Cabo Espichel – Setúbal

Caminhada Cabo Espichel – Setúbal, a 12 de março de 2016

Lancei o repto e apareceram vários participantes, talvez motivados pela divulgação das fotografias da caminhada da semana anterior.

  • Pedro Belo, Sílvia Rodrigues e a sua cadela Suki, de raça pug
  • Cláudia Rodrigues e a sua cadela Goma
  • Nuno Lourenço
  • Carlota Mendonça, Cristina Mendonça e uma amiga

Provavelmente não se aperceberam da dificuldade e da extensão do percurso, e do tempo que iríamos demorar, assim como do esforço total. Deviam pensar que era como nos contos de fadas: começa agora e daqui a pouco já acabou… sem dor.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Espichel-Setubal.kml

CaboEspichel-Setubal

Trip name: Cabo Espichel – Setúbal
Average speed: 3.96 km/h
Time: 11h 37m 54.019s
Total length: 46.062 km

O Pedro e a Sílvia chegaram a horas; tínhamos combinado às 8h da manhã em minha casa. O Pedro queixou-se da hora: disse que era muito cedo. Eles podiam ter saído mais tarde e ter ido diretamente para o cabo Espichel. A hora de saída no Espichel era apenas às 9h da manhã.

Tinha combinado com a Cláudia, em minha casa, às 8h da manhã, mas estava à espera que ela chegasse mais cedo, como de costume, para conseguirmos cumprir o horário. Íamos os dois até Setúbal para eu deixar a minha carrinha que depois levaria todos os participantes de volta para o Espichel. Mas a Cláudia perdeu a cadela, enquanto a passeava de manhã, e atrasou-se a tentar encontrá-la pelas ruas de Almada: chegou às 8h15m.

O Nuno, saiu de Almada diretamente para o cabo Espichel e deu boleia à Catarina, à Carlota e à amiga delas.

Saímos para Setúbal, eu no meu carro e a Cláudia no dela, às 8h18m. Deixei o meu carro na praia do Albarquel e rumei, com a Cláudia para o cabo Espichel.

Ao chegar ao cabo Espichel, juntámos todos os participantes e iniciámos a caminhada às 9h40m.

Espichel

Partimos do Igreja da Nossa Senhora do Cabo Espichel e seguimos até ao farol. Depois rumámos a leste pelos trilhos de terra batida.

Farol

A cara de felicidade dos participantes era um sinal de que não faziam ideia do que os esperava. Ainda bem.

Continuámos para leste e, a certa altura, perdemos o caminho. Tivémos que passar pelo meio do mato, cerca de seiscentos metros. Houve um troço de aproximadamente cinquenta metros no qual alguns dos caminhantes se arranharam nos arbustos. Amaldiçoaram-me em surdina, de forma a eu ouvir, mas não me falaram diretamente. Devem ter medo de mim. 🙂

Voltámos a apanhar o caminho e continuámos até à Serra da Azóia, primeira povoação após o Espichel.

Próximo da Azóia, o Pedro comentou que não estávamos a cumprir com o ritmo necessário: tínhamos feito poucos quilómetros para o tempo que já tínhamos gasto. Achei curioso, o comentário, quando eram precisamente o Pedro, a Sílvia e a cadela pug deles, que nos estavam a atrasar. Parámos muitas vezes à espera que chegassem e se juntassem ao grupo, uma vez que eram os mais lentos. Não esperei mais por eles.

Azioa-1

A zona da Azóia, apesar de parecer deserta, tem uma vida própria muito ativa. Pastam ovelhas, cultivam cereais, e fazem queijo e pão. Durante alguns anos, fiz férias na Aldeia Nova da Azóia, na casa de um amigo meu que está hoje emigrado na Suiça. Com ele, tomei conhecimento de inúmeros recantos na costa sul do cabo Espichel: a Cova da Mijona, a Praia das quinhentas pessoas, a piscina natural, a praia da Baleeira, a praia do Guindaste, etc.

Paredes meias com a casa dele, vivia a padeira da Aldeia e todas as manhãs tínhamos pão quente dentro de um saco. Foram férias inesquecíveis.

A contrastar com estas atividades mais próximas da natureza, estavam alguns dos amigos com quem partilhávamos a casa e que, logo pela manhã, bebiam uma caneca de vinho moscatel. 🙂

Azoia-2

Na Serra da Azóia havia dois cafés que, entretanto, fecharam. O primeiro a fechar foi o do pai de uma das namoradas do meu amigo Paulo. O outro ainda se manteve aberto durante mais uns vinte anos, mas acabou por fechar e é, agora, uma casa de habitação.

