei.

As sandálias estão velhas e secas e feriram-me o tornozelo direito. Felizmente levei três pensos rápidos que fui usando para proteger a ferida da sandália.

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Chegámos ao molhe oeste da barra de Faro às 21h36m. Jantámos e telefonámos à família, para os colocar a par dos acontecimentos, e para os deixar descansados. Enviei o percurso registado na minha App Highway Star para o servidor, tal como fiz sempre no final de cada troço, para a minha mulher poder consultar.

Os pés latejavam. Descalcei-me e assentei as plantas dos pés no betão do molhe para tentar obter algum alívio, mas em vão. Tinha os pés inchados e doridos e doíam-me também os tornozelos.

Era de noite, mas a lua cheia iluminava toda a área circundante e era posível ver, com alguma clareza, os pescadores no molhe leste, assim como todas as embarcações que navegavam nas imediações, mesmo que algumas não tivessem iluminação própria.

Depois de jantarmos, descansámos uns minutos e decidi, então, percorrer o molhe de norte a sul para estudar a forma de entrar dentro de água na maré seguinte e passar a barra de Faro até à ilha da Culatra/Farol. O molhe oeste tem cerca de quinhentos metros de comprimento que percorri nos dois sentidos, num total de mil metros.

Desloquei-me primeiro à extremidade sul do molhe, até ao farol, e desci, pelos blocos de cimento, até junto da água. A maré estava a encher e a corrente era fortíssima no extremo do pontão. Com a maré parada talvez conseguíssemos entrar dentro de água naquele local. A extremidade sul do pontão oeste é o ponto da ilha da Barreta que está mais próximo do molhe da ilha da Culatra. Fica apenas a duzentos metros de distância. Se fosse possível entrar na água nesse local, só teríamos que nadar duzentos metros na barra de Faro, que é a barra mais perigosa de todas as que teríamos que passar. É uma barra atravessada por cargueiros que se destinam ao porto de Faro, lanchas, traineiras e outros barcos de pesca e recreio, todos eles mais rápidos do que nós.

Caminhei, depois, ao longo do molhe, para norte, à procura de outros locais onde fosse possível entrar na água para atravessar a barra. Apesar das dores nos pés, percorri o molhe de sul a norte, pois não conseguiria dormir em paz se não encontrasse uma solução viável para a passagem da barra.

Espalhados ao longo do molhe, estavam mais de trinta pescadores à cana que iam pescando, aqui e ali, bailas e robalos. Tinham montado tendas na areia junto ao molhe, do lado da ilha, onde guardavam as bebidas e comida que os iriam manter ali durante a noite.

Era de noite, a visibilidade era limitada, não era fácil fazer uma análise precisa da configuração do molhe, mas pareceu-me que havia apenas dois locais por onde poderíamos aceder ao mar a partir do molhe: a extremidade sul, ou a extremidade norte. A extremidade sul distava apenas duzentos metros da ilha da Culatra, sendo por isso o acesso mais seguro, enquanto a extremidade norte distava mais de seiscentos metros.

Havia uma terceira possibilidade de acesso ao mar. Poderíamos entrar na água a partir da praia da Barreta junto ao molhe. Teríamos apenas que contornar o extremidade sul do molhe e, depois, nadar mais duzentos metros. No total nadaríamos cerca de trezentos metros.

De manhã, com mais visibilidade, analisaríamos melhor as três opções e então tomaríamos a decisão de como passar a barra.

Decidimos, então, ir dormir. Escolhemos uma depressão na areia, com seis por dez metros, junto a uma pequena edificação em alvenaria, de base quadrada, com cerca de três metros de lado. Ficámos nas traseiras das tendas dos pescadores. O ar esfriou um pouco mais do que o previsto, havia algum vento, embora fraco, e humidade, vindos de oeste, mas essa zona rebaixada protegia-nos do ar marítimo mais fresco.

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Imagem do Google Maps

Ilhas da Ria Formosa – capítulo II

O segundo troço do percurso foi a passagem da barra do Ancão, ou Barrinha.

Chegámos à Barrinha às 19h50m do dia 25 de setembro de 2015. A maré ainda não tinha entrado pelas pequenas ilhas de areia adentro e era possível passar a barra sem ser a nado. Era de noite e a lua cheia ainda não tinha aparecido no céu, por isso não conseguíamos ter uma visão geral da barra.

