Ilhas da Ria Formosa – capítulo V

O quinto troço foi a ilha da Culatra, com paragem a meio para pequeno almoço.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap5.kml

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Início: 26-09-2015, 08:36
Velocidade média: 2.827 km/h
Tempo: 02h 56m 31.618s
Espaço: 8.318 km

Chegámos à Culatra! Conseguimos passar a barra de Faro.

Um dia, há muitos anos atrás, morri ali; e voltei a nascer. Estava a fazer caça submarina do lado leste do molhe da Culatra/Farol e apanhei um polvo com três quilogramas e meio. O polvo era enorme e tive imensa dificuldade em dominá-lo. Tinha o polvo preso no arpão da espingarda e queria pendurá-lo na boia para poder continuar a caçar, mas o polvo era demasiado grande e rápido. Demorei talvez quinze minutos para conseguir fazê-lo. Era de manhã, numa lua de marés vivas e a maré estava a encher. Eu estava concentrado a lidar com o polvo e não dei conta de estar a ser, lentamente, puxado pela corrente. Quando me apercebi, já estava demasiado próximo da entrada da barra e a corrente era tão forte que, apesar do desespero com que bati os pés não consegui contrariar a força da água. Deixei-me levar e centrei a minha atenção em evitar embater nas pedras do molhe. Entretanto a boia ficou presa nas rochas. Tive que largar a arma, que estava atada à boia por uma corda com cerca de quinze metros, e deixei-me levar pela água. Passei ao lado de um cargueiro enorme, à entrada da barra, e depois junto a uma traineira. Acenei a pedir ajuda, mas o pescador acenou-me de volta, como se me cumprimentasse. As ondas eram enormes e tapavam-me a visibilidade. Olhei para o fundo e não vi nada, apenas água por ali abaixo: mais de cinquenta metros de profundidade. Desisti. Logo depois, já no interior da Ria, a barra alarga, a água tem mais espaço, a ondulação diminui e a corrente acalma. Nadei para o molhe. Entretanto a boia, que se tinha soltado, veio com a corrente e pude recolhê-la, assim como a arma e o polvo. Foi a segunda vez que nasci.

Chegámos à Culatra. O maior obstáculo estava vencido. Já nada nos podia parar, nem mesmo a próxima barra com mais de quinhentos metros de comprimento. Senti uma felicidade extrema e uma força enorme para continuar.

Chegada à Culatra
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Barra de Faro, uma barra concorrida. Aqui a Culatra, ao fundo a Barreta.
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Partimos, ao longo do molhe, a caminho do farol. Ainda não eram 9h e quase não se via ninguém, para além dos pescadores.

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Ao fim de um quilómetro, chegámos ao fim do pontão. Nesse local, para leste, para o lado do mar, estão as ruínas de um antigo pontão que, em 1984, ainda protegia uma pequena praia que tinha um acesso por uma escada de pedra, um pouco mais a norte.

Fotografia do pontão que protegia a prainha, durante uma agitação marítima de levante. Foto minha de 1984.
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Numa noite de agosto de 1984, por volta da meia noite, fui fazer caça submarina para a prainha. Cerca de meia hora mais tarde, ouvi um burburinho, vindo do pontão e tirei a cabeça para fora da água para tentar perceber o que se passava. Eram os meus parceiros de férias, que caminhavam pelo pontão, naquela noite sem lua, a gritar “invasão, invasão”. Prolongavam bastante a primeira sílaba, carregada talvez pelo vodca e pelo gin que tinham bebido no café da Associação dos moradores do Farol, e o som – caso seja possível reproduzi-lo em escrita – era algo como “in-iinn-vasão, in-iinn-vasão”. Voltei a mergulhar a cabeça, mas pouco depois o rumor aumentou de amplitude. Um deles – o Miguel – atirou-se para a prainha, na escuridão, de uma altura de quatro metros, e bateu com o calcanhar numa pedra. Gritou de dor, os outros correram a ajudá-lo, mas os sete decilitros de gin que tinha bebido depressa ajudaram a dor a diluir-se. Não sabemos se partiu o calcanhar – que inchou – mas coxeou durante o resto das férias.

