Ilhas da Ria Formosa – capítulo III

O terceiro troço do percurso foi a travessia da ilha da Barreta de oeste para leste, até à barra de Faro.

Chegámos à ilha da Barreta Barrinha às 20h18m do dia 25 de setembro de 2015. Secámo-nos, vestimos a roupa e continuámos a caminhada, agora com a lua cheia já no horizonte, de frente para nós.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap3.kml

Ilhas-mapa-03

Início: 25-09-2015, 20:24
Velocidade média: 4.913 km/h
Tempo: 01h 12m 29.675s
Espaço: 5.936 km

A Barreta é a ilha mais a sul do continente português. Sempre tive vontade de visitar a Barreta e de estar no ponto mais a sul de Portugal continental. Fiz férias na ilha da Culatra, tanto no núcleo de pescadores, como na zona balnear do Farol, durante muitos anos e nunca tinha tido oportunidade de ir à Barreta. Fiquei com a sensação de que a Barreta – ou Deserta – era um local inacessível, ou apenas acessível a alguns priveligiados com barco, com autonomia para a visitarem quando quisessem.

Quando coloquei os pés na ilha da Barreta senti uma felicidade extrema e difícil de explicar. Ao caminhar pela Barreta tive a sensação de ter conquistado um bastião que me esperava há muito, um marco que eu precisava de alcançar, um obstáculo que eu precisava de vencer. Não de uma forma simplista, alugando um barco-táxi como um turista, mas com um esforço, uma dificuldade e uma perigosidade, inerentes ao desconhecimento da travessia, e apenas com meios próprios. E consegui.

Caminhámos a custo durante cerca de quatro quilómetros até começarmos a vislumbrar, ao fundo, uma inflexão na costa para norte. Estávamos a chegar ao ponto mais a sul de Portugal. A lua já estava alta e parámos para tirar uns autorretratos no local.

Ilha da Barreta, no ponto mais a sul de Portugal continental, 25-09-2015, 21h12m
36°57’36.5796″ N, 007°53’13.3404″ W
Barreta-1

Daí até à barra de Faro são mais dois quilómetros. Demorámos mais vinte e quatro minutos a concluir o percurso.

Pelo caminho fotografei um covo que se soltou de uma armação de algum pescador e deu à costa.
Barreta-2

Entretanto calcei as sandálias. A dificuldade em caminhar agudizava-se a cada passo. Caminhava inclinado para a frente, para não ter que fazer tanta força com as pernas, nem com os pés, para tentar aliviar as dores nas articulações társicas. Procurei um caminho mais plano para não esforçar tanto os joelhos e as ancas. Mas o caminho plano tinha areia mais mole e forçava mais as articulações dos pés. Cada passo era um martírio. Por vergonha não parei.

As sandálias estão velhas e secas e feriram-me o tornozelo direito. Felizmente levei três pensos rápidos que fui usando para proteger a ferida da sandália.

snadalias

Chegámos ao molhe oeste da barra de Faro às 21h36m. Jantámos e telefonámos à família, para os colocar a par dos acontecimentos, e para os deixar descansados. Enviei o percurso registado na minha App Highway Star para o servidor, tal como fiz sempre no final de cada troço, para a minha mulher poder consultar.

Os pés latejavam. Descalcei-me e assentei as plantas dos pés no betão do molhe para tentar obter algum alívio, mas em vão. Tinha os pés inchados e doridos e doíam-me também os tornozelos.

Era de noite, mas a lua cheia iluminava toda a área circundante e era posível ver, com alguma clareza, os pescadores no molhe leste, assim como todas as embarcações que navegavam nas imediações, mesmo que algumas não tivessem iluminação própria.

Depois de jantarmos, descansámos uns minutos e decidi, então, percorrer o molhe de norte a sul para estudar a forma de entrar dentro de água na maré seguinte e passar a barra de Faro até à ilha da Culatra/Farol. O molhe oeste tem cerca de quinhentos metros de comprimento que percorri nos dois sentidos, num total de mil metros.

Desloquei-me primeiro à extremidade sul do molhe, até ao farol, e desci, pelos blocos de cimento, até junto da água. A maré estava a encher e a corrente era fortíssima no extremo do pontão. Com a maré parada talvez conseguíssemos entrar dentro de água naquele local. A extremidade sul do pontão oeste é o ponto da ilha da Barreta que está mais próximo do molhe da ilha da Culatra. Fica apenas a duzentos metros de distância. Se fosse possível entrar na água nesse local, só teríamos que nadar duzentos metros na barra de Faro, que é a barra mais perigosa de todas as que teríamos que passar. É uma barra atravessada por cargueiros que se destinam ao porto de Faro, lanchas, traineiras e outros barcos de pesca e recreio, todos eles mais rápidos do que nós.

Caminhei, depois, ao longo do molhe, para norte, à procura de outros locais onde fosse possível entrar na água para atravessar a barra. Apesar das dores nos pés, percorri o molhe de sul a norte, pois não conseguiria dormir em paz se não encontrasse uma solução viável para a passagem da barra.

Espalhados ao longo do molhe, estavam mais de trinta pescadores à cana que iam pescando, aqui e ali, bailas e robalos. Tinham montado tendas na areia junto ao molhe, do lado da ilha, onde guardavam as bebidas e comida que os iriam manter ali durante a noite.

Era de noite, a visibilidade era limitada, não era fácil fazer uma análise precisa da configuração do molhe, mas pareceu-me que havia apenas dois locais por onde poderíamos aceder ao mar a partir do molhe: a extremidade sul, ou a extremidade norte. A extremidade sul distava apenas duzentos metros da ilha da Culatra, sendo por isso o acesso mais seguro, enquanto a extremidade norte distava mais de seiscentos metros.

Havia uma terceira possibilidade de acesso ao mar. Poderíamos entrar na água a partir da praia da Barreta junto ao molhe. Teríamos apenas que contornar o extremidade sul do molhe e, depois, nadar mais duzentos metros. No total nadaríamos cerca de trezentos metros.

De manhã, com mais visibilidade, analisaríamos melhor as três opções e então tomaríamos a decisão de como passar a barra.

Decidimos, então, ir dormir. Escolhemos uma depressão na areia, com seis por dez metros, junto a uma pequena edificação em alvenaria, de base quadrada, com cerca de três metros de lado. Ficámos nas traseiras das tendas dos pescadores. O ar esfriou um pouco mais do que o previsto, havia algum vento, embora fraco, e humidade, vindos de oeste, mas essa zona rebaixada protegia-nos do ar marítimo mais fresco.

Barreta-4
Imagem do Google Maps

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