Tróia – Sagres – Cap. II

O segundo troço do percurso foi do Carvalhal até Melides.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap2.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap3

Início: 23-03-2016, 13:48
Velocidade média: 3.948 km/h
Tempo: 05h 11m 38.295s
Espaço: 20.507 km

Durante o percurso até ao Carvalhal, devo ter comido duas peças de fruta – uma tangerina e uma maçã reineta – e bebido meio litro de café frio que levei de casa. À chegada ao Carvalhal, não estava a “morrer de fome”, mas era uma hora da tarde, e era a hora certa para fazer uma refeição mais forte.

Entrámos no Carvalhal por noroeste, vindos dos campos de arroz, do lado dos Brejos da Carregueira de Baixo. Procurámos um sítio para almoçar enquanto percorríamos o povoado para sueste a caminho da estrada nacional número 261. Mesmo à saída, deparámos com um parque de merendas, onde os trabalhadores locais vão almoçar.

Quando chegámos, estava vazio. Pousei a mochila, descalcei as botas, tirei o casaco e o chapéu, que estavam encharcados de suor, e sentei-me a descansar. As unhas dos dedos grandes dos pés continuavam a doer-me. Fui descalço lavar as mãos à bica de água que ficava no centro do parque e voltei. Tirei tudo de dentro da mochila e pus o telefone e o tablet a carregar. Abri as caixas onde levava as bolas de arroz – o meu alimento preferido para viagens e caminhadas – para arejarem e libertarem a humidade que se tinha formado.

Comecei a ouvir o miar de uma gata, vindo do outro lado da estrada, e a aproximar-se rapidamente de nós. A gata miava incessantemente, certamente a pedir comida. Duvido que gostasse daquilo que eu tinha trazido; nem valia a pena desperdiçar comida com ela. Além disso estava bastante gorda; aquele chamamento pareceu-me ser mais gulodice do que fome.

Entretanto, chegaram dois indivíduos numa carrinha de distribuição de produtos alimentares. Cumprimentaram-nos e sentaram-se na outra extremidade do parque a almoçar. Mais tarde, chegaram mais seis trabalhadores que aparentavam, pelas vestes, ter vindo de uma obra, e pela atitude pareciam ser trabalhadores camarários.

Cap3-Carvalhal

Comi duas bolas de arroz, grelos cozidos e puré de pastinaca. A sobremesa foi uma maçã e, no fim, bebi café novamente.

O café é também a minha bebida preferida para as caminhadas. Ponho seis colheres de sopa de café moído num litro de água a ferver e deixo cozer durante cinco a dez minutos. Deixo assentar as borras de café e decanto.

Quanto às bolas de arroz, a receita é a seguinte. Cozo uma chávena e meia de arroz carolino integral biológico, com o dobro de água e uma pitada de sal, durante cinquenta minutos na panela de pressão. Depois de esfriar, faço bolas entre as mãos, que molho previamente com água para o arroz não agarrar. As bolas devem ficar bem apertadas. De seguida, abro um buraco no meio da bola e coloco um pouco – uma colher de chá – de ameixa salgada japonesa – que é um picle ácido e salgado – para conservar e dar um sabor contrastante ao arroz. Fecho o buraco e aperto mais um pouco. Embrulho a bola em alga nori – a alga do sushi – de forma a isolar o arroz completamente do exterior. Com a quantidade de arroz mencionada acima, faço oito bolas. Normalmente, como duas bolas ao almoço, duas bolas ao jantar e uma bola ao pequeno almoço.

Depois do almoço, tentei cortar as unhas, mas só tinha um canivete que me foi oferecido pela Teresa: um canivete suiço, sem tesoura, mas com lâminas muito afiadas. Cortei as unhas à faca. Não consegui cortar muito rente, mas ainda consegui tirar cerca de três milímetros às unhas dos dedos grandes que me estavam a causar o maior incómodo.

A gata tinha conseguido comida junto dos distribuidores de alimentos e estava agora a comer pedaços de carne que os trabalhadores camarários lhe davam.

A sombra dos pinheiros e o vento fresco rapidamente esfriaram o meu tronco, uma vez que só tinha uma t-shirt vestida e, além disso, suada. Mas o esforço da caminhada tinha sido tão grande que o frio parecia não me afetar.

Um dos comensais do segundo grupo veio colocar espinhas de bacalhau junto à cerca do parque e chamou a gata que logo surgiu para acabar de chupar as espinhas.