Na realidade esta zona era uma entrada de água para a ria, substituta da barra assoreada que tinha existido anteriormente, dois ou três quilómetros mais a oeste, e muito mais assoreada do que a anterior Barrinha.

O meu calcanhar direito tinha uma mancha de sangue pisado e isso dificultava-me o andar. As articulações dos dois pés, entre o tarso e o metatarso estavam doridas e ainda só tínhamos cumprido o primeiro troço do percurso. A necessidade de chegar à barra do Ancão à hora do estofo da maré podia ter posto em causa toda a restante caminhada. Mas agora, daqui para a frente, os prazos a cumprir eram muito menos exigentes, portanto pensei que poderia vir a recuperar a condição física e que poderia continuar a caminhar normalmente nos dias seguintes.

Vestimos os calções de banho, guardámos a roupa nas mochilas e entrámos na água. Ao fim de vinte ou trinta metros chegámos a terra. Tinhamo-nos molhado apenas até à cintura. Voltámos a vestir-nos e continuámos a caminhada. Só então percebemos que estávamos numa pequena ilha de areia e tivémos que voltar a vestir os calções de banho.

Ouvia-se o mar ao fundo, a sul, e, apesar da lua ainda não estar visível, havia uma luminosidade que permitia distinguir a superfície plana da água, calma e sem ondulação à nossa volta e em torno de dezenas de ilhotas a perder de vista. Pequenas ilhas de areia de cor negra e dourada, rodeadas de água completamente lisa – não havia vento – escura como crude, pontuada aqui e ali por pequenas manchas cintilantes e prateadas, como ouro e prata cobertos por uma película de celuloide.

Entrámos de novo na água e caminhámos para sudeste pelo meio das poças, com as mochilas em cima das pranchas de bodyboard e com a água até ao meio do peito. Andámos aos esses, na escuridão, durante vinte e seis minutos até conseguirmos chegar à ilha da Barreta, conforme o mapa abaixo.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap2.kml

Ilhas-mapa-02

Início: 25-09-2015, 19:51
Velocidade média: 2.048 km/h
Tempo: 00h 26m 27.164s
Espaço: 0.903 km

O percurso dentro de água aliviou-me as dores nos pés. À chegada à Barreta, ou ilha Deserta como também é conhecida por não ter habitações nem população residente, fiquei com a sensação de que as mazelas tinham desaparecido. No entanto, assim que recomeçámos a caminhar, agora com a lua já no horizonte leste, as dores voltaram. Tivémos que abrandar o ritmo da marcha.

Ilhas da Ria Formosa – capítulo I

O primeiro troço do percurso teve início na praia do Ancão, limite ocidental da Ria Formosa, e terminou na Barrinha, barra marítima que separa a ilha de Faro da ilha da Barreta.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap1.kml

Ilhas-mapa-01

Início: 25-09-2015, 18:04
Velocidade média: 6.568 km/h
Tempo: 01h 46m 31.747s
Espaço: 11.661 km

A ilha de Faro é, na verdade, uma península: não é uma ilha, está ligada ao continente na zona da praia do Ancão.

Demos início à caminhada com a maré praticamente vazia. Caminhámos sempre sobre a areia molhada e eu caminhei descalço durante todo o percurso.

Início da caminhada, na praia do Ancão
Cap1-Ancao-1

Um casamento na praia do Ancão. É usual fazerem-se casamentos na praia, durante o verão. No ano de 2015 presenciei vários casamentos nesta mesma praia.
Cap1-Ancao-2

Chegada à praia de Faro
Cap1-PraiaDeFaro

Já tinha, anteriormente, feito uma grande caminhada antes pela areia e tinha andado sempre descalço. Foi em 1984, do bico das lulas na península de Tróia, em Setúbal, até à lagoa de Santo André, cerca de sessenta quilómetros, num percurso que demorou dois dias. Nessa jornada, ressenti-me apenas de não ter usado óculos escuros: no fim do percuros via tudo vermelho: pinheiros, cães, etc. Mas não tive mazelas nos pés por ter ido descalço.

Desta vez, tínhamos um limite temporal a cumprir: era necessário chegar à Barrinha antes das 19h30m, para podermos fazer a travessia marítima com maré vazia, em segurança. Por isso, tivemos que imprimir um ritmo elevado à nossa caminhada, o que nos causou algumas lesões logo no primeiro troço da travessia das ilhas.

