{"id":633,"date":"2016-04-05T11:31:12","date_gmt":"2016-04-05T10:31:12","guid":{"rendered":"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/?p=633"},"modified":"2016-07-29T19:25:56","modified_gmt":"2016-07-29T18:25:56","slug":"troia-sagres-cap-xvi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/?p=633","title":{"rendered":"Tr\u00f3ia \u2013 Sagres \u2013 Cap. XVI"},"content":{"rendered":"<p>O d\u00e9cimo sexto e \u00faltimo tro\u00e7o do percurso foi de Vila do Bispo at\u00e9 ao Cabo de S\u00e3o Vicente.<\/p>\n<p>A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/highwaystar.org\/\">Highway Star<\/a> que desenvolvi para o sistema operativo Android.<\/p>\n<p>O ficheiro KML do percurso est\u00e1 aqui: <a href=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/dados\/riaformosa\/Troia-Sagres-cap16.kml\">Troia-Sagres-cap16.kml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap16.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-871\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap16-640x296.jpg\" alt=\"Troia-Sagres-mapa-Cap16\" width=\"640\" height=\"296\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap16-640x296.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap16-1024x473.jpg 1024w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap16-100x46.jpg 100w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Troia-Sagres-mapa-Cap16.jpg 1582w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>In\u00edcio: 02-04-2016, 12:07<br \/>\nVelocidade m\u00e9dia: 5.086 km\/h<br \/>\nTempo: 02h 12m 15.146s<br \/>\nEspa\u00e7o: 11.210 km<\/p>\n<p>Combinei com o Carlos \u00e0s 14h no Cabo de Sao Vicente. Tinha apenas duas horas para chegar ao fim do trajeto. Era arriscado, uma vez que tinha os p\u00e9s inchados, j\u00e1 me tinham do\u00eddos os joelhos, talvez por m\u00e1 coloca\u00e7\u00e3o das pernas e dos p\u00e9s no ch\u00e3o; e, a qualquer momento, poderia ter que abrandar o ritmo, devido a cansa\u00e7o ou a alguma les\u00e3o.<\/p>\n<p>Consultei o mapa no tablet, mas decidi confirmar com a dona do caf\u00e9 qual o melor caminho para chegar a p\u00e9, o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, ao cabo de S\u00e3o Vicente. Ela disse-me que havia os caminhos velhos, por onde antes se ia at\u00e9 ao cabo, que eram mais diretos e mais curtos: coincidiam com o que eu tinha consultado no mapa. Indicou-me a forma de l\u00e1 chegar e assim fui.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o bem a Vila do Bispo. Todos os anos passo na vila para comer moreia frita num dos v\u00e1rios restaurantes que servem esse petisco que s\u00f3 os entendidos conhecem. N\u00e3o sei qual foi a primeira vez que comi uma posta de moreia frita, mas posso enunciar os locais onde j\u00e1 me deliciei com esse pit\u00e9u.<\/p>\n<ul>\n<li>Em S\u00e3o Torpes, algumas vezes<\/li>\n<li>Na Vila do Bispo, muitas vezes, em diversas tascas e restaurantes<\/li>\n<li>Nas casas do pai do Carlos, tanto no Algarve, como em Almada, imensas vezes<\/li>\n<li>Nas minhas casas, em Almada ou Corroios, muitas vezes tamb\u00e9m<\/li>\n<li>Nas ilhas de Santiago e Santo Ant\u00e3o, em Cabo Verde<\/li>\n<li>Em Sines, durante esta caminhada<\/li>\n<li>E provavelmente, em muitos outros s\u00edtios, dos quais n\u00e3o me recordo<\/li>\n<\/ul>\n<p>A primeira moreia que apanhei na ca\u00e7a submarina, dei-a ao pai do Carlos para tratar e fritar. Mas a esposa dele n\u00e3o gostou muito da ideia, pois a fritagem da moreia deixa a casa toda suja de \u00f3leo. Por isso, a moreia seguinte fui eu que a arranjei, salguei, sequei e fritei. Nesse dia convidei o Carlos para almo\u00e7ar. A moreia estava t\u00e3o salgada que comemos apenas duas ou tr\u00eas postas cada um. Tive que demolhar as restantes &#8211; como se fossem bacalhau &#8211; sec\u00e1-las novamente e voltar a frit\u00e1-las para as poder comer. O Carlos bem estranhou as moscas n\u00e3o se terem aproximado da moreia enquanto secava. Eu tinha deixado a moreia em salmoura durante duas horas, quando deveria ter estado apenas cinco minutos mergulhada em sal.<\/p>\n<p>Vim tamb\u00e9m a saber &#8211; mais tarde &#8211; que a moreia deve ser escalada pelas costas e ficar fechada na barriga, segundo me disse o pai do Carlos. Assim fiz das vezes seguintes. Neste momento sou um especialista de secagem e fritagem de moreias.<\/p>\n<p>Passei junto \u00e0 Caixa de Cr\u00e9dito Agr\u00edcola e continuei para oeste e depois para sudoeste. \u00c0 sa\u00edda de Vila do Bispo, j\u00e1 numa estrada de terra batida que passava entre umas terras verdejantes de um lado e doutro, passei no meio de uma manada de vacas: umas com os cornos baixos, outras com os cornos levantados.