Ilhas da Ria Formosa – capítulo X

O décimo troço foi a passagem da barra Tavira-Cabanas (4 águas) a nado.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap10.kml

Ilhas-mapa-10

Início: 27-09-2015, 08:09
Velocidade média: 0.962 km/h
Tempo: 00h 15m 54.016s
Espaço: 0.255 km

Depois de mais uma noite muito mal dormida, com um vento fresco a agitar os arbustos em volta e a acordar-me com ruídos estranhos, com medo de ser acordado com mordeduras dos ratos, com o cheiro nauseabundo das fezes enterradas, acordei antes das 6h da manhã e, quando me levantei já o Igor tinha tudo arrumado e pronto a partir.

Ficámos algum tempo a comtemplar o nascer do dia e a discutir estratégias. O Igor estava renitente em continuar, devido às feridas nas coxas. Eu, por outro lado, já não tinha nada que comer, só água. O Igor deu-me um donut e uma salcicha – coisas que nunca como – e foi esse o meu pequeno almoço.

Arrumei o saco-cama, coloquei a mochila às costas e caminhámos até ao cais de embarque da ilha de Tavira, que fica no extremo nordeste da ilha. O Igor deslocava-se com muita dificuldade e decidiu abandonar a empresa. Não consegui demovê-lo. Também não consegui arranjar uma forma de ele proteger as pernas de forma a poder continuar. Levávamos apenas o equipamento mínimo e nenhum desse equipamento era solução para as feridas que ele tinha desenvolvido.

Chegámos ao cais, já o sol batia de frente, quente. Apesar de ser domingo, havia uma draga à entrada da barra, dentro da ria, a escavar o fundo. Lá mais à frente, na ilha de Cabanas, havia obras também. Vários tubos largos, semelhantes aos que encontrámos na Culatra, estavam espalhados pela costa norte da ilha, que se encontrava toda vedada no extremo sudoeste.

Ainda tentei convencer o Igor mais uma vez: só faltavam dez quilómetros para terminarmos o percurso. Não consegui. Apesar de me doerem todas as articulações da cintura para baixo, incluindo as articulações társica e metatársica, e de ter imensa dificuldade em andar, decidi continuar, para não ter que voltar mais tarde para pôr fim àquele empreendimento. O Igor ia ficar à espera do barco-táxi e eu despi-me e desci para a água, com a mochila às costas e a prancha na mão.

A distância entre ilhas é cerca de cem metros, que eu levaria por volta de cinco minutos a fazer a nado. Apesar de quase não haver barcos a circular àquela hora – oito horas da manhã -, em cinco minutos podem aparecer várias lanchas rápidas, com condutores distraídos e passarem-me por cima. Segui, a pé, dentro de água, por cima do lodo, junto ao pontão, até ficar de frente para a ilha de Cabanas. Lancei-me à água, com receio que o manobrador da draga chamasse a polícia marítima. Não sei se é proibido atravessar a barra – há quem atravesse o Canal da Mancha – mas lancei-me com convicção. A meio da barra surgiu uma lancha rápida e eu bati os pés com força, para levantar água e assinalar a minha presença. Penso que o condutor me viu e passou ao lado.

Rapidamente cheguei a Cabanas. Subi até ao pontão e o Igor telefonou-me a dizer que me tinha visto a chegar, e a desejar-me boa continuação de caminhada.

Ilha de Tavira ao fundo. Autorretrato tirado à chegada a Cabanas
Armona-Tavira-01

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