Ilhas da Ria Formosa – capítulo IV

O quarto troço foi a passagem da barra de Faro a nado.

Deitámo-nos por volta das 23h30m do dia 25, numa depressão que existia na areia, junto às tendas dos pescadores, que aparentavem ir ficar a noite toda acordados e a pescar.

Acordámos às 6h30m da manhã. O sol ainda não tinha nascido, mas o dia já estava bastante claro.

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A maré vazia era às 7h37m. Fui até ao extremo sul do pontão ver se era viável descer para a água naquele local. A maré ainda não tinha parado e a corrente continuava forte. Decidimos entrar na água pela praia da Barreta, imediatamente a oeste do molhe.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap4.kml

Ilhas-mapa-04

Início: 26-09-2015, 07:46
Velocidade média: 0.729 km/h
Tempo: 00h 24m 46.197s
Espaço: 0.301 km

“Estes vão dormir aqui no buraco?”, ouvi um pescador perguntar a outro, quando já estava fechado dentro do saco-cama.

Naquela ilha, naquele momento, só havia pescadores e nós dois. Os pescadores estavam com receio da nossa presença. Há um conjunto de regras e limitações impostas à pesca lúdica que, por vezes, os pescadores não cumprem: limite do número de canas, linhas ou anzóis que podem utilizar, a iluminação noturna, o tamanho, número e espécies de peixes, etc. E os pescadores estavam, na certa, receosos que fossemos fiscais de alguma entidade pública.

Na noite de dia 25, quase no fim da caminhada na Barreta, a cerca de um quilómetro da barra de Faro, encontrámos as primeiras pessoas que vimos no trajeto. Eram pescadores e tinham várias canas espetadas na areia, ao longo da linha de costa. Por cortesia, cumprimentei-os, perguntei se já tinham pescado algo, e depois, sem pensar, perguntei a um deles se aquelas canas eram todas dele. Respondeu-me de imediato que não. Pela prontidão da resposta, percebi que aquela era uma questão sensível e que teria que ter mais cuidado nas perguntas que fazia.

Ver mais informação sobre as regras da pesca lúdica: aqui.

Durante toda a noite, antes de nos deitarmos, os pescadores que estavam no pontão olhavam para nós com alguma desconfiança. E quando nos deitámos, comentaram a nossa presença em voz alta, numa aparente manifestação de nervosismo, talvez na esperança de obterem uma resposta.

Dentro do saco-cama, publiquei as fotografias no Facebook e respondi a algumas mensagens. Ativei o despertador para a 1h da manhã. A maré cheia era à 1h39m e eu queria ver se era possível passar a barra de noite para continuar a caminhar até à extremidade leste da ilha da Culatra antes da próxima maré vazia.

Não foi fácil adormecer. Os pescadores estiveram sempre a falar, os barcos passavam e, principalmente os de grande tonelagem, emitiam intensas vibrações de baixa frequência, que me acordaram algumas vezes ao longo da noite. Mas o pior foi a festa na Culatra, junto ao farol, ali mesmo em frente, que só terminou às 5h da manhã.

À 1h da manhã, o despertador tocou e eu levantei-me. Calcei-me e fui até ao fim do pontão. A maré ainda não tinha parado, continuava a encher, e a corrente era fortíssima junto às pedras. Não era possível entrar ali. Além disso, não havia visibilidade suficiente, apesar da lua estar cheia e quase no zénite, o que tornava a travessia da barra extremamente arriscada. Desisti da ideia de fazer a travessia de noite e voltei para o scao-cama.

Acordei pouco antes das 6h30m. Ainda dentro do saco-cama pensei: “O que é que estou a fazer aqui? Esta barra é impossível de passar a nado. Vou mas é voltar para trás. Ainda estou a tempo.” Por vergonha, fiquei calado e deixei estes pensamentos definharem dentro da minha cabeça. Sentei-me, abri o saco-cama e fiz umas fotografias.