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GSiggmnaFn8\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Sempre a direita, no rumo de sudoeste, e praticamente sem me cruzar com ve\u00edculos autom\u00f3veis, caminhei com os p\u00e9s cada vez menos sens\u00edveis e mais inchados. &#8220;Caminhos velhos&#8221; \u00e9 o nome que os locais d\u00e3o a estes caminhos abandonados ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o das estradas de alcatr\u00e3o, mais extensas e que passam mais a sul.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo digo &#8220;estradas velhas&#8221;, mas o termo que me tinham mencionado era &#8220;caminhos velhos&#8221;<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KMGrmjlmolQ\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Quase sete quil\u00f3metros depois, a estrada toma o rumo sul que se mant\u00e9m durante dois quil\u00f3metros, at\u00e9 chegar \u00e0 estrada nacional. Nessa encruzilhada, havia uma casa abandonada, com duas carro\u00e7as l\u00e1 dentro, que, mais cedo ou mais tarde, v\u00e3o ficar soterradas pela derrocada do teto da constru\u00e7\u00e3o que certamente se vai desmoronar.<\/p>\n<p>As habita\u00e7\u00f5es tradicionais algarvias &#8211; feitas de pedra e barro, t\u00eam que ser caiadas regularmente, para evitar que a \u00e1gua da chuva entre para dentro das paredes, provocando o desagregamento da estrutura da casa. Tamb\u00e9m os telhados &#8211; geralmente com telha de barro de meia-cana &#8211; t\u00eam que ser reparados pelo mesmo motivo.<\/p>\n<p>As casas t\u00eam paredes grossas, que mant\u00eam o interior fresco no ver\u00e3o, e aquecido no inverno. Resistem, tamb\u00e9m, bem a pequenos abalos de terra, uma vez que as paredes s\u00e3o geralmente constru\u00eddas com grandes lajes de pedra que assentam, umas por cima das outras. Nesta casa, a parede oeste est\u00e1 ainda refor\u00e7ada com o apoio de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Contraforte\">contrafortes<\/a>, para lhe dar mais estabilidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-01-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-01\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-966\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-01.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-01-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-02-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-02\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-967\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-02.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-02-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando uma casa \u00e9 abandonada, n\u00e3o passam mais de cinquenta anos at\u00e9 que a edifica\u00e7\u00e3o se transforme numa ru\u00edna sem recupera\u00e7\u00e3o, num amontoado de pedras, o que faz, destas casas, habita\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, perfeitamente integradas no ambiente. Provavelmente, \u00e9 esse o destino desta casa da encruzilhada. <\/p>\n<p>A partir dali, a estrada ganha um piso de alcatr\u00e3o, mas \u00e9 demasiado estreita para permitir a passagem simult\u00e2nea de duas viaturas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-03-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-03\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-970\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-03.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-03-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>S\u00e3o dois quil\u00f3metros sempre a direito, que eu percorri de forma mec\u00e2nica, robotizada, com os p\u00e9s do tamanho de patas de elefante, a bater no ch\u00e3o a cada passada e, a cada passada, cada vez mais espalmados, cada vez mais desfeitos. Imaginava os meus p\u00e9s como um monte de carne e ossos \u00e0 solta dentro das botas, como uma mistura l\u00edquida, e s\u00f3 me apetecia colocar o <em>mixer<\/em> &#8211; a varinha m\u00e1gica &#8211; dentro das botas, moer tudo e acabar com aquele sofrimento.<\/p>\n<p>A meio do caminho, pareceu-me que os movimentos descoordenados dos bra\u00e7os, conjugados com uma m\u00e1 respira\u00e7\u00e3o, estavam a interferir com as batidas e o ritmo do cora\u00e7\u00e3o. Provavelmente foi s\u00f3 uma sugest\u00e3o, pois o cora\u00e7\u00e3o bate sempre, a vida toda, apesar dos excessos e de outras barbaridades que nos apete\u00e7a fazer. Grande companheiro, o cora\u00e7\u00e3o. Adotei, ent\u00e3o uma passada mais calma, acompanhada por um movimento natural dos bra\u00e7os e uma respira\u00e7\u00e3o longa e descontra\u00edda. E o ritmo voltou.