Ilhas da Ria Formosa – capítulo VIII

O oitavo troço foi a passagem da barra Armona-Tavira a nado.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap8.kml

Ilhas-mapa-08
Início: 26-09-2015, 18:09
Velocidade média: 2.274 km/h
Tempo: 00h 28m 39.002s
Espaço: 1.086 km

Quando deparámos com esta extensão de poças intervaladas por montes de areia, pensámos tratar-se apenas disso: um monte de poças. Mas não conseguíamos vislumbrar o fim das poças, e as dunas mais próximas, para nordeste para lá das poças, pareciam estar a mais de um quilómetro de distância. Ainda ponderámos avançar pelas poças sem nos despirmos pois a água não era muito profunda, tanto quanto a nossa vista alcançava. Mas se, mais à frente, a situação mudasse, poderia ser difícil mudarmos de roupa no meio da areia molhada, com os pés a enterrarem-se e sem um espaço completamente seco para pousarmos a mochila e trocarmos a roupa.

Saímos, então, preparados para águas profundas, pelo meio da água que serpenteava entre pequenos montes de areia. A água corria com força para o mar – a maré estava a vazar – e a configuração da areia e das poças mudava constantemente. Onde agora estava areia, daí a pouco era água, e a maior parte da areia estava tão solta e envolvida por água, que as nossas pernas se enterravam por vezes até ao joelho.

No meio da barra, com a ilha de Tavira lá muito ao fundo
Armona-Tavira-01

O caminho todo estendeu-se por mais de um quilómetro, e cerca de metade foi feito a andar a pé nestas areias móveis. À medida que nos íamos aproximando das dunas mais elevadas que se viam lá ao fundo a nordeste e que, segundo o mapa, ainda faziam parte da ilha da Armona sendo estas poças, por esse motivo, um acidente no percurso, começámos a aperceber-nos de uma corrente forte que corria da ria para o mar mesmo junto, e antes, das ditas dunas.

Armona-Tavira-02

Eram 18h20m e a maré vazia estava prevista apenas para as 20h05m. Por esse motivo esta corrente forte não era surpresa nenhuma. Mas nós não podíamos esperar que a maré vazasse, caso contrário, arriscávamo-nos a não chegar a tempo à barra Armona-Tavira que deveria estar dois a três quilómetros mais à frente, segundo o mapa. Caminhámos, então pelos montes de areia, no sentido da ria, quase para norte, de forma a apanharmos a corrente o mais dentro da ria possível pois, assim que entrássemos na água, seríamos arrastados para o mar. O objetivo era ir nadando para nordeste, à medida que a corrente nos arrastava para sul, e tentar chegar à areia seca antes de chegar ao mar.

Não foi fácil, foi um esforço intenso. Talvez o esforço mais intenso de toda a travessia das ilhas. Nadar contra a corrente é inglório e perigoso e aqueles foram, provavelmente, os quinze minutos mais , imprevisíveis e assustadores daqueles dias.

Virei-me para as dunas, nadei em frente e estava a ser arrastado, a grande velocidade, para o lado, para o mar aberto. Por mais força que fizesse, a bater os pés, a puxar com os braços, o deslizamento na horizontal era muito superior ao avanço para a frente.

Foram quinze minutos aflitivos, sempre com muita atenção, e a cada braçada corrigia as previsões sobre se seria possível chegar ao outro lado, se valia a pena o esforço, ou se desistia e arriscava ser arrastado para o mar para, depois, voltar a terra, a nado, para a praia.

Já estava perto, quando percebi que já tinha pé. Saltei da prancha e arrastei-me, à força de pernas, contra a corrente. Cheguei enfim à areia seca. Não me despi logo, pois pensei que a ainda esperada barra Armona-Tavira estivesse a uns dois quilómetros de distância.

Enquanto esperava pelo Igor, reparei num barco cabinado que tentava entrar pelo canal de água vazante, vindo do mar. A água saía da ria a grande velocidade e via-se, a cada minuto, o nível da água a descer. É normal que seja assim, estávamos numa semana de marés vivas.

Armona-Tavira-03

Mesmo junto ao mar o canal serpenteava duas vezes: primeiro para oeste e depois para leste. O barco entrou no canal, aparentemente sem problemas e com uma velocidade razoável, tendo em conta a corrente que lhe era contrária. Mas ao chegar a meio bateu num banco de areia, afocinhou de proa e levantou a ré. O comandante deu mais força ao motor, mas o barco não voltou a sair do sítio. Ainda adernou para ambos os lados, mas não se mexeu mais. Ao fim de dez minutos já tinha o hélice fora de água.

Entretanto, o Igor chegou. Subi até à areia seca para tentar avistar a barra Armona-Tavira, que, segundo o mapa e os meus cálculos, deveria estar a cerca de dois ou três quilómetros de distância. Não consegui vislumbrá-la. Decidimos vestir-nos para voltar a caminhar uma vez que a barra parecia estar ainda longe.

Armona-Tavira-04

Continuámos a caminhar, mas só bastante tempo mais à frente é que percebemos que já estávamos na ilha de Tavira. A força da água, e das correntes diárias, tinha dado uma configuração diferente às ilhas e à barra que as separa.

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