Tróia – Sagres – Cap. V

O quinto troço do percurso foi de São Torpes até à praia da Samouqueira.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap5.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap6

Início: 24-03-2016, 18:34
Velocidade média: 2.304 km/h
Tempo: 03h 25m 17.652s
Espaço: 7.885 km

Deixámos São Torpes, pela estrada municipal 1109, com Sines pelas costas, e com o sol a perder força.

Cap5-STorpes-3

Antes da ribeira de Morgavel, o Pedro decidiu descer para a praia. Queria subir a falésia que limita a praia a sul, e queria fazê-lo pela praia. Sugeri-lhe que passássemos a ponte primeiro e descêssemos para a praia depois, para não termos que cruzar a ribeira na praia. Ele, cuja atitude começava a evidenciar uma teimosia surda, não acatou a sugestão. Descemos, então, à procura de uma passagem sobre a ribeira. Entre rochas, pedras e areia, acabei por meter a bota dentro de uma poça enorme. Mais à frente, farto das indecisões do Pedro, e dos erros de decisão, descalcei-me e passei a ribeira. Ele seguiu-me.

Irritado, subi a falésia com as botas na mão. Ao chegar ao topo, sentei-me, calcei-me e esperei pelo meu sobrinho.

“Aqui está o sítio ideal para montar a tenda, é plano e tem espaço”, disse ele assim que chegou. Era uma estrada no topo da falésia. Uma estrada de terra, com marcas de rodas de automóvel. O Pedro queria montar a tenda no meio da estrada. E, para além disso, no topo de uma falésia com a frente virada a noroeste, numa noite em que se esperava vento moderado precisamente de noroeste.

Já tínhamos discutido sobre a necessidade de proteger a tenda do vento e do som do mar, mas ele não parecia estar preocupado com isso. Primeiro, quis à força montar a tenda na praia, não percebi porquê: talvez por alguma ideia idílica de dormir na areia, ou para poder contar às amigas que dormira na praia. Disse-lhe terminantemente que não: o som da rebentação, com ondas de cerca de dois metros de altura, e o vento esperado de 20 km/h, não nos iam deixar dormir descansados.

Quis, então, montar a tenda no meio de uma estrada, no topo da falésia. Disse-lhe que não, também, e fui procurar um local mais abrigado. Subi uma duna e desci para uma zona mais abrigada, a cem metros da estrada de terra, mas ainda assim, virada para noroeste e vulnerável ao vento. Pousei a mochila, tirei o saco cama, descalcei-me e cortei as unhas que me estavam a incomodar, com a tesoura que o Raúl me trouxera.

Ele assobiou a chamar-me e eu assobiei de volta. Depois levantei-me e subi a duna. Já estava bastante escuro e pareceu-me que ele estava a montar a tenda. Pensei: “se queres ficar aí, fica”, e voltei para o meu lugar. Mais tarde ele apareceu no topo da duna e veio ter comigo. Ao ver-me instalado, perguntou-me se eu queria ficar ali a dormir, que ficasse, que ele iria, lá para baixo, para a estrada. Por um lado era o que eu queria, mas não desejava abrir ali uma fratura na relação e concordámos em ir procurar outro sítio.

Voltámos à estrada de terra e caminhámos mais um quilómetro para sul até chegarmos a uma estrada de alcatrão. Mias à frente, sentámos-nos no parque de estacionamento de um restaurante para jantar. Comi mais duas bolas de arroz, uma maçã e uma laranja. Enquanto comia, consultei o mapa no tablet e percebi que estávamos numa estrada sem saída, junto à praia da Vieirinha.

Após o jantar, fomos novamente à procura de um sítio para montar a tenda. Subi uma duna, logo por trás do restaurante, mas o Pedro não me acompanhou logo. Parecia não estar interessado nas minhas escolhas. Subiu pouco depois. Descemos, então a duna, para leste ao fundo encontrámos um espaço abrigado do vento e dos poucos olhares que pudessem trasitar pela estrada por onde tínhamos chegado. “Se não encontrarmos um sítio melhor, ficamos aqui”, disse o Pedro. Pareceu-me razoável, pelo que o segui na procura de outro lugar. Ele queria ir até ao fim da estrada e, aí, procurar outro sítio por trás das dunas. Assim fizémos.

Estávamos a subir uma duna no ponto 37°53’43.8″N 8°47’43.9″W, quando o Pedro, ao apontar a lanterna para sul, viu três pessoas. Eu vi duas pessoas, mas ele disse que viu uma terceira. Na realidade apenas vimos duas barras refletoras no fundo das calças desses indivíduos, que se moveram, o que nos permitiu confirmar que era gente que ali estava.

Estavam a cerca de trinta metros uns dos outros, tendo eu visto um deles em 37°53’41.4″N 8°47’43.2″W.