Seguimos pela Rua da Pedra do Mar, para depois descermos pelo caminho que leva à Cova da Mijona. O Pedro e a Sílvia tinham projetado andar apenas oito quilómetros e depois voltarem para trás. Despedimo-nos deles por telefone e continuámos.

No desvio da Rua da Pedra do Mar para a Cova da Mijona, há um cato enorme que fotografei.

Cato

Neste local, o meu filho mais velho apanhou, há uns anos atrás, uma perdiz com uma semana de vida, à mão. Fotografámos o acontecimento e deixámos a perdiz seguir a sua vida. Já tive uma perdiz em casa, quando era criança: apanhámo-al na barragem do Divor e mantivémo-la em casa durante dois anos. Um dia escapou e nunca mais a vimos. É uma ave fantástica.

A Júlia com o perdigoto que o Manuel apanhou, foto de 2009
Soltas070_08

Até à Cova da Mijona é sempre a descer. Depois tempos que subir cerca de um quilómetro até à pedreira de Santana. Houve queixas, quando viram a subida, mas penso que foi apenas pelo susto, pela surpresa, porque conseguiram todos ultrapasar o obstáculo sem dificuldade. Naquele momento já só restávamos seis participantes: eu, o Nuno, a Cláudia, a Carlota, a Catarina e uma amiga das duas.

Quando chegámos à pedreira, ficaram todos extasiados, como se tivéssemos chegado ao fim da prova. Parámos para várias sessões fotográficas, e isso deu-nos algum descanso.

Pedreira

Passámos a cerca exterior da pedreira e caminhámos pela estrada a sul. Fomos dar a um beco sem saída e tivémos que voltar para trás. Seguimos então pelo caminho mais a norte. Apesar de ser sábado, a pedreira estava em funcionamento, embora com atividade reduzida. Passámos sem que nos vissem à frente dos escritórios, e continuáms apra sul, para Sesimbra. Descemos pela estrada da praia do Cavalo e chegámos ao porto de abrigo. Parámos durante uns minutos para nos refrescarmos.

PorotSesimbra

As miúdas mais novas ficaram encantadas com os professores e alunos das escolas de surf, canoagem e vela. Desejaram ficar por ali o resto do dia, mas não podia ser: tínhamos um objetivo a cumprir.

Passámos o porto de abrigo e continuámos ao longo da marginal.

Sesimbra-PortoAbrigo
Sesimbra-Marginal

A zona marginal de Sesimbra foi toda remodelada, ou requalificada, como é bonito dizer-se agora, e está bastante agradável. Há algumas exceções, no entanto: a escarpa junto ao porto de abrigo tem um aspeto feio, sujo e perigoso; pelo menos um edifício abandonado, mesmo ao meio da marginal, mas que foi embelezado com um grafito.

Sesimbra-grafito

Mesmo a chegar ao centro de Sesimbra, fica o café onde, um dia…

Sesimbra-BoteDOuro

No dia 18 de fevereiro de 1985, segunda-feira de Carnaval, após termos assistido ao concerto do Leonard Cohen no pavilhão do Dramático de Cascais, colados à Lena d’Água, que cantava ali ao meu lado e por cima do Cohen, todas as canções do alinhamento, metemo-nos no Simca do meu pai e fizémos oitenta quilómetros até Sesimbra. Ao chegar, entrei numa tasca – o Bote d’Ouro – para beber umas misturas para aquecer para o Carnaval. Nisto, meti conversa com dois tipos, desconhecidos, e começámos a cantar as canções heróicas do Fernando Lopes Graça, em voz alta, aos berros, no meio do café. E os tipos cantavam bem. Cantavam mesmo bem. Uns meses mais tarde fui ao Cine Incrível, em Almada, ver os Sétima Legião. E esses dois desconhecidos estavam no palco.

Continuámos, sempre a direito e por caminho plano, até à praia da Califórnia.

Sesimbra-California

Mas as facilidades terminaram aí; depois foi necessário subir uma encosta íngreme de mais de três quilómetros, que começam com uma escada em caracol, no interior de um edifício, que faz parte do caminho da saída nascente de Sesimbra.

A meio caminho, já havia muitas reclamações, mas já se sentia o fim da subida.

Sesimbra-nascente

Quase no topo da encosta, parámos para almoçar. As mi+udas já tinham pedido há algum tempo para parar, mas ainda não tínhamos encontrado uma sombra. Eu andava já, há algum tempo à procura de um sítio afastado da estrada e com uma árvore grande que fizesse sombra para todos. A Cláudia, entretanto, passou-se e começou a subir sem dar ares de querer parar. Consegui fazê-la “voltar à Terra”, e juntar-se ao espírito do grupo que rapidamente passou de um esforço intenso, a uma calma comensal.

