Tróia – Sagres – Cap. IV

O quarto troço do percurso foi de Sines até São Torpes.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap4.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap5

Início: 24-03-2016, 15:56
Velocidade média: 3.36 km/h
Tempo: 02h 17m 28.880s
Espaço: 7.698 km

Este troço começou mal. Não sei o que se passou, mas o Pedro começou a desatinar. Saímos do hipermercado, onde o Raúl nos deixou antes de partir para Lisboa, e o Pedro quis andar para nordeste, quando o rumo devia ser para sudoeste. Precisávamos de contornar os hipermercados para caminharmos para sul. Na minha opinião devíamos fazê-lo por sudoeste mas, em condições normais, não gosto de impor a minha vontade a ninguém, por isso, apesar de contrariado, deixei-o tomar as decisões que entendesse.

Quem participa em projetos comigo tem que ter capacidade de decisão e discernimento, para que o grupo seja mais do que apenas um aglomerado de indivíduos. As pessoas cometem erros, mas quando chamadas à atenção, devem ponderar as opiniões dos outros.

Contrariado, encetei a caminhada no sentido nordeste. Uns metros mais à frente, indiquei-lhe um atalho, mas o Pedro disse que não havia passagem. Eu vi, claramente que havia passagem, mas não insisti. Mais à frente, virámos para sudoeste e confirmámos, os dois, que havia passagem.

Contrariado, em Sines, numa rotunda com passadeira circular
Cap5-Sines-1

Cruzámos Sines de norte para sul, dos hipermercados até à Quinta dos Passarinhos. O mapa indicava que devíamos subir duzentos metros para nordeste, para nos mantermos na estrada, mas o Pedro insistiu em seguir no sentido oposto. Avisei-o de que não havia caminho, de que estávamos numa zona elevada de Sines, e que mais à frente iríamos encontrar a falésia. E havia a possibilidade de não podermos descer a falésia. O Pedro brincou com a situação: “Se não houver caminho, voltamos para trás!”

A rua Raúl Solnado não tem saída. Ao chegar ao fundo da via, entrámos por um campo cultivado, o único que não estava vedado, e caminhámos para es-sueste, a direção possível. Foram setecentos metros a caminhar sobre torrões de terra, com trigo pelo meio das pernas. Um esforço que poderíamos ter evitado – que deveríamos ter evitado – se queríamos concluir o percurso até Sagres. Além disso, um terreno tão irregular como aquele podia causar-nos lesões nas articulações.

Sines rural
Cap5-Sines-2

Quase a chegarmos ao fim, o Pedro gritou: “Tio, estamos lixados. Não há saída”. Eu ia à frente dele, talvez uns cinquenta metros, portanto não percebi como ele tinha concluído isso. Estaria ele a ver alguma coisa que me tivesse escapado? Acelerei o passo e avistei uma estrada, na mesma direção em que seguíamos, que descia a encosta até quase à cota do mar. Tivémos sorte, depois daquele esforço todo, não foi necessário voltar para trás.

Farto de perder tempo, e com a bexiga cheia, decidi urinar enquanto andava, para não perder mais tempo. 🙂

Cap5-uninar

Na A26-1, de novo, caminhámos na direção de São Torpes, com as canas a rebentarem por debaixo do alcatrão.

Cap5-canas

Gostava de ter ido pela praia, mas o acesso estava vedado com uma cerca, a distância até ao mar ainda era longa e o terreno muito arborizado, e, por fim, seria necessário passar a vedação da linha de comboio. Mais à frente, teríamos que voltar à estrada, para passar a ponte sobre as águas que fazem o arrefecimento da central termoelétrica de São Torpes.

O Pedro insistiu em ir pela praia. Consegui, com muita insistência, demovê-lo. Mas a teimosia dele deixou-me irritado.

Cap5-STorpes-1

Em São Torpes parei no primeiro botequim para beber uma cerveja, e comer uns tremoços. Não foi por sede ou por fome. Foi, ao invés, uma forma de assinalar um conseguimento, a chegada a uma nova etapa, a chegada à zona balnear, mais ou menos selvagem, que se prolonga por sete quilómetros até Porto Covo.

Paro sempre neste bar. A primeira vez que passei em São Torpes, há cerca de vinte e cinco anos atrás, entrei no estabelecimento e reparei que serviam postas de moreia frita. Comi duas ou três postas, com a Teresa, acompanhadas de cerveja. Desde então, tenho voltado aqui à procura de moreia frita, mas só por mais uma vez tive a sorte de encontrar este petisco regional.

Cap5-STorpes-2

Com a cerveja a borbulhar no estômago, e o sabor amargo dos tremoços na boca, ganhei ânimo para mais uns quilómetros a carregar a mochila às costas, em cima dos ombros cada vez mais doridos à medida que avançávamos. O sol estava quase a pôr-se e precisávamos de encontrar um sítio para dormir.

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