De repente, soaram dois tiros de caçadeira na noite. Nós estávamos iluminados pela lua cheia que se tinha levantado há pouco e, por isso, atirei-me de imediato para o chão. O Pedro ainda demorou algum tempo a reagir. Ainda assim, não me sentia seguro, pois o nosso perfil podia ser visto, uma vez que estávamos em contraluz em relação a um monte de areia, iluminado, mais a norte. Corri agachado, contornando a duna até ficar fora da vista dos indivíduos. Gritei ao Pedro para correr também, mas o Pedro demorou algum tempo a reagir, de novo.

Ao chegar à terra plana, caminhámos para a estrada, sempre para nordeste, de forma a ficarmos ocultados pela duna. Na estrada M1109, rumámos a sul, apressados, curvados e sem ruído, até nos sentirmos fora de perigo. Foi a primeira vez que dispararam contra mim, e devo-o à teimosia absurda do meu sobrinho.

Fizémos trezentos metros e entrámos em Porto Covo. Não a povoação – até lá ainda faltavam cinco quilómetros -, mas talvez a freguesia.

Tirei uma fotografia junto da placa da povoação e, logo de seguida, quase fui atropelado por um automóvel que efetuava uma ultrapassagem a mais de 100 km/h: tocou-me de raspão no casaco, e as rodas passaram a dez centímetros dos meus pés. Atribuí mais este incidente à teimosia do Pedro. Posso ter exagerado nestas imputações, mas nada disto se teria passado se tivéssemos estendido a tenda no lugar que eu sugeri.

Cap5-PortoCovo

Andámos, ainda, mais de três quilómetros até encontrarmos um sítio abrigado para dormir.

Os campos junto à estrada estão vedados com cercas eletrificadas para impedir o gado de sair. Pelo caminho, ouvimos os chocalhos das vacas e bois, e vimos muitos deles em sombras chinesas, contra a luz da Lua.

A certa altura, o Pedro perguntou-me onde ficava a estrela polar. Virei-me para trás, identifiquei a constelação da Ursa Maior, segui a direção das duas estrelas periféricas do retângulo, cinco vezes a sua distância e apontei para a estrela polar. Devido à luminosidade da Lua, a estrela Polar era a única estrela, da Ursa Menor, visível naquele momento.

A estrela polar estava quase alinhada com a estrada por onde seguíamos, mas no sentido oposto, pois a estrada está quase alinhada com o sentido norte-sul.

“Não é nada”, disse o Pedro. “Aquilo não é a estrela polar. A estrela polar está ali.” E apontou para a zona da Lua que tinha nascido há pouco mais de uma hora e devia, por isso, estar a 20º do horizonte. “No norte, quando está lua cheia, não é possível ver a estrela polar”, rematou.

Expliquei-lhe que a estrela polar indica o norte e que a Lua nasce a leste. Perguntei-lhe, então, se o mar, que estava à nossa direita, estaria, por essa ordem de ideias, a sul. Disse que sim.

Tenho quase a certeza de que me estava a provocar. Ou isso, ou então atingiu – antes de mim – o ponto de rotura do stress de estarmos a conviver continuamente, sem descanso, há quase dois dias. Comecei a ficar farto do miúdo. Não só tomava decisões erradas e perigosas, por teimosia, como parecia estar a provocar-me propositadamente.

Entretanto, a Teresa ligou-me e pu-la a par da situação. Falei-lhe também do meu joelho. Ela sugeriu que eu abandonasse a caminhada no dia seguinte, alegando dificuldades com o joelho. Já tinha pensado abandonar, por esses dois motivos: pela dificuldade de relacionamento e por causa das dores no joelho esquerdo. Decidi pensar com calma no assunto.

O local onde eu tinha pensado montar a tenda foi um dos últimos com dunas onde nos poderíamos abrigar do som do mar e do vento. Eu tinha dito isso ao Pedro. Dali para a frente, a estrada tinha cercas dos dois lados, com gado e sem dunas que formassem vales para montarmos a tenda. Propus irmos para o parque de campismo de Porto Covo, o que o Pedro recusou.

Não tinha ideia de que existisse, até Porto Covo, um local seguro para pernoitarmos: um local sem vento, afastado do mar e longe da estrada. Tinha esperança de chegar a Porto Covo e ir mesmo para o parque de campismo.

Já passava das 22h quando o Pedro sugeriu que ficássemos a dormir no parque de estacionamento da praia da Samouqueira. Havia, mesmo por cima da falésia, uma fila de acácias curvadas que nos poderiam abrigar do vento. O ruído do mar, esse iria ser uma constante ao longo da noite. Ao som do mar acresceu um ruído surdo de máquinas, talvez vindo de Sines, arrastado pelo vento; de tal forma que parecia que estávamos a dormir dentro de um cargueiro, com o som do motor a trabalhar a noite toda.

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