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O ar fresco, o som dos barcos, o cheiro a gasóleo e iodo, fizeram-me recordar os tempos em que ia com o meu pai para o cais do Ginjal, em Cacilhas, ver os estivadores a carregarem ou descarregarem os navios acostados, em 1967 e 1968. As calhas de transporte de gelo, das quais já não restam sinais, funcionavam com a gravidade, como um plano inclinado, e, de vez em quando, ouvia-se um bloco de gelo a descer para um barco. Os estivadores, passavam com um saco de serapilheira em cima das costas e, por cima do saco, uma peça grande de um alimento congelado do qual já não me recordo. Uns anos mais tarde, a partir de 1973,passei a ir para o Ginjal sozinho, com um camaroeiro, apanhar carangueijos. Mais tarde ainda, em 1982, fui estudar para Lisboa, e fazia a travessia do Tejo todos os dias de manhã. E o cheiro a gasóleo misturado com o odor da água salgada foi sempre uma constante.

Foi esse cheiro que recordei ali, sentado a olhar para aquela enorme massa de água que saía barra fora. Foi esse cheiro, juntamente com o ar fresco na cara, que me deu alento para continuar. Saltei do saco-cama, calcei-me, arrumei tudo na mochila e fui até ao sul do pontão. A maré ainda não tinha parado e a corrente estava muito forte junto às pedras. Decidimos entrar na água pela praia da Barreta.

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Descemos até à praia, vestimos o fato de banho e pusemos a roupa nas mochilas. Pegámos nas pranchas e caminhámos para a água com as mochilas às costas. Os pescadores, para quem a nossa presença até ali tinha sido um enigma, ficaram parados a olhar para nós. Não conseguiam perceber o que se estava a passar.

“Onde é que vão estes dois, com uma mochila às costas, em cima de uma prancha? Para Marrocos?”, terão pensado. Sim, Marrocos era mais plausível do que passar a barra de Faro a nado.

Pousaram as canas e ficaram a olhar para nós, de queixo caído, enquanto entrávamos mar adentro. Alguns, mais tarde, devem ter pensado que aquilo nunca aconteceu. Devem ter pensado que foi imaginação, uma visão fruto das dez ou mais cervejas que beberam durante a noite.

Demorámos pouco mais de dez minutos a passar a barra a nado, em cima das pranchas. No total, entre arrumar a roupa na mochila, entrar dentro de água, passar a barra, chegar à Culatra, subir para o pontão, abrir a mochila e parar o registo do percurso, foram vinte e quatro minutos.

Passaram duas lanchas enquanto fazíamos a travessia em cima das pranchas. Gritámos, acenámos, mas só nos viram já muito perto. Na próxima vez levo uma bandeira vermelha encaixada na prancha de bodyboard, a um metro de altura, assim como um apito, ou buzina de ar comprimido.

Ao chegarmos perto do molhe da Culatra, estava um pescador junto à água a lavar material de pesca. Nadámos na direção dele pois, a partir dali, haveria certamente acesso à superfície do pontão. Quando nos aproximámos mais, um outro pescador que estava nas imediações, em cima do pontão, lançou o anzol quase para cima de mim, com um olhar de desconsideração por nós.

Nós não devíamos estar ali, ninguém passa a barra a nado, e, ainda por cima, estávamos a ocupar a sua área de pesca. Bem… isto foi o que eu li no olhar e na atitude dele.

Mas logo depois a atitude mudou. Abriu um sorriso, guiou-nos pelo meio das pedras, pois tinha uma visão privilegiada, de cima do pontão, e não mais se calou com piadas, curiosidades e técnicas de pesca, até irmos embora, meia hora mais tarde. Era um indivíduo do norte, de uma povoação a norte do Porto, não me lembro qual, talvez Vila do Conde, mas, apesar de tagarela, já tinha feito imensos amigos entre os pescadores algarvios, muito mais calados e reservados.

Chegada à Culatra/Farol.
Culatra-1

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