{"id":243,"date":"2015-10-13T01:08:28","date_gmt":"2015-10-13T00:08:28","guid":{"rendered":"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/?p=243"},"modified":"2016-07-12T02:15:57","modified_gmt":"2016-07-12T01:15:57","slug":"ilhas-da-ria-formosa-capitulo-ix","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/?p=243","title":{"rendered":"Ilhas da Ria Formosa \u2013 cap\u00edtulo IX"},"content":{"rendered":"<p>O nono tro\u00e7o foi a ilha de Tavira.<\/p>\n<p>A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/highwaystar.org\">Highway Star<\/a> que desenvolvi para o sistema operativo Android.<\/p>\n<p>O ficheiro KML do percurso est\u00e1 aqui: <a href=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/dados\/riaformosa\/RiaFormosa-cap9.kml\">RiaFormosa-cap9.kml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-09.jpg\" rel=\"attachment wp-att-244\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-09-640x296.jpg\" alt=\"Ilhas-mapa-09\" width=\"640\" height=\"296\" class=\"alignnone size-medium wp-image-244\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-09-640x296.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-09-1024x474.jpg 1024w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-09-100x46.jpg 100w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/01\/Ilhas-mapa-09.jpg 1784w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>In\u00edcio: 26-09-2015, 18:56<br \/>\nVelocidade m\u00e9dia: 4.441 km\/h<br \/>\nTempo: 02h 38m 09.739s<br \/>\nEspa\u00e7o: 11.706 km<\/p>\n<p>Enquanto caminh\u00e1vamos, discutimos a situa\u00e7\u00e3o do barco encalhado. A mar\u00e9 vazia era \u00e0s 20h05m e o barco tinha encalhado por volta das 18h40m, ou seja, uma hora e vinte cinco minutos antes da mar\u00e9. S\u00f3 deveria voltar a ter o mesmo n\u00edvel de \u00e1gua com que encalhou, l\u00e1 para as 21h30m. E ainda iria enfrentar alguns bancos de areia, pois de noite \u00e9 dif\u00edcil escolher o melhor caminho no mar.<\/p>\n<p>Caminh\u00e1vamos depressa \u00e0 espera de encontrar a barra Armona-Tavira, sem saber que j\u00e1 a t\u00ednhamos passado. Por duas vezes, pens\u00e1mos que a est\u00e1vamos a avistar. Por duas vezes, uma duna mais saliente fazia a areia entrar pelo mar adentro, e dava a sensa\u00e7\u00e3o de que a ilha acabava a\u00ed.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-01-640x480.jpg\" alt=\"Tavira-01\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-759\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-01.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-01-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mas passaram quatro quil\u00f3metros e a ilha pareceia n\u00e3o terminar. Convencemo-nos, ent\u00e3o, de que j\u00e1 est\u00e1vamos na ilha de Tavira e que a passagem anterior tinha sido a da barra Armona-Tavira. Comecei a pensar que poder\u00edamos chegar \u00e0 barra Tavira-Cabanas com a corrente ainda n\u00e3o muito forte.<\/p>\n<p>Tent\u00e1mos manter um ritmo de caminhada forte, mas as dores come\u00e7avam a avolumar-se. Os meus p\u00e9s tinham manchas de sangue sob a pele, na zona dos calcanhares. Tinham sido causadas pela velocidade excessiva, mas necess\u00e1ria, do primeiro tro\u00e7o, quando foi necess\u00e1rio chegar \u00e0 Barrinha no estofo da mar\u00e9 vazia.<\/p>\n<p>Entretanto calcei as sand\u00e1lias velhas. Eram umas sand\u00e1lias de couro muito velhas e secas, e abriram-me uma ferida por baixo do tornozelo. Felizmente, tinha levado pensos r\u00e1pidos e coloquei um entre a ferida e o sapato. Mas os p\u00e9s estavam muito inchados e doridos. S\u00f3 conseguia al\u00edvio ao mergulhar os p\u00e9s em \u00e1gua fria.