Tróia – Sagres – Cap. VII

O sétimo troço do percurso foi de Porto Covo até Vila Nova de Milfontes.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap7.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap8

Início: 25-03-2016, 09:54
Velocidade média: 2.945 km/h
Tempo: 04h 59m 38.576s
Espaço: 14.709 km

Saímos de Porto Covo próximo das 10h da manhã. Descemos até à praia, passámos pela areia molhada, pois estava varé vazia, e subimos pelo caminho que vai para a ilha do pessegueiro.

Cap8.PortoCovo

Caminhámos pouco mais de um quilómetro por uma estrada de terra até ao entroncamento com a estrada de alcatrão que vem da povoação da Ilha do Pessegueiro. Lá ao fundo, vinham cinco cavaleiros: um instrutor e quatro aprendizes. Continuámos pela estrada, seguidos pelos cavalos. Ao chegarmos ao forte que fica em frente à ilha, encetámos por uma estrada de terra novamente. Os cavaleiros seguiram-nos. O instrutor era um homem, jovem, que ia relatando alguns dados históricos sobre as construções que encontrávamos pelo caminho. As aprendizes eram todas mulheres, mãe e filhas, e sorriam para nó, de quando em vez.

Cap8-Forte

Um quilómetro abaixo do forte, passámos na praia do Queimado. Estávamos prestes a entrar no trilho da Rota Vicentina. Os cavaleiros tinham seguido para leste, por um caminho mais largo.

Cap8-Queimado

Não era minha intenção seguir a rota de ninguém, eu descubro as minhas próprias rotas, mas esta rota era um percurso conveniente, ao longo da costa – embora, com muitos troços de areia, que dificultam a locomoção – e, ponderando as vantagens e desvantagens, decidi continuar.

Cap8-Rota-1

Cerca de um quinhentos metros à frente, reencontrámos os cavaleiros. Na estrada de areia, estava um jipe parado. Avançou um pouco e parou de novo. Passámo-lo e chegámos a um cruzamento. O Pedro, apontou para a direita e disse: “Acho que por ali não há saída”. Estava lá outro jipe parado; entretanto o jipe anterior chegou e seguiu pela estrada “sem saída”; os cavaleiros fizeram o mesmo. Parece que a estrada “sem saída” era o trilho da Rota Vicentina. Mas nós continuámos pela esquerda.

Nesse trilho de ninguém, encontrei uma bota de bebé, número sete, feita na China. Alguém tinha ali parado e perdeu a bota do filho.

Cap8-Bota

O Pedro arrependeu-se e comentou: “provavelmente enganámo-nos, o caminho deve ser aquele do lado”. Eu nem respondi. Estava farto dos erros de navegação dele. E enquanto estivéssemos a andar para sul, eu não estava preocupado. Mais cedo ou mais tarde, haveríamos de encontrar o outro trilho.

Ao chegarmos à praia dos Aivados, voltámos a entrontrar os cavaleiros, vindos de oeste. Tentámos seguir em frente, por um caminho privado, mas os cães – pastores alemães – fizeram-nos reformular as nossas opções. Descemos para a praia, e passámos por cima de um riacho, para voltar a subir a falésia.

Cap8-Aivados-1
Cap8-Aivados-2

A paisagem, dali para sul, é inóspita e de uma crueza indescritível. Lascas de pedra, areia polvilhada com pequenos tufos arbóreos que sobrevivem a maior parte do ano numa secura quase absoluta. A única água que existe é a do mar e é salgada. Talvez de noite se formem gotícolas de água pura na areia por condensação e isso alimente aquelas plantas.

Cap8-Lascas

Andámos dois quilómetros pela falésia a desfrutar daquela paisagem acre e desafiante. Lá ao fundo, na praia, a maior parte do terreno tinha sido areia, entrecortado por duas ou três centenas de metros de pedras redondas. Na próxima caminhada, se estiver uma maré bastante vazia, vou pela praia.

Chegámos à praia do Saltinho que se liga a sul com a prai do Malhã e decidimos descer a falésia até à areia.

Cap8-Saltinho-1

Havia apenas um pescador na praia, em cima de uma rocha. O Pedro, já há muito que queria tomar banho de água doce e, em Porto Covo, os balneários públicos estavam fechados. Indiquei-lhe um chuveiro improvisado, que alguém montou na praia, e disse-lhe que se podia lavar ali. Era um tubo de polietileno preto que alguém colocou na falésia, para encaminhar a água que escorria pelo vale até à praia. Eu tinha o cantil cheio e não tinha sede, por isso não provei a água, mas o Pedro disse que era saborosa.

