{"id":199,"date":"2015-10-08T23:32:36","date_gmt":"2015-10-08T22:32:36","guid":{"rendered":"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/?p=199"},"modified":"2016-03-29T11:40:07","modified_gmt":"2016-03-29T10:40:07","slug":"ilhas-da-ria-formosa-capitulo-iv","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/?p=199","title":{"rendered":"Ilhas da Ria Formosa \u2013 cap\u00edtulo IV"},"content":{"rendered":"<p>O quarto tro\u00e7o foi a passagem da barra de Faro a nado.<\/p>\n<p>Deit\u00e1mo-nos por volta das 23h30m do dia 25, numa depress\u00e3o que existia na areia, junto \u00e0s tendas dos pescadores, que aparentavem ir ficar a noite toda acordados e a pescar.<\/p>\n<p>Acord\u00e1mos \u00e0s 6h30m da manh\u00e3. O sol ainda n\u00e3o tinha nascido, mas o dia j\u00e1 estava bastante claro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-3.jpg\" rel=\"attachment wp-att-203\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-203\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-3-640x480.jpg\" alt=\"Barreta-3\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-3.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-3-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A mar\u00e9 vazia era \u00e0s 7h37m. Fui at\u00e9 ao extremo sul do pont\u00e3o ver se era vi\u00e1vel descer para a \u00e1gua naquele local. A mar\u00e9 ainda n\u00e3o tinha parado e a corrente continuava forte. Decidimos entrar na \u00e1gua pela praia da Barreta, imediatamente a oeste do molhe.<\/p>\n<p>A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/highwaystar.org\">Highway Star<\/a> que desenvolvi para o sistema operativo Android.<\/p>\n<p>O ficheiro KML do percurso est\u00e1 aqui: <a href=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/dados\/riaformosa\/RiaFormosa-cap4.kml\">RiaFormosa-cap4.kml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-04.jpg\" rel=\"attachment wp-att-200\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-200\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-04-640x297.jpg\" alt=\"Ilhas-mapa-04\" width=\"640\" height=\"297\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-04-640x297.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-04-1024x475.jpg 1024w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-04-100x46.jpg 100w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-04.jpg 1784w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>In\u00edcio: 26-09-2015, 07:46<br \/>\nVelocidade m\u00e9dia: 0.729 km\/h<br \/>\nTempo: 00h 24m 46.197s<br \/>\nEspa\u00e7o: 0.301 km<\/p>\n<p>&#8220;Estes v\u00e3o dormir aqui no buraco?&#8221;, ouvi um pescador perguntar a outro, quando j\u00e1 estava fechado dentro do saco-cama.<\/p>\n<p>Naquela ilha, naquele momento, s\u00f3 havia pescadores e n\u00f3s dois. Os pescadores estavam com receio da nossa presen\u00e7a. H\u00e1 um conjunto de regras e limita\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 pesca l\u00fadica que, por vezes, os pescadores n\u00e3o cumprem: limite do n\u00famero de canas, linhas ou anz\u00f3is que podem utilizar, a ilumina\u00e7\u00e3o noturna, o tamanho, n\u00famero e esp\u00e9cies de peixes, etc. E os pescadores estavam, na certa, receosos que fossemos fiscais de alguma entidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Na noite de dia 25, quase no fim da caminhada na Barreta, a cerca de um quil\u00f3metro da barra de Faro, encontr\u00e1mos as primeiras pessoas que vimos no trajeto. Eram pescadores e tinham v\u00e1rias canas espetadas na areia, ao longo da linha de costa. Por cortesia, cumprimentei-os, perguntei se j\u00e1 tinham pescado algo, e depois, sem pensar, perguntei a um deles se aquelas canas eram todas dele. Respondeu-me de imediato que n\u00e3o. Pela prontid\u00e3o da resposta, percebi que aquela era uma quest\u00e3o sens\u00edvel e que teria que ter mais cuidado nas perguntas que fazia.