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, e como o Carlos se atrasa muitas vezes, planeei ir at\u00e9 ao cabo de S\u00e3o Vicente e depois voltar para tr\u00e1s, para Sagres, para ficar com esse percurso j\u00e1 feito, antes que ele chegasse para me levar de volta a Almada. Na minha senda pela costa de Portugal, ainda me faltava caminhar do cabo de S\u00e3o Vicente at\u00e9 \u00e0 praia do Anc\u00e3o, onde tudo come\u00e7ou. E esse percurso teria que ser feito mais tarde. Mas o melhor era inici\u00e1-lo a partir de Sagres, pois Sagres \u00e9 bem servida por transportes p\u00fablicos, e poderia chegar l\u00e1 com facilidade, em qualquer altura, para concluir o tro\u00e7o algarvio. No entanto, cada vez tinha mais dificuldades em andar, tinha imensas dores nas pernas e nos p\u00e9s, e a possibilidade de voltar para tr\u00e1s, para Sagres, era cada vez mais remota.<\/p>\n<p>Depois de uma pequena curva \u00e0 direita, com contracurva, cheguei, novamente, \u00e0 estrada N268 que me levaria ao termo deste projeto Tr\u00f3ia-Sagres iniciado uma semana antes. <\/p>\n<p>Faltavam pouco mais de dois quil\u00f3metros para concluir o trajeto. O c\u00e9u estava praticamente limpo, o sol quente, e eu tinha um casaco de inverno vestido e um chap\u00e9u na cabe\u00e7a. Caminhava todo tapado do sol das duas da tarde para n\u00e3o me queimar, mas isso n\u00e3o me permitia arrefecer o corpo que, para al\u00e9m de quente, suava. Apesar de tudo, penso que essa foi a melhor op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sensivelmente a meio caminho, passei na Fortaleza do Beliche. \u00c9 uma zona com imensos pesqueiros, onde j\u00e1 vi apanhar v\u00e1rios sargos \u00e0 cana, todos com mais de um quilograma e meio.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-05.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-05-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-05\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-974\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-05.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-05-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>Para tr\u00e1s, para o lado de Sagres, fica a praia do Beliche, a \u00faltima grande praia de areia do barlavento algarvio, com uma extens\u00e3o de areia de leste a oeste, de mais de quinhentos metros. Para chegar \u00e0 praia, \u00e9 necess\u00e1rio descer umas centenas de degraus, o que fiz muitas vezes no passado. A praia tem um separador natural a meio &#8211; no local onde o promont\u00f3rio avan\u00e7a para o mar &#8211; que divide o areal em duas partes quando a mar\u00e9 est\u00e1 cheia. A metade oeste da praia \u00e9, tradicionalmente, frequentada por nudistas. L\u00e1 no canto oeste, fotografei, uma vez, os meus filhos mais velhos a fazer surf.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-04.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-04-640x423.jpg\" alt=\"Vicente-04\" width=\"640\" height=\"423\" class=\"alignnone size-medium wp-image-973\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-04.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-04-100x66.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Muitos anos antes, estava eu dentro de \u00e1gua a fazer ca\u00e7a submarina, bem afastado do areal e tocaram-me nas costas. Assustei-me, pois n\u00e3o tinha sentido ningu\u00e9m aproximar-se e a probabilidade de haver algu\u00e9m ali, \u00e0quela dist\u00e2ncia da praia, era muito baixa. Ali\u00e1s, aquela praia sempre me assustou. Sempre tive medo que surgisse um tubar\u00e3o por detr\u00e1s daquelas lamin\u00e1rias enormes e compridas que ondulam desde as rochas no fundo at\u00e9 \u00e0 tona de \u00e1gua. Tocaram-me, assustei-me, virei-me e era um banhista franc\u00eas, com uns \u00f3culos e tubo de mergulho, que me fez sinal para mergulhar e olhar para um buraco numa rocha. Assim fiz, e assim que assomei a cara ao buraco, assustei-me de novo: o buraco estava tapado com uma boca e uns olhos. <\/p>\n<p>O buraco era ocupado por uma boca castanha enorme, de uma ponta a outra, com uns olhos pintados por cima. N\u00e3o consegui pensar, afastei-me do local e subi os seis metros que me separavam da superf\u00edcie. &#8220;E agora?&#8221;, perguntei eu ao franc\u00eas. &#8220;Agora, dispara&#8221;, indicou-me ele.<\/p>\n<p>Refeito do susto duplo, oxigenei o sangue durante um minuto, com umas inspira\u00e7\u00f5es prolongadas, enquanto refazia as ideias. O que eu tinha visto l\u00e1 embaixo era um charroco enorme. Era o primeiro charroco que via dentro de \u00e1gua. Tinha a ideia de o charroco ser um peixe pac\u00edfico, relativamente lento, e portanto n\u00e3o deveria constituir perigo, apesar de ser grande e ter uma grande boca. Mergulhei, arpoei-o e trouxe-o para cima. Enquanto sub\u00edamos, n\u00e3o se mexeu. Lembro-me de o ver a rodar devagar em torno do arp\u00e3o devido ao atrito da \u00e1gua. Quando o tirei para fora, sacudiu-se energicamente duas ou tr\u00eas vezes e parou.