{"id":629,"date":"2016-04-05T11:26:33","date_gmt":"2016-04-05T10:26:33","guid":{"rendered":"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/?p=629"},"modified":"2016-07-23T19:50:31","modified_gmt":"2016-07-23T18:50:31","slug":"troia-sagres-cap-xiv","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/?p=629","title":{"rendered":"Tr\u00f3ia \u2013 Sagres \u2013 Cap. XIV"},"content":{"rendered":"<p>O d\u00e9cimo quarto tro\u00e7o do percurso foi do Rogil at\u00e9 ao Monte Velho.<\/p>\n<p>A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/highwaystar.org\/\">Highway Star<\/a> que desenvolvi para o sistema operativo Android.<\/p>\n<p>O ficheiro KML do percurso est\u00e1 aqui: <a href=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/dados\/riaformosa\/Troia-Sagres-cap14.kml\">Troia-Sagres-cap14.kml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap14.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap14-640x298.jpg\" alt=\"Troia-Sagres-mapa-Cap14\" width=\"640\" height=\"298\" class=\"alignnone size-medium wp-image-866\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap14-640x298.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap14-1024x477.jpg 1024w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap14-100x47.jpg 100w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap14.jpg 1564w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>In\u00edcio: 01-04-2016, 13:11<br \/>\nVelocidade m\u00e9dia: 3.799 km\/h<br \/>\nTempo: 05h 10m 55.416s<br \/>\nEspa\u00e7o: 19.689 km<\/p>\n<p>Assim que cheguei ao Rogil, entrei numa mercearia, peguei em duas garrafas de \u00e1gua, paguei e sa\u00ed j\u00e1 a beber uma. Ainda tive que esperar que um casal de putos fosse atendido, mas foi r\u00e1pido. Sa\u00ed e fiquei c\u00e1 fora, a apreciar a paisagem, a conquista e o memento de pausa, enquanto bebia a \u00e1gua das Pedras. A senhora que me atendeu, talvez a dona da loja, j\u00e1 sem clientes no interior, ficou \u00e0 porta a olhar para mim. Era uma senhora idosa &#8211; bem, pelo menos, mais velha do que eu &#8211; e deve ter achado estranho a minha indument\u00e1ria &#8211; casaco de inverno, chap\u00e9u, cal\u00e7as de ganga forte, mochila de ca\u00e7a &#8211; num dia t\u00e3o solarengo. Eu tencionava continuar o caminho para Sagres, por trilhos no meio do campo, longe da estrada principal de alcatr\u00e3o, pois os autom\u00f3veis passavam muito depressa e havia o risco de levar um toque por distra\u00e7\u00e3o, ou cansa\u00e7o. Percebi que a senhora me observava e, assim que acabei de beber a \u00e1gua, voltei-me para ela, para lhe perguntar se havia um vidr\u00e3o onde pudesse p\u00f4r a garrafa. Indicou-me um logo ali perto. Depois perguntei-lhe se havia caminho dali para Aljezur pelo meio das terras. Aconselhou-me a falar com o dono do quiosque, mais abaixo, do lado oeste da estrada.<\/p>\n<p>Depois de lanchar oito bolos e tr\u00eas caf\u00e9s na melhor pastelaria das redondezas, coloquei tudo \u00e0s costas e fui at\u00e9 ao dito quiosque. O dono estava ocupado, portanto, e para meter conversa, pedi mais um caf\u00e9. J\u00e1 era o quarto. <\/p>\n<p>Disse-me que o canal de \u00e1gua n\u00e3o ia at\u00e9 Aljezur, contrariamente \u00e0 informa\u00e7\u00e3o qeu o belga me tinha dado, mas que parava no meio do nada e que, no fim, a \u00e1gua se escoava pelas rochas abaixo e se perdia no mar. Aconselhou-me a seguir os dois quil\u00f3metros seguintes pelo alcatr\u00e3o, para depois virar para oeste, por uma estrada de terra e continuar para sul, pela estrada do canil, at\u00e9 Aljezur. Assim fiz.<\/p>\n<p>Pouco depois de sair do alcatr\u00e3o, perdi o caminho e andei pelo meio dos torr\u00f5es de terra, muito embora o mapa do Google me dissesse que eu estava em cima de um trilho.