Entretanto, despi-me e fui até ao mar dar uns mergulhos nas ondas, entre as rochas, com um mar agitado e a 14ºC. Foi bom. Para não molhar a toalha nem os calções de banho, fui nu ao banho. Voltei, sequei-me ao sol, e voltei a vestir-me.

Cap8-Saltinho-2

Entretanto, o Pedro decidiu tomar duche, mas começaram a surgir caminhantes vindos de norte, da Rota Vicentina e a descer para a praia pela mesma encosta que nós usámos. O Pedro acabou por tomar duche por partes: primeiro a cabeça, depois o resto.

E aqui vai o vídeo do duche.

Descemos a praia do Malhão, até chegarmos às falésias de rocha. Subimos pela passadeira e continuámos o caminho.

Cap8-Malhao

Lá de cima, as praias do Saltinho e do Malhão têm um aspeto muito convidativo, limpo, puro e selvagem. Apareçam! Mas não estraguem.

Cap8-Malhao-2

Uns quinhentos metros mais abaixo, na Praia da Angra da Barreta, fotografei uma cegonha no ninho, no topo de uma rocha escarpada, no meio do mar. Não fui o único. Esta deve ser a atração mais fotografada da Rota Vicentina.

Cap8-Cegonha

Pelo caminho, encontrei diversos arbustos de camarinheira. Tinha esperança de encontrar, ainda, algumas bagas para comer. As camarinhas começam a surgir em setembro, mas já cheguei a colher vários quilogramas de camarinhas em março, no Carvalhal. Ao longo dos anos, apercebi-me que as camarinheiras que estão mais longe do mar, mantêm os frutos durante mais tempo no arbusto. Nós íamos a caminhar mesmo em cima da falésia, por isso, a esperança de encontrar bagas comestíveis não era muita.

Cap8-Camarinhas

Por fim, encontrámos uma camarinheira com uma dúzia de camarinhas, já com um aspeto de estarem secas. Não cheguei a prová-las, porque naquele momento, o Pedro voltou a destinar comigo. Ele nunca tinha ouvido falar de camarinhas, fui eu que lhas mencionei pela primeira vez. DIsse-lhe que começavam a aparecer em setembro, mas que já tinha colhido uns quilos em março. Eis quando, depois de ter procurado e encontrado umas camarinahs na árvore, o Pedro rematou: “acho que não há camarinhas agora; se dizes que aparecem em setembro, agora não há”.

Perdi o controlo, mas apenas internamente. “O que é que este puto quer? Ouviu bem o que eu lhe disse. Não conhecia as camarinhas. Tudo o que sabe sobre elas fui eu que lhe contei. Disse-lhe que já apanhei muitas em março. O que é que ele pretende? Provocar-me?” Apesar da irritação, continuei. Calado.

Parámos mais à frente, por cima da praia do Burdo, por volta das 13h, para o Pedro almoçar.

Cap8-Burdo

Eu ainda não tinha fome e queria ir comer a um restaurante em Vila Nova de Milfontes. Gosto muito de caminhadas longas – horas e dias sem er ninguém – mas gosto muito, também, de comer e beber boa comida e bom vinho. E se puder conjugar as duas coisas – o asceta e o mundano – acho que não há muito melhor que isto no mundo.

A descansar, enquanto o Pedro almoçava
Cap8-Almoco-1
Cap8-Amoco-2
Cap8-Amoco-3

Voltámos ao caminho e o Pedro voltou a desorientar-se com o rumo: andava para oeste, a caminho do mar, seguro de que estava a andar para sul. Não gostei, mas brinquei com a situação. Começava a ficar com fome e tinha receio de chegar a Milfontes e de não me servirem almoço. Eu queria almoçar bem: um prato cheio, escolhido por mim, e não os restos de um restaurante, servidos como um ultimato – “é isto ou nada” – como já me tinha acontecido várias vezes anteriormente.

E a disrupção definitiva aconteceu. O Pedro sugeriu que caminhássemos novamente por um caminho para oeste, para chegarmos a um trilho mais abaixo, e eu disparei: comecei a andar depressa para sul e não mais parei. Ele gritou por mim duas vezes: da primeira perguntou-se se eu ia almoçar; da segunda, apreveitei a deixa, e disse-lhe que ia comer. Fui depressa, muito depressa. Fiz aqueles últimos dois quilómetros em menos vinte minutos do que ele. Passei a direito por cima de tudo, e parei no primeiro restaurante que encontrei. Assim, ele conseguiria encontrar-me.

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