Estava na hora de voltarmos à estrada. Vestimo-nos, pusémos as mochilas às costas, cumprimentámos os trabalhadores e saímos do parque.

No cruzamento da Avenida 18 de Dezembro com a EN261, havia um vendedor de velharias. O sítio parece abandonado, mas ainda há algumas peças espalhadas pelo local.

Cap3-Carvalhal-2
Cap3-Carvalhal-3
Cap3-Carvalhal-4

Prosseguimos pela estrada, para sul.

Cap3-Estrada

As estradas são locais áridos. Áridos de vida, áridos de vivências, áridos de interesse. Quanto mais congestionadas, mais se aproximam de um não-lugar de Marc Augé. E eu sempre evitei os não-lugares, antes e depois de Marc Augé. Um não-lugar é um lugar onde a geografia é irrelevante, é um lugar idêntico na China, no Zimbabué ou na Suécia. Não se aprende nada num não-lugar: quem experiencia um, experiencia todos. Uma estrada é um não-lugar. É um lugar onde passam automóveis, depressa demais, passam e não param. Não se aprende nada numa estrada: não traz vivências novas; não há aprendizagens diferentes em estradas diferentes.

Caminhámos, sem novidades até Pinheiro da Cruz.

Cap3-PinheiroDaCruz

Pinheiro da Cruz tem uma prisão em regime mais ou menos aberto. Os prisioneiros têm atividades ao ar livre, nomeadamente cultivam uvas e fazem vinho. Passámos a povoação e continuámos país abaixo.

Demos por nós à procura de formas de encher o vazio da estrada. Contámos o número de pilares de plástico abalroados pelaos carros. A estrada está ladeada de pilares de plástico com um metro de altura e com refletores, para guiar os condutores durante a noite, para permitir que vejam melhor, ao longe e com antecedência, o traçado do alcatrão. Mas muitos condutores perdem, momentaneamente, o controlo do automóvel e saem da estrada durante umas dezenas de metros, esbarrando numa série e pilares. Alguns pilares estavam a mais de vinte metros de distância da estrada, tamanho foi o embate que sofreram.

Entretivémo-nos também a compilar uma lista de objetos lançados do interior dos automóveis para as bermas, e havia de tudo: garrafas de vidro, garrafas de plástico, recipientes de iogurte, fraldas de bebé, pacotes de leite, pacotes de sumo, latas de cerveja, sacos de plástico. Para além disso, menos frequentemente, mas ainda assim com alguma regularidade, apareciam partes de automóveis, resultado de embates e acidentes: parachoques, faróis e pneus.

Entrámos na Freguesia de Melides, passámos junto ao desvio para a praia da Raposa e nada de excitante parecia acontecer…
Cap3-Melides-1
Cap3-Raposa
Cap3-Melides-2

Eis senão quando começamos a vislumbrar uma perturbação na regularidade do horizonte. Ao fundo da estrada, perto do ponto onde as linhas paralelas se encontram, saltaram dois semáforos luminosos e brilantes: um amarelo e outro vermelho.

À medida que nos aproximávamos, os semáforos foram ganhando forma: o vermelho era um triângulo de sinalização automóvel; e o amarelo, um colete por cima do corpo de uma miúda nova e gordinha que esperava, receosa, perto do automóvel, por um reboque, mas também pedia a Deus que estes dois gandulos, que se aproximavam a passadas largas, não se metessem com ela, não lhe fizessem mal. Duas preces: tee sorte na última, mas não teve sorte na primeira.

Passei, mas voltei atrás. “É o escape?”, perguntei. “Não sei, não percebo nada de carros”, respondeu a tremer, no meio daquele Alentejo deserto e propício ao desastre.

O tubo de escape estava caído e a miúda deve ter ouvido o barulho da lata a roçar pelo chão e, por isso, parou o carro: não fosse aquilo desmanchar-se tudo ali no meio do nada.

A miúda tinha um ar de fazer pena ao mais cruel dos criminosos, quanto mais a nós pobres caminhantes à procura de algo – qualquer coisa que fosse – dentro de nós.

Pousei a mochila, espreitei para debaixo do carro e vi que o tubo de escape, que vinha da saída do motor, se tinha soltado da panela. Dessoldou-se, ou nunca tinha estado soldado. Não lhe perguntei quem lhe tinha vendido aquele carro, não valia a pena, mas tinham-na enganado.