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vIC98_iR0iE\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Passei no meio de arbustos, saltei veda\u00e7\u00f5es mas acabei por chegar a um entroncamento de estradas regionais, de alcatr\u00e3o, perto do parque de campismo do Serr\u00e3o. Lembro-me que o telefone se foi abaixo, mais ou menos por aquela altura, e deixou de registar o percurso, mas o <a href=\"http:\/\/highwaystar.org\/\">s\u00edtio Web<\/a> de apoio \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o consegue ligar os tro\u00e7os, mesmo que haja peda\u00e7os em falta.<\/p>\n<p>A estrada para sul, inicialmente de alcatr\u00e3o, passou a terra batida e, mais \u00e0 frente, j\u00e1 na descida para Aljezur, tornou-se num monte de pedras e buracos.<\/p>\n<p>Pelo caminho, aproveitei para telefonar \u00e0 minha m\u00e3e, que tinha ca\u00eddo uns dias antes com as costas num vaso e andava cheia de dores. Partiu tr\u00eas v\u00e9rtebras &#8211; uma estava mesmo desfeita &#8211; e tinha tantas dores que chegou a pensar em desistir. Mas felizmente estava entretida com uns pintainhos que a minha irm\u00e3 lhe levou, enquanto foi de f\u00e9rias para fora. Chamou-me louco, por me meter nestes desafios inconsequentes, quando podia estar descansado em casa longe dos perigos inesperados que podem ocorrer num empreendimento destes. Senti-a animada e fiquei descansado.<\/p>\n<p>Ao fundo da descida para Aljezur, passei ao lado do canil que o dono do quiosque do Rogil tinha falado. N\u00e3o havia ningu\u00e9m, s\u00f3 c\u00e3es, tristes, assustados e barulhentos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-01-640x480.jpg\" alt=\"MonteVelho-01\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-935\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-01.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-01-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Entrei pelo acesso norte de Aljezur, onde um antigo an\u00fancio em ferro indica o local onde antes come\u00e7ava a povoa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-02-640x480.jpg\" alt=\"MonteVelho-02\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-936\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-02.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-02-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cruzei a povoa\u00e7\u00e3o de norte a sul e, \u00e0 sa\u00edda, voltei a enfrentar um problema recorrente: caminhar pelo alcatr\u00e3o, numa estrada sem bermas e de noite, era muito perigoso, portanto tinha que encontrar uma alternativa. <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-03-640x480.jpg\" alt=\"MonteVelho-03\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-938\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-03.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-03-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Parei, consultei os mapas, e decidi sair da estrada, subir para a direita, para o est\u00e1dio e ir apanhar a estrada M1003-1. A subida era \u00edngreme e foi dif\u00edcil. Foi mais de um quil\u00f3metro, extremamente inclinado, j\u00e1 no fim do dia, com apenas duas horas de sono, mas, chegado l\u00e1 acima, foi mais uma vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Junto \u00e0s antenas de telecomunica\u00e7\u00f5es, no topo de Aljezur, na estrada M1003-1.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-04.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-04-640x480.jpg\" alt=\"MonteVelho-04\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-939\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-04.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-04-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A estrada M1003-1 segue para sul durante cerca de um quil\u00f3metro e meio, para depois virar para oeste, para a praia da Arrifana. Nesse ponto, continuei para sul, para fazer o resto do percurso pelo meio da serra. Parei um pouco mais \u00e0 frente para comer qualquer coisa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-05.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-05-640x480.jpg\" alt=\"MonteVelho-05\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-940\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-05.