<\/p>\n<p>Ver mais informa\u00e7\u00e3o sobre as regras da pesca l\u00fadica: <a href=\"http:\/\/www.dgrm.min-agricultura.pt\/xportal\/xmain?xpid=dgrm&amp;xpgid=genericPageV2&amp;conteudoDetalhe_v2=170161\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Durante toda a noite, antes de nos deitarmos, os pescadores que estavam no pont\u00e3o olhavam para n\u00f3s com alguma desconfian\u00e7a. E quando nos deit\u00e1mos, comentaram a nossa presen\u00e7a em voz alta, numa aparente manifesta\u00e7\u00e3o de nervosismo, talvez na esperan\u00e7a de obterem uma resposta.<\/p>\n<p>Dentro do saco-cama, publiquei as fotografias no Facebook e respondi a algumas mensagens. Ativei o despertador para a 1h da manh\u00e3. A mar\u00e9 cheia era \u00e0 1h39m e eu queria ver se era poss\u00edvel passar a barra de noite para continuar a caminhar at\u00e9 \u00e0 extremidade leste da ilha da Culatra antes da pr\u00f3xima mar\u00e9 vazia.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi f\u00e1cil adormecer. Os pescadores estiveram sempre a falar, os barcos passavam e, principalmente os de grande tonelagem, emitiam intensas vibra\u00e7\u00f5es de baixa frequ\u00eancia, que me acordaram algumas vezes ao longo da noite. Mas o pior foi a festa na Culatra, junto ao farol, ali mesmo em frente, que s\u00f3 terminou \u00e0s 5h da manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u00c0 1h da manh\u00e3, o despertador tocou e eu levantei-me. Calcei-me e fui at\u00e9 ao fim do pont\u00e3o. A mar\u00e9 ainda n\u00e3o tinha parado, continuava a encher, e a corrente era fort\u00edssima junto \u00e0s pedras. N\u00e3o era poss\u00edvel entrar ali. Al\u00e9m disso, n\u00e3o havia visibilidade suficiente, apesar da lua estar cheia e quase no z\u00e9nite, o que tornava a travessia da barra extremamente arriscada. Desisti da ideia de fazer a travessia de noite e voltei para o scao-cama.<\/p>\n<p>Acordei pouco antes das 6h30m. Ainda dentro do saco-cama pensei: &#8220;O que \u00e9 que estou a fazer aqui? Esta barra \u00e9 imposs\u00edvel de passar a nado. Vou mas \u00e9 voltar para tr\u00e1s. Ainda estou a tempo.&#8221; Por vergonha, fiquei calado e deixei estes pensamentos definharem dentro da minha cabe\u00e7a. Sentei-me, abri o saco-cama e fiz umas fotografias.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-5.jpg\" rel=\"attachment wp-att-212\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-212\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-5-390x520.jpg\" alt=\"Barreta-5\" width=\"390\" height=\"520\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-5-390x520.jpg 390w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-5-75x100.jpg 75w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-5.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O ar fresco, o som dos barcos, o cheiro a gas\u00f3leo e iodo, fizeram-me recordar os tempos em que ia com o meu pai para o cais do Ginjal, em Cacilhas, ver os estivadores a carregarem ou descarregarem os navios acostados, em 1967 e 1968. As calhas de transporte de gelo, das quais j\u00e1 n\u00e3o restam sinais, funcionavam com a gravidade, como um plano inclinado, e, de vez em quando, ouvia-se um bloco de gelo a descer para um barco. Os estivadores, passavam com um saco de serapilheira em cima das costas e, por cima do saco, uma pe\u00e7a grande de um alimento congelado do qual j\u00e1 n\u00e3o me recordo. Uns anos mais tarde, a partir de 1973,passei a ir para o Ginjal sozinho, com um camaroeiro, apanhar carangueijos. Mais tarde ainda, em 1982, fui estudar para Lisboa, e fazia a travessia do Tejo todos os dias de manh\u00e3. E o cheiro a gas\u00f3leo misturado com o odor da \u00e1gua salgada foi sempre uma constante.<\/p>\n<p>Foi esse cheiro que recordei ali, sentado a olhar para aquela enorme massa de \u00e1gua que sa\u00eda barra fora. Foi esse cheiro, juntamente com o ar fresco na cara, que me deu alento para continuar. Saltei do saco-cama, calcei-me, arrumei tudo na mochila e fui at\u00e9 ao sul do pont\u00e3o. A mar\u00e9 ainda n\u00e3o tinha parado e a corrente estava muito forte junto \u00e0s pedras. Decidimos entrar na \u00e1gua pela praia da Barreta.