<\/p>\n<p>De vez em quando, descal\u00e7ava-me e descia at\u00e9 \u00e0 onula\u00e7\u00e3o para tentar amainar as dores dos p\u00e9s. Bastavam trinta segundos ou um minutos dentro de \u00e1gua para conseguir algum al\u00edvio. Mas depois, tornava-se dif\u00edcil recome\u00e7ar a andar. Do\u00edam-me todos os m\u00fasculos das pernas, assim como as articula\u00e7\u00f5es dos joelhos e das ancas. Parar era imposs\u00edvel, n\u00e3o parar tamb\u00e9m. Ser\u00e1 que \u00edamos conseguir chegar ao fim? Ainda bem que j\u00e1 s\u00f3 faltavam vinte quil\u00f3metros.<\/p>\n<p>Numa das idas ao mar para mergular os p\u00e9s, encontrei mais uma tartaruga morta. Como \u00e9 poss\u00edvel haver tantas tartarugas mortas na praia? Encontr\u00e1mos duas, no mesmo dia, a uma dist\u00e2ncia de cerca de dez quil\u00f3metros entre elas. Comecei a pensar que n\u00e3o era o acaso, nem uma coincid\u00eancia. Ser\u00e3o apanhadas nas malhas dos pescadores, que depois as lan\u00e7am no mar j\u00e1 mortas?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-02-640x480.jpg\" alt=\"Tavira-02\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-760\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-02.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-02-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Igor tamb\u00e9m come\u00e7ou a queixar-se de dores. Caminhava com uns cal\u00e7\u00f5es muito curtos e os m\u00fasculos interiores das coxas ro\u00e7avam um no outro. Acabaram por fazer ferida numa extens\u00e3o grande, o que n\u00e3o lhe permitia andar sem sentir uma dor constante.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 come\u00e7ou a encher. Aos poucos \u00edamos percebendo que as zonas mais planas de areia granular come\u00e7avam a ficar cobertas de \u00e1gua. A \u00e1gua come\u00e7ou, ent\u00e3o, a subir pelo plano inclinado de areia mais fina. Como as mar\u00e9s eram grandes &#8211; a lua cheia tinha sido na noite anterior &#8211; a \u00e1gua tinha chegado ao topo da praia na \u00faltima mar\u00e9 cheia, por volta das 14h, e tinha criado um caminho plano, n\u00e3o inclinado, de areia um pouco mais dura do que o habitual. Decidimos caminhar por a\u00ed, para n\u00e3o caminharmos no declive que for\u00e7a as articula\u00e7\u00f5es das ancas e dos joelhos.<\/p>\n<p>Cheg\u00e1mos ao molhe da ilha de Tavira por volta das 21h30m. Est\u00e1vamos os dois completamente de rastos. N\u00e3o tanto pela fadiga muscular, mas mais por causa das les\u00f5es que mencionei atr\u00e1s. <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-03-390x520.jpg\" alt=\"Tavira-03\" width=\"390\" height=\"520\" class=\"alignnone size-medium wp-image-763\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-03-390x520.jpg 390w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-03-75x100.jpg 75w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2015\/10\/Tavira-03.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o havia luz. Olhei para a barra e a \u00e1gua j\u00e1 corria para dentro da ria. Tentei, por v\u00e1rias vezes, convencer o Igor a metermo-nos na \u00e1gua e passar a barra de noite, \u00e0s escuras. Era s\u00e1bado, de noite, era o dia de descanso dos barcos de pesca. Era muito raro ver passar um barco. N\u00e3o consegui convenc\u00ea-lo. Decidimos, ent\u00e3o jantar. Eu tinha previsto jantar num dos restaurantes da ilha de Tavira, e j\u00e1 s\u00f3 tinha comida para mais uma refei\u00e7\u00e3o: o pequeno almo\u00e7o do dia seguinte. Infelizmente, a \u00e9poca balnear na ilha de Tavira termina no dia 15 de setembro: deixa de haver barcos regulares, h\u00e1 apenas alguns restaurantes abertos e s\u00f3 servem almo\u00e7os. Os poucos banhistas que a ilha recebe v\u00eam em barco pr\u00f3prio, ou em barco-t\u00e1xi.<\/p>\n<p>Tive que comer a \u00faltima bola de arroz e a \u00faltima pe\u00e7a de fruta que levava. Na manh\u00e3 seguinte, logo arranjaria qualquer coisa para comer.