{"id":609,"date":"2016-04-05T11:13:35","date_gmt":"2016-04-05T10:13:35","guid":{"rendered":"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/?p=609"},"modified":"2016-07-14T21:27:33","modified_gmt":"2016-07-14T20:27:33","slug":"troia-sagres-cap-ix-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/?p=609","title":{"rendered":"Tr\u00f3ia \u2013 Sagres \u2013 Cap. IX"},"content":{"rendered":"<p>O nono tro\u00e7o do percurso foi de Vila Nova de Milfontes at\u00e9 Almograve.<\/p>\n<p>A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/highwaystar.org\/\">Highway Star<\/a> que desenvolvi para o sistema operativo Android.<\/p>\n<p>O ficheiro KML do percurso est\u00e1 aqui: <a href=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/dados\/riaformosa\/Troia-Sagres-cap9.kml\">Troia-Sagres-cap9.kml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap9-640x294.jpg\" alt=\"Troia-Sagres-mapa-Cap9\" width=\"640\" height=\"294\" class=\"alignnone size-medium wp-image-850\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap9-640x294.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap9-1024x471.jpg 1024w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap9-100x46.jpg 100w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap9.jpg 1590w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>In\u00edcio: 31-03-2016, 18:56<br \/>\nVelocidade m\u00e9dia: 5.446 km\/h<br \/>\nTempo: 02h 09m 02.548s<br \/>\nEspa\u00e7o: 11.713 km<\/p>\n<p>Voltei a Vila Nova de Milfontes, no dia 31 de mar\u00e7o, para concluir o percurso. N\u00e3o ia chover nos dias seguintes, de acordo com as previs\u00f5es do IPMA. No entanto, as noites seguintes foram das mais frias do ano e isso impediu-me de dormir e descansar um n\u00famero de horas aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tive que trabalhar de manh\u00e3, por isso s\u00f3 pude sair de tarde. O autocarro chegou a Santiago do Cac\u00e9m \u00e0 hora prevista. Sa\u00ed e esperei pelo segundo autocarro que me levaria a Vila Nova de Milfontes, e que deveria passar quarenta minutos depois.<\/p>\n<blockquote><p>Sa\u00ed da esta\u00e7\u00e3o e sentei-me no murete de umas escadas, ali perto, a apanhar sol. De vez em quando, passava uma pessoa. No total, ter\u00e3o passado cinco ou seis pessoas: de crian\u00e7as a idosos. Estava quase na hora da liga\u00e7\u00e3o, quando surgiu uma mulher que vinha do parque de estacionamento, por tr\u00e1s de mim, saltou um degrau, avan\u00e7ou e viu que n\u00e3o havia passagem: o desn\u00edvel era muito grande. Quis voltar para tr\u00e1s e trope\u00e7ou no degrau que h\u00e1 pouco tinha saltando. Ca\u00edu redonda no ch\u00e3o de terra. Enrolou-se, levantou-se e aproximou-se de mim. \u00c0 minha frente havia um degrau quatro vezes mais alto. Ela n\u00e3o tinha conseguido saltar o primeiro e queria saltar aquele?<br \/>\nCorreu tudo bem at\u00e9 pousar o p\u00e9. Depois n\u00e3o aguentou o impacto do peso do corpo e caiu, aos rebol\u00f5es, pela escada abaixo. Bateu v\u00e1rias vezes com a cabe\u00e7a e, no fim, ficou estendida a queixar-se.<br \/>\nLevantei-me e fui ver o que ela tinha. Ajudei-a a sentar-se e percebi que estava embriegada, cheirava a \u00e1lcool a um metro de dist\u00e2ncia.<br \/>\n&#8220;D\u00f3i muito&#8221;, dizia ela agarrada \u00e0 cabe\u00e7a. &#8220;D\u00f3i muito.&#8221;<br \/>\nAjudei-a a levantar-se. Trazia um casaco branco, espesso, agora todo sujo. Devia ter cerca de cinquenta anos.<br \/>\nEu estava preocupado com as horas, pois n\u00e3o queria perder o autocarro e tirei o telem\u00f3vel do bolso. Ela viu-me pegar no telefone e disse-me, com um ar um pouco aflito: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o. N\u00e3o telefone a ningu\u00e9m.&#8221; Sosseguei-a, disse-lhe que queria apenas consultar as horas.<br \/>\nEla acabou por conseguir descer o resto das escadas, encostada \u00e0 parede, e desapareceu.<\/p><\/blockquote>\n<p>O autocarro de liga\u00e7\u00e3o chegou meia hora atrasado, e esse atraso propagou-se at\u00e9 ao destino. Cheguei a Vila Nova de Milfontes pr\u00f3ximo das sete horas da tarde, e foi a essa hora que dei in\u00edcio \u00e0 segunda parte da caminhada at\u00e9 ao Cabo de S\u00e3o Vicente.<\/p>\n<p>Vila Nova de Milfontes estava em obras, havia diversas ruas, incluindo a avenida principal, que estavam fechadas ao tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/milfontes-640x480.jpg\" alt=\"milfontes\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-655\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/milfontes.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/milfontes-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/> <\/p>\n<p>Da paragem do autocarro \u00e0 ponte sobre o Rio Mira s\u00e3o pouco mais de dois quil\u00f3metros, que percorri em cerca de vinte minutos. E encetei a\u00ed uma caminhada de mais de cem quil\u00f3metros, para sul, sozinho e, na maior parte do tempo, sem ningu\u00e9m ao alcance da vista.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/RioMira-640x480.jpg\" alt=\"RioMira\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-651\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/RioMira.