Acresce a isso o facto de que os mapas indicavam uma localização para a Barrinha que não era real. A localização dada pelo Google, inclusive no mapa de satélite, já não existia: assoreou entretanto. E portanto tivémos que andar mais do que o previsto, mas sempre condicionados pela hora da maré.

Cap1-Barrinha-0

No mapa acima, vê-se um canal que separa as duas ilhas – Faro à esquerda e Barreta à direita – que eu esperava atravessar a nado, com um comprimento estimado de cinquenta metros na maré vazia. A linha vermelha indica o nosso percurso. Esse canal dista, no mapa, cerca de oito quilómetros do início do percurso, a praia do Ancão. Mas passaram oito, nove, dez quilómetros e o canal não aparecia. E o tempo ia passando. E a maré estava a começar a subir. Estava a subir ligeiramente, mas já se via a ondulação a ganhar força, e a água a cobrir areias antes descobertas.

Cerca de quinhentos metros antes da barra anunciada, e uma vez que não era possível avistá-la nos quilómetros mais à frente, subi o cordão de areia para, de uma posição mais elevada, ter uma perspetiva mais ampla do caminho restante. Não consegui ver nada. Não parecia haver fim no cordão dunar. É certo que o sol estava a desaparecer e que a baixa luminosidade já não me permitia distinguir bem a areia de algum canal marítimo que existisse mais à frente, mas não vi sinais do fim da ilha.

Vi, no entanto, outra coisa. Naquele preciso local estavam a decorrer obras de grande envergadura. Aliás mais à frente, na ilha da Culatra e na ilha de Cabanas, estavam a decorrer obras de grandes dimensões, também. Não consegui perceber do que se tratava. Imaginei que fossem obras para a criação de infraestruturas de água e saneamento, mas este cordão de ilhas é parque natural e as políticas têm sido sempre consistentes com isso: demolir as construções ilegais e limitar o acesso às ilhas. E obras de saneamento de tamanha envergadura pareciam contrárias a essas políticas. Coloquei também, como hipótese, a construção de equipamento de defesa e de observação da orla marítima. Mas não consegui, na altura, aclarar esta questão.

Hoje fiz uma pesquisa na Internet com o objetivo de deslindar esta questão e encontrei uma notícia que parece esclarecer que obras estavam a decorrer na Barrinha e na Culatra. Aparentemente, o que eu presenciei na ilha de Faro eram obras de desassoreamento da ria e da barra do Ancão (Barrinha). É provável que, numa próxima travessia das ilhas, a barra do Ancão (Barrinha) já esteja desassoreada e tenha que ser atravessada a nado.

Quanto à ilha da Culatra, na zona do Farol, encontrei uma outra notícia que reforça a anterior sobre o propósito das obras: o desassoreamento da praia para melhorar o canal de navegação. O que é curioso é essa intervenção estar a ser feita na zona balnear, junto ao mar, onde não há nenhum canal de navegação, interditando, além disso, os banhistas de acederem à praia.

Na obra da ilha de Faro havia grandes escavadoras e camiões, que estavam já parados àquela hora da tarde, quase noite. A zona da obra estava fechada com uma cerca de material plástico, de norte a sul, para não permitir a passagem de pessoas para leste, para onde nós íamos. No entanto, com a maré vazia, passava-se pela areia molhada sem se dar conta da cerca, ou das obras. Havia pescadores para leste da cerca, assim como alguns turistas, nomeadamente um casal que passou por nós agarrado a uma garrafa de champanhe: Moet & Chandon!

Continuámos a caminhar e, cerca de meia hora mais tarde, chegámos à Barrinha.

Quase à chegada à Barrinha, o pôr do sol: uma explosão termonuclear.
Cap1-Barrinha-1

Chegada à Barrinha, às 19h50m ainda com maré vazia e parada.
Cap1-Barrinha-2

Ilhas da Ria Formosa – Introdução

A partida

De acordo com o meu plano original, a travessia das ilhas da Ria Formosa pela areia foi feita de oeste para leste. Começámos, portanto, o percurso na praia do Ancão, extremidade oeste da Ria Formosa.

