Ilhas da Ria Formosa – capítulo IX

O nono troço foi a ilha de Tavira.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap9.kml

Ilhas-mapa-09

Início: 26-09-2015, 18:56
Velocidade média: 4.441 km/h
Tempo: 02h 38m 09.739s
Espaço: 11.706 km

Enquanto caminhávamos, discutimos a situação do barco encalhado. A maré vazia era às 20h05m e o barco tinha encalhado por volta das 18h40m, ou seja, uma hora e vinte cinco minutos antes da maré. Só deveria voltar a ter o mesmo nível de água com que encalhou, lá para as 21h30m. E ainda iria enfrentar alguns bancos de areia, pois de noite é difícil escolher o melhor caminho no mar.

Caminhávamos depressa à espera de encontrar a barra Armona-Tavira, sem saber que já a tínhamos passado. Por duas vezes, pensámos que a estávamos a avistar. Por duas vezes, uma duna mais saliente fazia a areia entrar pelo mar adentro, e dava a sensação de que a ilha acabava aí.

Tavira-01

Mas passaram quatro quilómetros e a ilha pareceia não terminar. Convencemo-nos, então, de que já estávamos na ilha de Tavira e que a passagem anterior tinha sido a da barra Armona-Tavira. Comecei a pensar que poderíamos chegar à barra Tavira-Cabanas com a corrente ainda não muito forte.

Tentámos manter um ritmo de caminhada forte, mas as dores começavam a avolumar-se. Os meus pés tinham manchas de sangue sob a pele, na zona dos calcanhares. Tinham sido causadas pela velocidade excessiva, mas necessária, do primeiro troço, quando foi necessário chegar à Barrinha no estofo da maré vazia.

Entretanto calcei as sandálias velhas. Eram umas sandálias de couro muito velhas e secas, e abriram-me uma ferida por baixo do tornozelo. Felizmente, tinha levado pensos rápidos e coloquei um entre a ferida e o sapato. Mas os pés estavam muito inchados e doridos. Só conseguia alívio ao mergulhar os pés em água fria.

De vez em quando, descalçava-me e descia até à onulação para tentar amainar as dores dos pés. Bastavam trinta segundos ou um minutos dentro de água para conseguir algum alívio. Mas depois, tornava-se difícil recomeçar a andar. Doíam-me todos os músculos das pernas, assim como as articulações dos joelhos e das ancas. Parar era impossível, não parar também. Será que íamos conseguir chegar ao fim? Ainda bem que já só faltavam vinte quilómetros.

Numa das idas ao mar para mergular os pés, encontrei mais uma tartaruga morta. Como é possível haver tantas tartarugas mortas na praia? Encontrámos duas, no mesmo dia, a uma distância de cerca de dez quilómetros entre elas. Comecei a pensar que não era o acaso, nem uma coincidência. Serão apanhadas nas malhas dos pescadores, que depois as lançam no mar já mortas?

Tavira-02

O Igor também começou a queixar-se de dores. Caminhava com uns calções muito curtos e os músculos interiores das coxas roçavam um no outro. Acabaram por fazer ferida numa extensão grande, o que não lhe permitia andar sem sentir uma dor constante.

A maré começou a encher. Aos poucos íamos percebendo que as zonas mais planas de areia granular começavam a ficar cobertas de água. A água começou, então, a subir pelo plano inclinado de areia mais fina. Como as marés eram grandes – a lua cheia tinha sido na noite anterior – a água tinha chegado ao topo da praia na última maré cheia, por volta das 14h, e tinha criado um caminho plano, não inclinado, de areia um pouco mais dura do que o habitual. Decidimos caminhar por aí, para não caminharmos no declive que força as articulações das ancas e dos joelhos.

Chegámos ao molhe da ilha de Tavira por volta das 21h30m. Estávamos os dois completamente de rastos. Não tanto pela fadiga muscular, mas mais por causa das lesões que mencionei atrás.