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/RioMira-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Caminhei pela estrada nacional N393 para sul, que era cruzada constantemente por autom\u00f3veis a grande velocidade. Estava desejoso de abandonar a estrada e enveredar por um caminho secund\u00e1rio, assim que fosse poss\u00edvel, porque n\u00e3o me sentia seguro a caminhar na berma daquela estrada.<\/p>\n<p>Cerca de cinco quil\u00f3metros e duzentos metros ap\u00f3s a ponte, h\u00e1 uma estrada de terra batida, \u00e0 direita, a caminho de Longueira. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/longueira-1-390x520.jpg\" alt=\"longueira-1\" width=\"390\" height=\"520\" class=\"alignnone size-medium wp-image-653\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/longueira-1-390x520.jpg 390w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/longueira-1-75x100.jpg 75w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/longueira-1.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/p>\n<p>De in\u00edcio, o caminho segue ao longo de um pequeno canal de \u00e1gua e, do outro lado do canal, a lareira de uma casa enchia o ar h\u00famido do entardecer, com um cheiro pesado a madeira queimada que me recordou S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e as suas ro\u00e7as de copra.<\/p>\n<p>O caminho at\u00e9 Longueira s\u00e3o pouco mais de dois quil\u00f3metros, numa estrada quase reta e, naquele fim de tarde, deserta de carros.<\/p>\n<p>Est\u00e1dio de futebol de Longueira<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/longueira-2-640x480.jpg\" alt=\"longueira-2\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-654\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/longueira-2.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/longueira-2-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o havia placa a indicar a entrada na localidade, mas a densidade de habita\u00e7\u00f5es apontava para que tinha chegado a Longueira. E os primeiros longueirenses que avistei, j\u00e1 de noite e iluminados pelos candeeiros p\u00fablicos, foram dois indiv\u00edduos orientais: talvez indianos, ou indon\u00e9sios.<\/p>\n<p>Tinham sa\u00eddo de uma mercearia, l\u00e1 mais \u00e0 frente, e estavam a entrar numa habita\u00e7\u00e3o de r\u00e9s-do-ch\u00e3o, quando passei por eles. Ainda olhei para dentro da casa, vi um hall iluminado por um candeeiro pendurado no centro do teto, mas n\u00e3o percebi mais nada. E digo &#8220;n\u00e3o percebi&#8221;, porque pareceu-me muito estranha a presen\u00e7a daqueles indiv\u00edduos ali, naquele ermo, a falarem numa l\u00edngua inintelig\u00edvel para mim.<\/p>\n<p>Continuei a andar e passei em frente \u00e0 mercearia. Sa\u00edram mais cinco orientais: cinco mi\u00fados, com idades pr\u00f3ximas dos vinte anos. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 alentejanos nesta terra?&#8221; interroguei-me. Mas as surpresas n\u00e3o iam ficar por a\u00ed. A loja vendia &#8220;produtos internacionais&#8221;: era uma loja de produtos asi\u00e1ticos, mais precisamente, de produtos alimentares indianos e nepaleses. <\/p>\n<p>Cruzei-me com os mi\u00fados que, em conversa, me disseram que eram do Nepal e que estavam ali de visita. &#8220;Em Longueira, de visita?&#8221;, n\u00e3o pode ser, \u00e9 a coisa mais improv\u00e1vel do mundo. Quem \u00e9 que eles queriam enganar, com aquela patranha?<\/p>\n<p>Vim a saber mais tarde, que aquela regi\u00e3o do alentejo est\u00e1 pejada de mi\u00fados que v\u00eam do Nepal e outros pa\u00edses orientais, com vistos de turista, para trabalharem ilegalmente nas estufas de frutas e legumes que ocupam a maior parte das terras cultivadas daquela regi\u00e3o do Alentejo.<\/p>\n<p>Antes de sair de Longueira, vesti o gorro refletor e coloquei as bra\u00e7adeiras refletoras nos bra\u00e7os e tornozelos, e entrei no caminho municipal CM1123 que me levou, um quil\u00f3metro depois, a Almograve.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/almograve-640x480.jpg\" alt=\"almograve\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-652\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/almograve.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/almograve-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Eram 9h da noite e decidi parar para jantar, no lavadouro municipal. \u00c9 uma edifica\u00e7\u00e3o rebaixada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrada, o que me permitiu comer \u00e0 vontade, sem ser observado por quem passava.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iO_SlHGb4jk\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O jantar demorou cerca de quarenta minutos. Estava bastante frio: quando acabei de jantar, tinha os dedos das m\u00e3os dormentes, e foi dif\u00edcil reaquec\u00ea-los.<\/p>\n<p>Lavei os dentes, arrumei tudo de novo na mochila e voltei \u00e0 estrada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nono tro\u00e7o do percurso foi de Vila Nova de Milfontes at\u00e9 Almograve. A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android. 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