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-6.jpg\" rel=\"attachment wp-att-213\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-213\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-6-640x480.jpg\" alt=\"Barreta-6\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-6.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-6-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-7.jpg\" rel=\"attachment wp-att-214\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-214\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-7-390x520.jpg\" alt=\"Barreta-7\" width=\"390\" height=\"520\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-7-390x520.jpg 390w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-7-75x100.jpg 75w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Barreta-7.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Descemos at\u00e9 \u00e0 praia, vestimos o fato de banho e pusemos a roupa nas mochilas. Peg\u00e1mos nas pranchas e caminh\u00e1mos para a \u00e1gua com as mochilas \u00e0s costas. Os pescadores, para quem a nossa presen\u00e7a at\u00e9 ali tinha sido um enigma, ficaram parados a olhar para n\u00f3s. N\u00e3o conseguiam perceber o que se estava a passar.<\/p>\n<p>&#8220;Onde \u00e9 que v\u00e3o estes dois, com uma mochila \u00e0s costas, em cima de uma prancha? Para Marrocos?&#8221;, ter\u00e3o pensado. Sim, Marrocos era mais plaus\u00edvel do que passar a barra de Faro a nado.<\/p>\n<p>Pousaram as canas e ficaram a olhar para n\u00f3s, de queixo ca\u00eddo, enquanto entr\u00e1vamos mar adentro. Alguns, mais tarde, devem ter pensado que aquilo nunca aconteceu. Devem ter pensado que foi imagina\u00e7\u00e3o, uma vis\u00e3o fruto das dez ou mais cervejas que beberam durante a noite.<\/p>\n<p>Demor\u00e1mos pouco mais de dez minutos a passar a barra a nado, em cima das pranchas. No total, entre arrumar a roupa na mochila, entrar dentro de \u00e1gua, passar a barra, chegar \u00e0 Culatra, subir para o pont\u00e3o, abrir a mochila e parar o registo do percurso, foram vinte e quatro minutos.<\/p>\n<p>Passaram duas lanchas enquanto faz\u00edamos a travessia em cima das pranchas. Grit\u00e1mos, acen\u00e1mos, mas s\u00f3 nos viram j\u00e1 muito perto. Na pr\u00f3xima vez levo uma bandeira vermelha encaixada na prancha de bodyboard, a um metro de altura, assim como um apito, ou buzina de ar comprimido.<\/p>\n<p>Ao chegarmos perto do molhe da Culatra, estava um pescador junto \u00e0 \u00e1gua a lavar material de pesca. Nad\u00e1mos na dire\u00e7\u00e3o dele pois, a partir dali, haveria certamente acesso \u00e0 superf\u00edcie do pont\u00e3o. Quando nos aproxim\u00e1mos mais, um outro pescador que estava nas imedia\u00e7\u00f5es, em cima do pont\u00e3o, lan\u00e7ou o anzol quase para cima de mim, com um olhar de desconsidera\u00e7\u00e3o por n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o dev\u00edamos estar ali, ningu\u00e9m passa a barra a nado, e, ainda por cima, est\u00e1vamos a ocupar a sua \u00e1rea de pesca. Bem&#8230; isto foi o que eu li no olhar e na atitude dele.<\/p>\n<p>Mas logo depois a atitude mudou. Abriu um sorriso, guiou-nos pelo meio das pedras, pois tinha uma vis\u00e3o privilegiada, de cima do pont\u00e3o, e n\u00e3o mais se calou com piadas, curiosidades e t\u00e9cnicas de pesca, at\u00e9 irmos embora, meia hora mais tarde. Era um indiv\u00edduo do norte, de uma povoa\u00e7\u00e3o a norte do Porto, n\u00e3o me lembro qual, talvez Vila do Conde, mas, apesar de tagarela, j\u00e1 tinha feito imensos amigos entre os pescadores algarvios, muito mais calados e reservados.<\/p>\n<p>Chegada \u00e0 Culatra\/Farol.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Culatra-1.jpg\" rel=\"attachment wp-att-215\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-215\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Culatra-1-640x480.jpg\" alt=\"Culatra-1\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Culatra-1.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Culatra-1-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O quarto tro\u00e7o foi a passagem da barra de Faro a nado. 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