Partimos de Lisboa, eu e o Igor, às 15h de sexta feira, dia 25 de setembro, do ano 2015. Não foi possível sair mais cedo por limitações profissionais de ambos, mas era importante chegarmos o quanto antes ao Algarve para não perdermos a maré vazia para a passagem da primeira barra marítima.

A primeira barra marítima a atravessar a nado era a Barrinha: barra entre a ilha de Faro e a ilha da Barreta. Íamos atravessá-la de noite e eu não a conhecia, nunca tinha estado naquele local e, por isso, era conveniente passá-la com maré vazia, sem correntes marítimas.

A maré vazia estava prevista para as 19h19m, segundo o Instituto Hidrográfico. Esta previsão não era exatamente para a zona da Barrinha, mas para uma zona mais a leste – a barra de Faro – que fica a seis quilómetros de distância.

A distância prevista no plano para atravessar a ilha de Faro, do Ancão até à Barrinha era de dez quilómetros. Foi uma distância obtida a partir de mapas na Internet, tanto mapas de satélite, como mapas de representação gráfica do terreno.

Estimei que conseguiríamos percorrer essa distância, com maré vazia, pela areia molhada, em uma hora e meia. Sendo assim, deveríamos sair da praia do Ancão um pouco antes das 18h.

Chegámos à praia do Ancão às 17h55m e começámos a caminhada às 18h04m.

Lista de material que levei para a caminhada

– prancha de bodyboard, com saco de transporte em rede de nylon
– fio dental, escova de dentes, papel higiénico
– óculos escuros (essencial para não queimar os olhos)
– um cantil com 1l de água
– comida, para 4 refeições; o resto comprei nos restaurantes no caminho
– protetor solar
– roupa leve
– fato de banho e saco cama
– sandálias (devia ter levado botas ou sapatos de ténis)
– chapéu
– smartphone, baterias (uma com 2500mA e outra com 10000mA), carregador, para registar e fotografar o percurso
– lanterna (incluída na bateria de 10000mA)
– BI, cartão de débito e 60€ em dinheiro
– mochila impermeável (quase estanque) para passar as coisas na barra
– colete de neoprene para o frio e para ajudar a flutuar
– um par de meias para as noites
– três pensos rápidos
– toalha de praia pequena (para me secar após a passagem das barras)

Ilhas – Sumário

Depois de mais de um mês de estudo e preparação, consegui um participante para me acompanhar na travessia das ilhas da Ria Formosa, pela areia junto ao mar. Começámos na praia do Ancão e terminei sozinho na Manta Rota, depois do meu parceiro ter abandonado o projeto, quase no fim, na ilha de Tavira.

Início: 25-09-2015, 18:04
Fim: 27-09-2015, 11:32

Tempo total: 41h28m
Espaço total: 58.255m
– A pé: 55.087m
– A nado: 3.168m

Culatra-sofa

O primeiro troço foi da praia do Ancão até à Barrinha: barra da ilha de Faro para a ilha da Barreta.
Início: 25-09-2015, 18:04
Velocidade média: 6.568 km/h
Tempo: 01h 46m 31.747s
Espaço: 11.661 km

O segundo troço, dentro de água foi a passagem da barra da ilha de Faro para a ilha da Barreta.
Início: 25-09-2015, 19:51
Velocidade média: 2.048 km/h
Tempo: 00h 26m 27.164s
Espaço: 0.903 km

O terceiro troço foi a ilha da Barreta, de oeste para leste, até à barra de Faro, com paragem para fotografia à luz da Lua no ponto mais a sul do continente.
Início: 25-09-2015, 20:24
Velocidade média: 4.913 km/h
Tempo: 01h 12m 29.675s
Espaço: 5.936 km

O quarto troço foi a passagem da barra de Faro a nado.
Início: 26-09-2015, 07:46
Velocidade média: 0.729 km/h
Tempo: 00h 24m 46.197s
Espaço: 0.301 km

O quinto troço foi a ilha da Culatra, com paragem a meio para pequeno almoço.
Início: 26-09-2015, 08:36
Velocidade média: 2.827 km/h
Tempo: 02h 56m 31.618s
Espaço: 8.318 km

O sexto troço foi a passagem da barra Culatra-Armona a nado.
Início: 26-09-2015, 13:58
Velocidade média: 2.126 km/h
Tempo: 00h 15m 58.643s
Espaço: 0.566 km