Almoco

Descalçámo-nos e assentámos as plantas dos pés nas ervas verdes rasteiras. Daí a pouco, já nenhum de nós se lembrava de que tínhamos andado quatro horas, sem parar, debaixo de um sol escaldante e desgastador.

Depois do almoço, voltámos à estrada e virámos no primeiro desvio de terra à direita. Eu tinha memorizado, por alto, os quarenta quilómetros do percurso, mas não tinha a certeza absoluta do caminho a seguir. Sabia que havia ali um desvio que passava junto às pedreiras leste de Sesimbra e que dava acesso a Casais da Serra. Além disso, o tablet teimava em não receber os mapas via Internet. Virámos naquele desvio, depois da Cláudia me obrigar a garantir, com certeza absoluta – que é coisa que nunca tive, certezas – de que o caminho era aquele. Mas não era ali: era oitocentos metros mais acima.

Caminhámos três quilómetros até percebermos que estávamos a descar para o mar e que o caminho não tinha continuação. Tivémos que passar por uma ribanceira, uma encosta muito inclinada, que era um problema para a Cláudia, que sofre de vertigens. Antes da caminhada, tive que prometer-lhe solenemente que não iríamos caminhar por precipícios. Aquilo não era exatamente um precipício, mas ausava-lhe vertigens. Ouvi, lá atrás mais um comentário, pelas costas: “Este gajo está a gozar comigo”, mas desceu sem ajuda. Na volta, quando tivémos que retornar, já precisou de ajuda: fechou os olhos e eu levei-a pelo braço.

Entretanto, enquanto discutíamos quem continuava e quem ficava, apareceu uma miúda estrangeira, com uma mochila às costas, que vinha da praia até onde não tínhamos chegado a descer. Confirmou-nos o que já tínhamos concluído: aquele caminho não tinha saída.

Sesimbra-serra-1

Voltar atrás foi muito doloroso para todos eles. Decidiram não continuar. A Carlota ligou ao pai, que estava a descansar, para os ir buscar a Santana. Eu continuei.

Despedi-me e voltei pelo caminho por onde tínhamos vindo. Quando pude, subi a serra, para chegar ao topo.

Sesimbra-serra-2

Continuei pelo trilho que passa no bordo da serra, até encontrar um marco de aspeto estranho. Não é uma marco geodésico comum. É quase um cilindro, arredondado na base superior e terminado num bico. Até lá caminhei sempre para oeste, mas depois tiver que seguir duzentos metros para norte.

Risco-1

Virei outra vez para oeste e fiquei com as serras do Risco e da Arrábida, de frente.

Risco-2

A Serra do Risco sempre foi uma quimera para mim. Via-a de longe, em forma de onda a rebentar no topo da montanha… e nunca imaginei que fosse possível subi-la até ao topo. Mas houve uns “malucos” que abriram caminho até lá e, devido a erros de rumo, acabei por ir parar lá acima. Agradeço a quem?

No topo da serra do Risco
Risco-3
Risco-4

Encontrei um casal lá no topo: ele, talvez da minha idade; ela, mais nova. Perguntei-lhe se sabia se havia caminho para baixo, para leste. Ele perguntou-me o mesmo, quase em simultâneo. Concluímos que tínhamos vindo do mesmo sitio, de oeste. Tinham deixado o carro na base da serra e estavam a acabar de chegar ao cume. Com um nervosismo disfarçado, ele perguntou-me: “Achas que conseguimos chegar lá abaixo antes do pôr do sol?”

Continuei. Ao chegar ao marco geodésico, deparei com dois caminhos: um prosseguia para leste, o outro para norte. O caminho para norte pareceu-me mais favorável, nomeadamente porque começava logo a descer. Segui para norte, mas foi um erro. A certa altura deixou de haver caminho e fiquei envolto em mato com silvas e uvas de cão: ambas prendem a roupa e arranham. Em pouco tempo tinha as mãos todas a sangrar e a roupa toda rasgada. Não conseguia sair dali e o sol estava a aproximar-se da horizontal.

Casaco

A Teresa ligou-me a perguntar onde é que eu estava. Combinámos que eu iria tentar carregar o percurso até ao momento atual, para o site do Highway Star, mas não conseguia obter rede de dados. Pus-me em bicos de pés, com o telefone na mão e o braço esticado para o céu, e lá consegui enviar o percurso. O meu objetivo é que a Teresa visse onde eu estava, no mapa de satélite, e me desse indicações do caminho para a clareira mais próxima. Mas antes dela me contactar outra vez, já eu tinha conseguido sair daquele novelo.