<\/p>\n<p>Foi nessa praia, tamb\u00e9m, que cacei a \u00fanica tremelga que alguma vez vi dentro de \u00e1gua. Nem me apercebi do que tinha apanhado, de in\u00edcio pensei que era uma raia. S\u00f3, mais tarde, j\u00e1 na areia, quando levei duas descargas el\u00e9tricas na m\u00e3o, que me deixaram o bra\u00e7o dormente, \u00e9 que percebi que se tratava de uma tremelga.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Faltava pouco para chegar ao fim e j\u00e1 tinha desistido da ideia de voltar para tr\u00e1s at\u00e9 Sagres. N\u00e3o que eu n\u00e3o conseguisse andar, mas as dores eram muitas e o risco de desenvolver uma qualquer les\u00e3o aumentava a cada minuto.<\/p>\n<p>Pinheiro que foi crescendo, todo retorcido, sob a for\u00e7a do vento de Sagres<br \/>\n<a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-06.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-06-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-06\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-977\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-06.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-06-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cheguei, enfim \u00e0 extremidade do cabo de S\u00e3o Vicente, vindo de Tr\u00f3ia, ap\u00f3s quatro dias e meio a caminhar, interrompidos por uma paragem em Vila Nova de Milfontes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-07.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-07-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-07\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-978\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-07.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-07-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-10.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-10-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-10\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-980\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-10.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-10-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-08.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-08-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-08\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-979\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-08.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-08-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Fui at\u00e9 ao ponto mais sudoeste poss\u00edvel e parei o registo do percurso que estava a ser feito pela minha aplica\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/highwaystar.org\/\">HighWay Star<\/a>. No passado era poss\u00edvel ir mais longe, mas o caminho para a ponta mais sudoeste estava bloqueado. N\u00e3o era poss\u00edvel, sequer, ver o rochedo em forma de p\u00e9nis ereto que fica dentro de \u00e1gua, no prolongamento sudoeste, a vinte metros do continente, e que costumava ser uma grande atra\u00e7\u00e3o para os turistas.<\/p>\n<p>Voltei para tr\u00e1s. Despi o casaco e sentei-me numa mini esplanada a beber uma cerveja, enquanto esperava pelo Carlos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-09.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/riaformosa.wp.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-09-640x480.jpg\" alt=\"Vicente-09\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignnone size-medium wp-image-981\" srcset=\"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-09.jpg 640w, http:\/\/riaformosa.w3.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/04\/Vicente-09-100x75.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O d\u00e9cimo sexto e \u00faltimo tro\u00e7o do percurso foi de Vila do Bispo at\u00e9 ao Cabo de S\u00e3o Vicente. A imagem seguinte cont\u00e9m o percurso registado pela aplica\u00e7\u00e3o Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android. O ficheiro KML do percurso est\u00e1 aqui: Troia-Sagres-cap16.kml In\u00edcio: 02-04-2016, 12:07 Velocidade m\u00e9dia: 5.086 km\/h Tempo: 02h 12m [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/633"}],"collection":[{"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=633"}],"version-history":[{"count":13,"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/633\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1028,"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/633\/revisions\/1028"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/riaformosa.w3.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}