O sétimo troço foi a ilha da Armona em duas partes: primeiro até ao restaurante, depois até à barra Armona-Tavira.
Início: 26-09-2015, 14:37
Velocidade média: 4.314 km/h
Tempo: 00h 21m 41.696s
Espaço: 1.560 km

Início: 26-09-2015, 16:26
Velocidade média: 4.582 km/h
Tempo: 01h 36m 34.128s
Espaço: 7.374 km

O oitavo troço foi a passagem da barra Armona-Tavira a nado.
Início: 26-09-2015, 18:09
Velocidade média: 2.274 km/h
Tempo: 00h 28m 39.002s
Espaço: 1.086 km

O nono troço foi a ilha de Tavira.
Início: 26-09-2015, 18:56
Velocidade média: 4.441 km/h
Tempo: 02h 38m 09.739s
Espaço: 11.706 km

O décimo troço foi a passagem da barra Tavira-Cabanas (4 águas) a nado.
Início: 27-09-2015, 08:09
Velocidade média: 0.962 km/h
Tempo: 00h 15m 54.016s
Espaço: 0.255 km

O décimo primeiro troço foi a ilha de Cabanas, feito o mais rápido possível para tentar apanhar a barra seguinte ainda com maré vazia.
Início: 27-09-2015, 08:36
Velocidade média: 4.895 km/h
Tempo: 01h 40m 28.115s
Espaço: 8.196 km

O décimo segundo troço foi a passagem da barra Cabanas-Cacela por dentro de água.
Início: 27-09-2015, 10:21
Velocidade média: 2.117 km/h
Tempo: 00h 01m 36.930s
Espaço: 0.057 km

O décimo terceiro e último troço foi de Cacela até à Manta Rota.
Início: 27-09-2015, 11:02
Velocidade média: 3.981 km/h
Tempo: 00h 30m 38.596s
Espaço: 2.033 km

Nas próximas crónicas vou narrar o que se passou em cada um destes troços e incluir mapas da caminhada, fotografias e vídeos.

Primeira caminhada

A primeira grande caminhada pelas ilhas da Ria Formosa ocorreu nos dias 25, 26 e 27 de setembro. Começámos às 18h do dia 25 e acabei às 11h30 do dia 27. Foram 41,5 horas. Eis as medições que a minha aplicação para Android – HighWay Star – fez:

A pé (55.087m):
Ancão – Faro: 11.661m
Barreta: 5.936m
Culatra: 8.233m
Armona: 7.374m
Tavira: 11.661m
Cabanas: 8.189m
Cacela – Manta Rota: 2.033m

A nado (3.168m):
Faro – Barreta: 903m (aos ésses)
Barreta – Culatra: 301m
Culatra – Armona: 566m
Armona – Tavira: 1.086m (aos ésses)
Tavira – Cabanas (4 águas): 255m
Cabanas – Cacela: 57m

Nos próximos artigos, vou colocar os mapas destes percursos  também fotos e vídeos.

Novas medições

Estive a medir as distâncias no Google Earth e são as seguintes

Sumário
56,4km a caminhar por areia
1,42km a nadar, por partes, para passar as barras entre ilhas.

Descritivo
A pé:
Ancão – Faro: 10,8km
Barreta: 7,1km
Culatra: 8km
Armona: 9km
Tavira: 11km
Cabanas: 6,5km
Cacela – Manta Rota: 4km

A nado:
Faro – Barreta: 220m
Barreta – Culatra: 220m
Culatra – Armona: 540m
Armona – Tavira: 200m
Tavira – Cabanas (4 águas): 100m
Cabanas – Cacela: 140m

As marés para os próximos dias são:

 Sex, 2015-09-25 19:19  0.67  Baixa-mar
 Sab, 2015-09-26 01:39  3.23  Preia-mar
 Sab, 2015-09-26 07:37  0.65  Baixa-mar
 Sab, 2015-09-26 14:00  3.47  Preia-mar
 Sab, 2015-09-26 20:05  0.42  Baixa-mar
 Dom, 2015-09-27 02:26  3.44  Preia-mar
 Dom, 2015-09-27 08:22  0.41  Baixa-mar
 Dom, 2015-09-27 14:47  3.66  Preia-mar
 Dom, 2015-09-27 20:49  0.23  Baixa-mar