<\/p>\n<p>Depois de comermos e descansarmos, fomos a custo \u00e0 procura de algu\u00e9m que nos transportasse para a ilha de Cabanas. Caminh\u00e1vamos os dois com muita dificuldade: o Igor mais do que eu, mas nunca se queixou. Quando cheg\u00e1mos ao cais de embarque, metemos conversa com quatro ou cinco idosos que ali estavam a conversar, sentados em cima do pont\u00e3o, a aproveitar a noite sem vento e de temperatura amena.<\/p>\n<p>Perguntei-lhes se haveria algu\u00e9m que nos pudesse levar at\u00e9 Cabanas &#8211; eram cerca de cem metros &#8211; e aconselharam-nos a telefonar para os barcos-t\u00e1xi. Num poste met\u00e1lico, junto a uma esquina do pont\u00e3o, havia uma lista com v\u00e1rios n\u00fameros de telefone, mas ningu\u00e9m atendeu. A minha inten\u00e7\u00e3o era passar para  ilha de Cabanas ainda de noite e tentar caminhar at\u00e9 \u00e0s 5h da manh\u00e3, dormir at\u00e9 \u00e0s 7h30m e depois passar a barra Cabanas-Cacela com a mar\u00e9 vazia, de forma a chegar \u00e0 Manta Rota o mais cedo poss\u00edvel. Mas nada corria a meu favor. O Igor n\u00e3o se queria meter na \u00e1gua de noite e os barcos-t\u00e1xi n\u00e3o estavam dispon\u00edveis \u00e0quela hora.<\/p>\n<p>Entretanto, chegaram dois pescadores num bote muito pequeno. Para al\u00e9m dos dois, o bote trazia muito material de pesca. Tinha um motor muito fraco e demorou algum tempo a encostar na areia. Fomos ter com os pescadores e expus\u00e9mos-lhes a situa\u00e7\u00e3o. Disseram-nos que era arriscado tentar passar a barra com aquele bote devido \u00e0 forte corrente: o motor n\u00e3o era suficientemente potente para tal. Em alternativa, sugeriram-nos que fal\u00e1ssemos com o dono de uma lancha que estava ali atracada. Era de algu\u00e9m de Tavira, que ainda ali estava e que deveria ainda voltar a Tavira naquele dia.<\/p>\n<p>Eram j\u00e1 cerca de 22h30m e fomos tentar encontrar o dono da lancha. Par\u00e1mos primeiro no parque de campismo, onde pedimos para encher os cantis com \u00e1gua e procur\u00e1mos pelo tal marinheiro. O seguran\u00e7a do parque perguntou, l\u00e1 dentro, a uns clientes que responderam que ele deveria estar num restaurante mais \u00e0 frente. Os restaurantes estavam todos fechados, mas um deles tinha gente l\u00e1 dentro. Batemos e pedimos para falar com o dono do barco.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos quis levar. Tinha estado a beber com os amigos e, pelos vistos, ia continuar a beber e a jogar \u00e0s cartas. Pergunt\u00e1mos se pod\u00edamos comer qualquer coisa, ou comprar comida para levar, e negaram. Depois destas recusas todas, decidimos arranjar um s\u00edtio para dormir. Com a ilha t\u00e3o vazia, n\u00e3o foi dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Procur\u00e1mos uma zona baixa entre as dunas, onde n\u00e3o f\u00f4ssemos vistos pelos pescadores que estavam em cima do molhe, nem por algum turista desgarrado que se lembrasse de fazer um passio noturno.<\/p>\n<p>A areia estava fria e ligeiramente h\u00famida. Cavei \u00e0 m\u00e3o, um espa\u00e7o que permitisse colocar a prancha, para n\u00e3o dormir em cima da areia. Deitei-me e tentei adormecer. N\u00e3o foi f\u00e1cil. Para al\u00e9m da grande luminosidade da lua cheia que j\u00e1 aparecia, bem vis\u00edvel, no alto do firmamento, o vento fraco, mas frio que vinha do mar, e que ao passar nos arbustos fazia-os sussurrar, tornava-se incomodativo. Por fim, infelizmente escolhemos um s\u00edtio onde os banhistas iam defecar, no ver\u00e3o, e o cheiro das fezes secas acompanhou-nos durante toda a noite, aumentando o mal-estar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nono tro\u00e7o foi a ilha de Tavira. 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