Tróia – Sagres – Cap. VIII

O oitavo troço do percurso foi em Vila Nova de Milfontes.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap8.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap9

Início: 25-03-2016, 16:08
Velocidade média: 4.839 km/h
Tempo: 00h 41m 41.030s
Espaço: 3.362 km

Parei no restaurante Porto das Barcas, no topo norte de Vila Nova de Milfontes, a quarenta metros do mar, com uma esplanada virada a poente: uma bela vista e à sombra, que era o que eu precisava para arrefecer o corpo e os ânimos. Entrei, encomendei e vim-me sentar na esplanada.

A costa alentejana está pejada de putos com aspeto de estarem bem na vida: ricos, com grandes carros e mulheres bonitas. Tinha sido assim em São Torpes, era agora assim em Milfontes. Detesto estes putos e o que eles representam, e os restaurantes que frequentam. Prefiro ir comer a uma tasca, com pessoas com vida. Pessoas que lutaram e sofreram para ter uma vida. Mas tinha feito um percurso de quase quinze quilómetros, os últimos a coxear com dores no joelho esquerdo, com um calor insuportável, e, além disso, tinha que ficar encontrável pelo Pedro. Os empregados do restaurante eram simples, mas profissionais. Trataram-me tão bem como a outro cliente qualquer. Eu ia todo sujo, com as calças de ganga com que reparei o carro e tratei da horta nos últimos doze meses, a cheirar a suor, com o cabelo desgrenhado: feio, porco, sujo e… com cara de mau. Mas fui atendido como um doutor.

Pedi um atum braseado – fixe, tinham atum! – e uma garrafa de vinho tinto Diálogo, Douro, 2013.

Quando a senhora me trouxe o vinho a provar, não me soube a nada. Aliás, soube-me a rolha. Mas disse-lhe que estava sem sabor por causa de ter estado a caminhar e que o vinho devia estar bom. Comi as entradas e, entretanto chegou o atum. Estava à espera de uma prato de atum tradicional, mas veio um prato moderno: um lombo de atum, tostado por fora e quase cru por dentro, cortado em rodelas. Vinha acompanhado de vegetais cozinhados – cozidos e salteados em azeite e alho – exatamente o que eu estava a precisar depois de estar a caminhar há três dias.

Entretanto o Pedro chegou. “Tio, é a última vez que me abandonas assim, sem me dizeres nada.” O quê? Um ultimato? Então e os ultimatos todos que eu não disse, mas que deixei transparecer? Por várias vezes mostrei estar chateado com as provocações dele, mas ele continuou, e agora estava a fazer-me um ultimato?

Provavelmente devia ter sido mais claro a manifestar a minha indignação, mas eu sou assim, não imponho a minha vontade a ninguém – exceto em caso de guerra – e só trabalho com pessoas inteligentes e construtivas; os outros abandono-os pelo caminho; que sejam comidos pelos leões.

Respondi-lhe: “então terminamos por aqui”.

“O quê?”, inquiriu ele surpreso. E refez a retorsão: “desistes?”

“Desistes?” pensei eu surpreso. Este sonho é meu e ele pergunta-me se desisto? Acabou-se a conversa.

“Nâo desisto, volto mais tarde para acabar”, respondi-lhe.

“Eu vou continuar”, disse-me ele e estendeu-me a mão.

Apertámos as mãos e ele foi-se embora.

Almocei bem. Almocei mesmo muito bem. Terminei com um café duplo e fui comprar o bilhete do autocarro para casa.

Cap8-Milfontes

O resto do percurso – até Sagres – será concluído em breve, assim que o meu joelho o permitir.

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