Cerca de duzentos metros mais à frente, e um ano depois, junto às escadas de acesso à prainha, sentei-me com o Joaquim a comer uma melancia de quatro quilogramas. Comemos metade cada um e ficámos a repousar durante mais de uma hora deitados com as costas em cima do cimento escaldante do pontão. A ondulação era fraca e a água tinha cerca de cinquenta centímetros, lá em baixo, junto às escadas que davam acesso à prainha. O topo das escadas elevava-se, talvez, dois metros e meio em relação à água, e quando vinha uma onda a água teria setenta e cinco centímetros de altura. Decidi mergulhar para a água a partir dali. Esperando que viesse uma onda, e saltando bem para a frente, podia chegar quase na horizontal, e compensar a baixa profundidade da água. Se tivesse visto o filme Mar Adentro, que só foi produzido vinte anos depois, talvez tivesse pensado melhor antes de mergulhar. Bati com a cara no fundo, raspei com o peito, fiquei a sangrar do nariz e com a boca cheia de areia.

Chegada ao farol
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A zona do balnear do Farol mudou muito desde que lá estive nos anos oitenta. As imediações do farol, antes despovoadas, têm agoras mais construções e estabelecimentos comerciais.

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Depois de passarmos o farol, descemos até ao areal e começámos a caminhada pela areia. A maré estava vazia, as dores nos pés pareciam ter acalmado, e a areia húmida estava suficientemente compacta para permitir caminhar a um bom ritmo.

Ao fim de quartrocentos metros, deparámos com uma obra no meio da praia.

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Um tubo largo e enorme descia pela areia, vindo das dunas, até ao mar. Passámos por cima do tubo e continuámos o percurso. Mais à frente, ouvia-se o som de uma escavadora, que espalhava areia pela praia. Um trabalhador da obra soprou um apito e obrigou-nos a contornar a obra pelo norte, pela zona das dunas. O caminho pela areia seca das dunas é mais difícil, pois os pés enterram-se e derrapam na areia. Fizémos cerca de seiscentos metros pela areia mole, até ao fim da obra, e depois voltámos à areia molhada.

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A cerca de dois quilómetros de distância do farol, fica a zona dos hangares. Outrora um local com meia dúzia de edificações para guardar equipamento de pesca, está agora transformado numa zona de suporte a turismo quase selvagem, com uma míriade de construções ilegais na zona da ria.

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Um quilómetro mais à frente, fica a zona balnear da povoação de Culatra. Parámos para tomar o pequeno almoço.

Eram 9h30m e não havia ninguém na praia.

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De leste a oeste, não se via uma única pessoa sobre a areia. A praia da Culatra tem esta caraterística: mesmo no pico do verão, há imenso espaço para desfrutarmos da areia, da água, da calmaria, e podermos ter realmente férias. E não há o risco de deixar de ser assim. Porquê? Porque para ir à praia da Culatra é necessário andar meia hora de barco – e só há barcos de duas em duas horas – e, depois, é preciso andar meia hora a pé até chegar ao mar. Tendo em conta que à maior parte dos veraneantes não lhe passa pela cabeça apanhar o barco das 7h da manhã, nem sequer o das 9h, terá que fazer o percurso debaixo da torreira do sol do meio-dia e nunca mais lá volta. 🙂

Quando estou de férias no Algarve, no verão, levanto-me às 5h45m para, depois de um percurso de cinquenta minutos na Via do Infante mais algumas estradas regionais, apanhar o barco das 7h da manhã, em Olhão, e ter uma praia de dez quilómetros só para mim durante duas horas. É esse o meu conceito de paraíso na Terra.

