Tróia – Sagres – Introdução

Agendei a descida até ao Algarve, pela costa, para as férias da Páscoa. Fui acompanhando as previsões do tempo, que estava muito variável, mas que se manteve seco durante o percurso até Vila Nova de Milfontes.

O cartaz (2ª versão) do percurso, a pedir caminhantes voluntários, foi o seguinte:

Troia-Algarve-2

Desde logo tive a participação do meu sobrinho Pedro como assegurada. Alguns mostraram-se interessados, mas já tinham outros compromissos agendados. Outros – o Carlos e o Raúl – manifestaram interesse em fazer um troço do percurso connosco.

O percurso é extenso e, para ser realizado em cinco dias, obrigava a caminhar cerca de quarenta quilómetros por dia. À velocidade confortável de quatro quilómetros por hora, isto significa caminhar dez horas por dia. Ora, com o peso da mochila às costas e o piso por vezes irregular, que leva a nem sempre assentar os pés da forma mais correta no chão, a probabilidade de ocorrerem lesões é elevada.

Desta vez, para além do equipamento que levei nas últimas caminhadas, decidi levar uma bateria de chumbo de 12V e 9Ah, para poder carregar as baterias do telefone, onde iria registar o percurso, e do tablet, onde poderia consultar os mapas de satélite para escolher o melhor caminho em cada momento.

A bateria pesa 2520g o que se poderia tornar um óbice ao sucesso da empresa, mas, por outro lado, era a garantia de que teria o apoio de artefactos eletrónicos para me ajudarem a tomar as melhores decisões. E eu já estou habituado a ser um burro de carga.

Saímos de minha casa antes das sete da manhã do dia 23 de março de 2016. A Teresa levou-nos até Setúbal de carro, onde apanhámos o barco para Tróia, às 7h30. Queria começar o mais cedo possível e, por isso, apanhámos o primeiro ferry do dia. Havia um barco mais cedo – um catamaran – mas o preço dos bilhetes é quase o dobro do dos ferries.

Na bilheteira, o Pedro apercebeu-se de que tinha deixado a carteira em casa. Queria voltar para ir buscá-la. Se voltássemos atrás, perderíamos o barco seguinte, só apanharíamos o das 9h30m e a caminhada começaria duas horas mais tarde do que o previsto. Eu tinha dinheiro suficiente para os dois e propus emprestar-lho, mas o Pedro estava preocupado com o cartão de identificação: tinha receio de ser intercetado pela polícia e de não se poder identificar.

O Pedro teimou em voltar para trás, mas eu nunca voltaria para trás: eu iria apanhar o barco das 7h30m, em qualquer circunstância, mesmo que o deixasse ali sozinho. Tentei demovê-lo, disse-lhe que lhe emprestava o dinheiro e que não se devia preocupar com a identificação: eu nunca tinha sido abordado pela polícia nas caminhadas. É verdade que a GNR tinha anunciado que iria reforçar a vigilância, devido aos ataques em Bruxelas, no dia anterior, mas eu preferia arriscar, ao invés de atrasar o início do projeto e de, com isso, criar algum desânimo logo no início.

Enquanto discutíamos, o empregado da bilheteira pediu-nos para nos decidirmos. Atrás de mim, outro passageiro, que ainda não tinha adquirido o bilhete, mostrava alguma impaciência, pois a hora de saída do barco aproximava-se.

Lembrei-me que o Raúl tinha combinado ir almoçar connosco a Sines no dia seguinte. Podia pedir ao Raúl para levar a carteira do Pedro. Consegui a muito custo, com esse argumento, convencer o Pedro a entrar no barco, mas aquele foi o primeiro indício da teimosia do meu sobrinho, que se veio a mostrar fraturante uns dias mais tarde.

Cap1-Sado

Chegámos a Tróia às 7h55m e saímos do barco juntamente com os trabalhadores que fazem este percurso diariamente para irem trabalhar, nas tarefas de apoio e suporte aos empreendimentos turísticos que, tal como a Acacia dealbata, invadiram e dominaram a península, outrora selvagem e local de veraneio do povo de Setúbal.

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