Foi a terceira vez que me aconteceu ficar preso no mato daquela região. Das outras duas vezes anteriores, foi na Arrábida e, de uma dessas vezes, demorei três horas a encontrar uma saída, debaixo de um calor intenso, com as gotas de suor a queimarem-me os olhos. Espero não voltar a fazer uma asneira como esta.

Precisava de chegar à estrada N379-1 para ir para o Portinho da Arrábida e, depois, para Setúbal. Pelo meio, havia uma terra vedada, com gado bovino à solta, que eu tive que atravessar. Primeiro tentei contorná-la, mas no limite deparei com um bosque e já tinha tido a minha conta de silvas e uvas de cão. Saltei o arame farpado, passei as terras e o gado, e voltei a passar a cerca, para a panhar a estrada de terra do outro lado.

O casaco estava todo rasgado e cheio de sangue. O ar estava frio, não o podia tirar: virei-o do avesso. Passei pelo prado verde que se vê à direita, quem vem de Casais da Serra para o Portinho da Arrábida, e ao qual, em minha casa, chamamos Vale Encantado. Já agora, se leventarem um pouco os olhos, logo acima do Vale Encantado, está a serra do Risco: uma serra em forma de onda a rebentar.

ValeEncantado

O Vale Encantado é bonito, visto de longe. Um dia, há vários anos, decidimos ir vê-lo de perto: foi uma desilusão. Lá em baixo, junto ao vale, o chão é um aglomrado de torrões de terra que, quando chove, se transformam num lamaçal, ou até num pântano. Foi o que confirmei desta vez: a água escorria de diversas fontes para o vale, que se transformara num lamaçal impossível de transpor. Tive que o contornar.

Encontrei um fotógrafo a capturar imagens de flores e, apesar do meu tempo ser escasso, decidi fazer o mesmo, com o meu telefone, que tira fotografias de qualidade baixa.

Ranunculo

Cheguei à estrada nacional 379-1 e caminhhei quatro quilómetros até chegar ao Portinho da Arrábida. Já perto, tirei um autorretrato, com Tróia ao fundo. Tróia iria ser o início da próxima etapa do projeto “Percorrer Portugal a pé”.

TroiaAoFundo

Depois do desafio que foi subir a encosta da Califórnia, em Sesimbra, tínhamos discutido se iríamos descer até ao Portinho, para depois termos que subir novamente até à estrada, pelo parque de estacionamento da praia do Creiro. Ninguém escolheu esta opção. Todos queriam ir pela estrada que passa por cima do Portinho da Arrábida, para evitar mais declives, principalmente grandes subidas.

Como ninguém estava presente, desci mesmo até ao Portinho. Parei no primeiro bar e bebi uma cerveja, para comemorar a chegada.

Portinho-1

O bar ficava na descida para a povoação. A placa indicadora do início do povoado, ficava umas dezenas de metros mais abaixo. Quando a fotografei, já não havia sol.

Portinho-2

Caminhei, já de noite, até à praia do Creiro e subi para a estrada, pelo acesso ao parque de estacionamento. Os reataurantes da praia estavam a funcionar e, num deles, estava um grupo, com umas doze pessoas, bastante animado, a jantar.

Não é fácil caminhar sozinho, ainda por cima de noite. Eram 19h25m, já não havia luz do sol. O céu estava totalmente escuro e não havia iluminação na estrada.

Caminhar à noite, com carros a passar, sem roupa refletora, é perigoso e, ao mesmo, tempo assustador.

Passei a praia de Galápos, e cheguei à Figueirinha onde comi a última bola de arroz e a última maçã.
Galapos
Figueirinha

Sentei-me à beira da estrada, em cima do murete do parque de estacionamento, descalcei-me e jantei. Doíam-me os pés. Mais tarde acabei por perceber que aquelas botas não eram indicadas para grandes caminhadas. A bota direita causou-me uma lesão na articulação do pé. O pé, ao bater na zona onde os atacadores terminam, desenvolveu um inchaço entre o tarso e o metatarso, que demorou mais de uma semana a passar. Ainda fui com essa dor, embora residual, para o início da caminhada de Tróia, mas as novas botas, mais adequadas para caminhadas, que comprei, não pressionavam essa zona do pé, pelo que fiquei sem dores no fim do primeiro dia.

Voltei à estrada e, quinze minutos depois, cheguei ao Outão.

Fábrica do Outão

Demorei mais de uma hora a chegar a Setúbal. Passei por vários restaurantes de choco rito, que estavam apinhados de gente.

Setubal

Foi duro, mas o facto de ter conseguido chegar ao fim, foi reconfortante.

Deixe uma resposta