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/MonteVelho-05-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O alcatr\u00e3o desapareceu e s\u00f3 voltei a v\u00ea-lo l\u00e1 mais para a frente, no epis\u00f3dio dos c\u00e3es. Apesar disso, e uma vez que n\u00e3o sabia com que frequ\u00eancia iriam passar autom\u00f3veis naquele caminho, vesti-me para a noite, ou seja, coloquei o gorro refletor, assim como as bra\u00e7adeiras, nos bra\u00e7os e nos tornozelos. <\/p>\n<p>N\u00e3o me cruzei com mais carro nenhum naquela serra, naquela noite, at\u00e9 parar para dormir.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/G1fVfY4slGc\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Eram 20h e o sol j\u00e1 se tinha posto. Ainda havia luz, mas diminu\u00eda a cada minuto. Caminhei talvez mais duas horas, at\u00e9 parar para jantar e dormir. Quando parei j\u00e1 era noite cerrada e j\u00e1 n\u00e3o via onde punha os p\u00e9s.<\/p>\n<p>Durante essa caminhada pela serra, ao lusco fusco, passei perto de duas ou tr\u00eas casas isoladas, de onde vinha um cheiro a lareira de lenha e a cozinhados caseiros. Apeteceu-me bater \u00e0 porta de uma daquelas casas e pedir para comer com eles. Mas continuei sempre a andar.<\/p>\n<p>Estranhei que, em todo aquele percurso feito pelo meio da serra, por estradas de terra, praticamente sem habita\u00e7\u00f5es, houvesse esgotos, \u00e1gua e eletricidade, como num projeto de urbaniza\u00e7\u00e3o citadino. Foram talvez seis ou sete quil\u00f3metros de quase deserto servido por infraestruturas que n\u00e3o existem nalgumas zonas do Algarve mais povoadas.<\/p>\n<p>Por duas vezes, ao passar junto a uma casa, os c\u00e3es ficaram a ladrar at\u00e9 eu desaparecer por detr\u00e1s do topo do monte seguinte. Eram habita\u00e7\u00f5es vedadas, com os c\u00e3es do lado de dentro: uma prote\u00e7\u00e3o usual em casas, por vezes desabitadas.<\/p>\n<p>J\u00e1 de noite, numa noite sem lua &#8211; estava quarto minguante, a lua nasceria apenas \u00e0s 3h da manh\u00e3 &#8211; quase a chegar ao Monte Velho, fui atacado por dois c\u00e3es pastores alem\u00e3es, no local com coordenadas 37.239145 N, 8.844758 W. Este s\u00edtio chama-se Monte Novo, e fica cerca de um quil\u00f3metro a norte do Monte Velho, onde montei a tenda e pernoitei, pouco depois.<\/p>\n<p>Vindo de nordeste, do Atlantic Riders, cerca de quatrocentos metros depois, cheguei a um amontoado de edifica\u00e7\u00f5es, que formam um p\u00e1tio interior, iluminado com uma luz el\u00e9trica branca, que se projeta, por entre as casas, para o exterior. As zonas de claridade s\u00e3o interrompidas por espa\u00e7os de escurid\u00e3o, espa\u00e7os onde a luz \u00e9 obstru\u00edda pelo volume dos edif\u00edcios rasteiros.<\/p>\n<p>No sil\u00eancio daquele ermo, s\u00f3 se ouviam os meus passos e os meus pensamentos, \u00e0s vezes ditos em voz alta. De repente, dois ou tr\u00eas c\u00e3es come\u00e7aram a ladrar. Olhei para o interior do p\u00e1tio iluminado e vi dois c\u00e3es a correrem para mim. Contrariamente a todos os outros encontros com c\u00e3es, antes e depois deste incidente, n\u00e3o havia barreira nenhuma entre eles e eu, e tamb\u00e9m n\u00e3o estavam presos com correntes ou trelas.<\/p>\n<p>Cansado, com uma mochila pesada \u00e0s costas &#8211; que n\u00e3o me permitia outros movimentos, para al\u00e9m de andar para a frente, sem o risco de me desequilibrar &#8211; tinha que enfrentar os c\u00e3es: entrei em estado de alerta instant\u00e2neo.<\/p>\n<p>O primeiro c\u00e3o avan\u00e7ou para mim, pelo cone de luz que provinha do p\u00e1tio: em contraluz, mas suficientemente vis\u00edvel para poder perceber o seu comportamento. Gritei, de frente para ele, energicamente, de forma r\u00edspida e com determina\u00e7\u00e3o: &#8220;Quieto!&#8221;. Ele continuou a ladrar e eu repeti, de forma ainda mais incisiva: &#8220;Quieto!