Aproximámo-nos da barraca de suporte à zona concessionada e parámos à sombra para tomar o pequeno almoço.

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O meu pequeno almoço foi uma bola de arroz e fruta. Enquanto comíamos, chegaram os banheiros que nos pediram para nos afastarmos da barraca, porque precisavam de trabalhar. Terminámos o pequeno almoço e fomos para o meio do areal. Tínhamos bastante tempo até à próxima mudança de maré e já não faltava muito para chegarmos ao extremo leste da ilha, por isso aproveitámos para descontrair.

Lavei os dentes, fiz uns estiramentos, dei uns mergulhos e fui aos sanitários.

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Os equipamentos de suporte têm vindo a aumentar na praia da Culatra, nos últimos anos. Inicialmente, era uma praia selvagem. Depois passou a ter o apoio de um nadador-salvador que vinha de Olhão todos os dias. Mais tarde, construíram uma passadeira de madeira, para evitar que os banhistas se deslocassem por cima das dunas, construíram os sanitários e a barraca de suporte às atividades balneares.

Tenho sentimentos mistos em relação a estas alterações. Por um lado, gosto do ambiente selvagem e natural que uma praia pode proporcionar; por outro lado, se a praia começa a ser mais frequentada, é bom que haja equipamentos de apoio, nomeadamente sacos para o lixo e recolha desse lixo, pois os veraneantes não são os seres mais conscientes deste mundo.

Povoado da Culatra, ao fundo
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Adoro a Culatra. Gosto de pessoas que têm uma vida independente, uma vida dura, e que lutam todos os dias para conseguirem colocar comida no prato. Os pescadores desde sempre tiveram a minha admiração.

A Culatra é a única povoação, das ilhas de Ria Formosa, com uma escola. Tal como os outros aglomerados de casas destas ilhas, não é considerado um povoamento legal, pela administração local e central. No entanto, a administração central construiu uma escola e um infantário, com professores e educadores pagos pelas entidades públicas; e, sempre que há eleições, há mesas de voto na ilha.

A casa de banho é outro dos equipamentos bem vindos numa praia que, apesar de ter um acesso difícil, tem bastantes visitantes, principalmente na hora de mais calor. Quando cheguei à casa de banho, a água corria pela sanita: o autoclismo estava avariado. Tentei compô-lo para evitar a perda de água – que é um bem precioso, no Algarve de verão -, mas precisava mesmo de ser substituído. Fechei a torneira e fui informar o responsável pela barraca da praia. Inicialmente recebeu-me mal, já nos tinha expulso de perto da barraca – deve ter pensado que ficámos por ali a dormir na noite anterior, que éramos uns vagabundos – mas depois, quando percebeu a minha preocupação, agradeceu-me – disse-me que já tinha comunicado aos responsáveis – e foi tentar reparar o autoclismo.

Espalhei protetor solar na cara, coloquei os óculos escuros, pois íamos caminhar contra o sol, que ao refletir na água multiplica a intensidade luminosa, pus a mochila às costas e recomeçámos a caminhada. Tínhamos cerca de cinco quilómetros pela frente, até à barra Culatra-Armona, e a mudança da maré era só daí a três horas.

Pelo caminho, encontrámos apenas uma mulher, que tinha entretanto chegado no barco das 9h.

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Mais à frente, a pouco mais de um quilómetro do final do trajeto, estava um sofá perdido nas dunas.

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Não consigo imaginar como terá chegado ali, mas aproveitámos para fazer a fotografia mais inesperada e improvável de toda a caminhada.

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Quinze minutos mais tarde chegámos ao extremo leste da ilha da Culatra. A corrente estava ainda bastante forte. Tivémos que esperar cerca de duas horas até a maré encher completamente e só depois pudémos atravessar para a Armona.

Na Culatra, com a Armona ao fundo
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A espera foi longa. Voltámos a barrar-nos com protetor solar e fomos várias vezes mergulhar para nos refrescarmos.

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