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Já não havia luz. Olhei para a barra e a água já corria para dentro da ria. Tentei, por várias vezes, convencer o Igor a metermo-nos na água e passar a barra de noite, às escuras. Era sábado, de noite, era o dia de descanso dos barcos de pesca. Era muito raro ver passar um barco. Não consegui convencê-lo. Decidimos, então jantar. Eu tinha previsto jantar num dos restaurantes da ilha de Tavira, e já só tinha comida para mais uma refeição: o pequeno almoço do dia seguinte. Infelizmente, a época balnear na ilha de Tavira termina no dia 15 de setembro: deixa de haver barcos regulares, há apenas alguns restaurantes abertos e só servem almoços. Os poucos banhistas que a ilha recebe vêm em barco próprio, ou em barco-táxi.

Tive que comer a última bola de arroz e a última peça de fruta que levava. Na manhã seguinte, logo arranjaria qualquer coisa para comer.

Depois de comermos e descansarmos, fomos a custo à procura de alguém que nos transportasse para a ilha de Cabanas. Caminhávamos os dois com muita dificuldade: o Igor mais do que eu, mas nunca se queixou. Quando chegámos ao cais de embarque, metemos conversa com quatro ou cinco idosos que ali estavam a conversar, sentados em cima do pontão, a aproveitar a noite sem vento e de temperatura amena.

Perguntei-lhes se haveria alguém que nos pudesse levar até Cabanas – eram cerca de cem metros – e aconselharam-nos a telefonar para os barcos-táxi. Num poste metálico, junto a uma esquina do pontão, havia uma lista com vários números de telefone, mas ninguém atendeu. A minha intenção era passar para ilha de Cabanas ainda de noite e tentar caminhar até às 5h da manhã, dormir até às 7h30m e depois passar a barra Cabanas-Cacela com a maré vazia, de forma a chegar à Manta Rota o mais cedo possível. Mas nada corria a meu favor. O Igor não se queria meter na água de noite e os barcos-táxi não estavam disponíveis àquela hora.

Entretanto, chegaram dois pescadores num bote muito pequeno. Para além dos dois, o bote trazia muito material de pesca. Tinha um motor muito fraco e demorou algum tempo a encostar na areia. Fomos ter com os pescadores e expusémos-lhes a situação. Disseram-nos que era arriscado tentar passar a barra com aquele bote devido à forte corrente: o motor não era suficientemente potente para tal. Em alternativa, sugeriram-nos que falássemos com o dono de uma lancha que estava ali atracada. Era de alguém de Tavira, que ainda ali estava e que deveria ainda voltar a Tavira naquele dia.

Eram já cerca de 22h30m e fomos tentar encontrar o dono da lancha. Parámos primeiro no parque de campismo, onde pedimos para encher os cantis com água e procurámos pelo tal marinheiro. O segurança do parque perguntou, lá dentro, a uns clientes que responderam que ele deveria estar num restaurante mais à frente. Os restaurantes estavam todos fechados, mas um deles tinha gente lá dentro. Batemos e pedimos para falar com o dono do barco.

Não nos quis levar. Tinha estado a beber com os amigos e, pelos vistos, ia continuar a beber e a jogar às cartas. Perguntámos se podíamos comer qualquer coisa, ou comprar comida para levar, e negaram. Depois destas recusas todas, decidimos arranjar um sítio para dormir. Com a ilha tão vazia, não foi difícil.

Procurámos uma zona baixa entre as dunas, onde não fôssemos vistos pelos pescadores que estavam em cima do molhe, nem por algum turista desgarrado que se lembrasse de fazer um passio noturno.

A areia estava fria e ligeiramente húmida. Cavei à mão, um espaço que permitisse colocar a prancha, para não dormir em cima da areia. Deitei-me e tentei adormecer. Não foi fácil. Para além da grande luminosidade da lua cheia que já aparecia, bem visível, no alto do firmamento, o vento fraco, mas frio que vinha do mar, e que ao passar nos arbustos fazia-os sussurrar, tornava-se incomodativo. Por fim, infelizmente escolhemos um sítio onde os banhistas iam defecar, no verão, e o cheiro das fezes secas acompanhou-nos durante toda a noite, aumentando o mal-estar.

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