&#8221;. Ele baixou a amplitude e o ritmo do ladrido e eu percebi que j\u00e1 n\u00e3o representava perigo para mim. Faltava o outro. Virei-me cerca de noventa graus sobre a esquerda para seguir pela estrada e o primeiro c\u00e3o voltou a ladrar forte. Voltei-me de novo para ele e gritei outra vez: &#8220;Quieto!&#8221;. Fiquei parado de frente para ele e voltou a reduzir a intensidade do ladrido. Voltei-me ent\u00e3o para o outro c\u00e3o e avancei.<\/p>\n<p>O outro c\u00e3o tinha ficado num espa\u00e7o de escurid\u00e3o absoluta, escondido da luz por uma casa. Ladrava continuamente para mim, mas eu n\u00e3o sabia se ele estava perto ou afastado de mim, n\u00e3o lhe via os movimentos e n\u00e3o conseguia prever se me iria atacar ou n\u00e3o. Qualquer movimento que eu fizesse poderia despoletar um ataque e eu s\u00f3 saberia quando ele estivesse em cima de mim. Decidi gritar-lhe, com for\u00e7a e de forma autorit\u00e1ria. Por tr\u00eas vezes gritei &#8220;Quieto!&#8221; at\u00e9 que a intensidade do ladrido baixasse. Esperei uns momentos, virei-me e segui caminho.<\/p>\n<p>Os c\u00e3es ladraram durante um pouco mais, talvez um minuto, e depois calaram-se.<\/p>\n<p>Deixei a estrada de alcatr\u00e3o e segui pela estrada de terra castanha que leva \u00e0 Carrapateira. Queria tentar chegar \u00e0 Carrapateira e dormir numa pens\u00e3o: tomar um banho de \u00e1gua quente e dormir cinco ou seis horas. Na noite anterior s\u00f3 tinha conseguido dormir duas horas por causa do frio e, para essa noite, estavam previstos cinco graus de temperatura, tal como na noite anterior.<\/p>\n<p>Continuei pela estrada de terra mas, com aquela escurid\u00e3o, n\u00e3o era poss\u00edvel distinguir os buracos e as pedras soltas que existiam ao longo da estrada. Caminhar naquelas condi\u00e7\u00f5es era arriscado, por isso decidi come\u00e7ar a procurar um s\u00edtio para montar a tenda. Tinha que encontrar um s\u00edtio plano e abrigado do vento, para que o efeito do frio n\u00e3o fosse t\u00e3o intenso durante a noite. Com a pequena lanterna de leds da bateria do telem\u00f3vel, procurei primeiro do lado direito da estrada: era uma encosta virada para oeste, e o vento previsto para essa noite era de noroeste. N\u00e3o encontrei nenhum espa\u00e7o plano suficiente para colocar a tenda. Voltei \u00e0 estrada e parei, mais \u00e0 frente, do lado esquerdo debaixo de um pinheiro: havia um espa\u00e7o quase plano no declive que subia at\u00e9 ao topo do monte, mas ficava mesmo virado para noroeste, portanto voltei \u00e0 estrada.<\/p>\n<p>Desci pelo caminho, pesquisando, tanto \u00e0 esquerda, como \u00e0 direita, mas a arboriza\u00e7\u00e3o era intensa e n\u00e3o permitia a montagem da tenda. Continuei a descer, passei por baixo de um pinheiro ca\u00eddo e, mais \u00e0 frente, o caminho desembocou numa encruzilhada. Era uma zona plana desbastada de \u00e1rvores. \u00c0 esquerda e \u00e0 direita abria-se uma via de terra batida bastante mais ampla do que a vereda que me levou ali. \u00c0 frente, debaixo de um amontoado denso de arbustos, uma cama de folhas secas tinha a \u00e1rea ideal para eu instalar a tenda.<\/p>\n<p>J\u00e1 dentro da tenda, comi duas bolas de arroz e uma ma\u00e7\u00e3. Lavei os dentes e deitei-me. A Teresa tinha-me telefonado um pouco antes e sugeriu-me que tapasse a janela de respira\u00e7\u00e3o da tenda, para que n\u00e3o entrasse tanto frio. \u00c0s escuras, consegui tap\u00e1-lo e isso atrasou a entrada do frio, o que me permitiu dormir quatro horas, mas reteve a humidade dentro da tenda. Na manh\u00e3 seguinte todos os objetos estavam cobertos com uma pel\u00edcula fina de pequenas got\u00edcolas de \u00e1gua, assim como o interior da tenda. Levantei-me \u00e0s 6h. N\u00e3o pude esperar que a tenda arejasse: enrole-a e meti-me ao caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O d\u00e9cimo quarto tro\u00e7o do percurso foi do Rogil at\u00e9 ao Monte Velho. A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android. 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