O Pedro deu-me umas braçadeiras de plástico e prendi o tubo ao chassis. O tubo não iria aquecer o suficiente para derreter as braçadeiras no percurso que faltava até Melides e que era de apenas quatro quilómetros.

Cap3-Carro-1

Não lhe perguntei o nome, mas sei que é enfermeira há duas semanas na prisão de Pinheiro da Cruz. Deve ter acabado o curso este ano, concorreu e entrou, sem cunhas. Vivia em Viana do Castelo, falámos das festas de Santa Luzia, tirámos uma foto juntos, e dissémos-lhe que, se entretanto passasse por nós mais à frente, não queríamos boleia, pois estávamos a caminho do Algarve e o percurso tinha que ser feito todo a pé.

Cap3-Carro

Não gostava de fotografias, a miúda, e nisso acho que abusei. Mas de que outra forma é que podemos quebrar a monotonia de horas passadas na estrada ao som das passadas sempre iguais no ouvido, mas cada vez mais dolorosas no corpo. Não ia certamente espetar um prego na mão como fez o Roy Batty no Blade Runner, para conseguir reavivar a vida que lhe fugia.

RoyBatty-nail

Não. A foto deu-me ânimo para continuar. Agradecemos à miúda por nos ter ajudado a descansar um pouco na nossa viagem que, a cada passo, se tornava mais pesada e difícil. Despedimo-nos e partimos.

A miúda já estava à espera há duas horas pelo reboque, que vinha de Grândola; disse-nos que não esperaria mais de quinze minutos, para além daquele momento. Mas esperou. Vimo-la passar cerca de quarenta e cinco minutos depois, dentro do reboque, quando estávamos quase a chegar à povoação de Melides.

Pouca coisa mais se passou pelo caminho: um local a anunciar que tinha espargos e cogumenlos proibidos, a estrada para a praia da Abeta Nova, onde desagua a ribeira das Fontainhas, e onde almocei, em 1984, no segundo dia da primeira grande caminhada que fiz de Tróia até à lagoa de Santo André, a pé, descalço, pela praia: foi um almoço idílico, junto a um poço e a uma ruina, à sombra das árvores e ao som das rãs a coaxar entoadas com o vento nas folhas. Enfim, pouca coisa.

Cap3-AbertaNova-1
Cap3-AbertaNova-2

Logo depois, o restaurante Tia Rosa, onde, há uns anos atrás, parei depois de um desatino em casa; um desatino que me fez andar cem quilómetros sem parar para comer um arroz de pato famoso e beber uma garrafa de meio litro de um monocasta Touriga Nacional do Esporão, de 1995. Já lá vão uns anos, mas a marca ficou. E aquele arroz de pato não é o meu estilo: não tem contraste; não se cozinha o arroz com a gordura do pato e muito menos se juntam os miúdos e o sangue ao arroz. Num curso de culinária, não passava nos testes preliminares… Mas enfim, há gostos para tudo. Depois fui cozer a bebedeira para a praia da Raposa. À meia noite estava nas palafitas da Carrasqueira a olhar para as estrelas.

Cap3-TiaRosa

Quase a chegar a Melides, ainda passámos numa povoação onde eu não gostaria de morar. E o motivo é o nome da povoação, não é mais nenhum. Os caveirenses são certamente boas pessoas como o são todos os habitantes das redondezas, mas Caveira é um nome pouco convidativo, tremebundo, afastador.

As vinhas da Caveira, by John Steinbeck
Cap3-Caveira-1
Cap3-Caveira-2

O meu amigo Raul, tinha combinado fazer uma parte do percurso connosco. Telefonei-lhe a combinar um almoço, no dia seguinte, em Sines. Combinámos, também, que ele passaria antes em minha casa para trazer a carteira do Pedro, e um cinto para as minhas calças que me caíam e que eu atara com uma fita de nylon encontrada no caminho, assim como uma tesoura para eu cortar as unhas mais rentes.

E chegámos, por fim, a Melides, onde dormimos no primeiro recanto que encontrámos, junto à estrada, mas resguardado dos olhares de quem passasse. Não tivémos muito tempo para escolher, pois o Pedro já não conseguia andar e a estrada à saída de Melides parecia perigosa para prosseguirmos o caminho pela noite.

Cap3-Melides-3
Cap3-Melides-4
Cap3-Melides-5

Deixe uma resposta