Tróia – Sagres – Cap. X

O décimo troço do percurso foi de Almograve até Cavaleiro.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap10.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap10

Início: 31-03-2016, 21:50
Velocidade média: 4.562 km/h
Tempo: 01h 49m 52.297s
Espaço: 8.353 km

Subi até ao centro de Almograve. Estava frio, não havia ninguém na rua. Na rotunda, do lado direito, o café Lavrador estava aberto, com alguns clientes no interior, sentados nas mesas. Não entrei. Já tinha bebido café, que levo sempre para as caminhadas.

Virei para sul. Eram quase 22h, e a temperatura continuava a descer. Precisava de aquecer as mãos e, por isso, coloquei-as nos bolsos das calças. Mas não era fácil caminhar de mãos nos bolsos, com o blusão impermeável vestido e a mochila às costas. Alternei os bolsos das calças com os bolsos do blusão, que não são tão quentes, mas acabei por recuperar a temperatura.

Mais uma vez, esqueci-me de trazer luvas. Tenho que incluir as luvas na lista de itens importantes para estas caminhadas extensas e noturnas.

A estrada de Almograve para sul é quase sempre a direito, durante quatro quilómeros, até chegar ao entroncamento com a estrada que vai para o cabo Sardão. Nesses quatro quilómetros, de noite, cruzei-me com dois ou três automóveis, mas como trazia um gorro refletor na cabeça, assim como três faixas num braço e nos tornozelos, os condutores avistavam-me à distância, o que diminuiu imenso o risco de circular de noite.

Às 22h30m cheguei ao cruzamento que dá para o Cabo Sardão.

Cavaleiro-01

O silêncio do percurso era interrompido pelo ruído surdo dos motores de rega. Não cheguei a perceber o que regavam, pois passei por toda aquela zona de noite.

Um dia, talvez há uns dez anos, passei em Almograve durante o dia. Vinha do Algarve e decidi conhecer aquela região. O dia estava nublado, com o céu coberto de núvens e sem sol. Pelo caminho, lembro-me de campos cultivados a perder de vista. Fui até ao Cabo Sardão e saí do carro. A sensação com que fiquei foi de um sítio perdido no tempo, sem a vivacidade de outras povoações; um sítio deixado à sua sorte, abandonado. O céu nublado pode ter ajudado a esta ideia com que fiquei de Almograve.

Ao longo do caminho, por vezes passava perto de um motor de raga e o som ganhava amplitude. Ao longe, o farol mantinha, incansável, o seu sinal de aviso: um sinal único em todo o mundo, como todos os faróis.

Mais quatro quilómetros, entrecortados pelo ruído de motores de rega, e cheguei ao cabo Sardão, à povoação de Cavaleiro. Não cheguei a ir mesmo ao cabo, pois era de noite e tinha que encontrar um sítio para dormir. Ainda pensei em ir dormir numa pensão na Zambujeira do Mar, para poder tomar um banho de água quente relaxante – sonhos – mas ficava muito longe ainda.

Não sendo possível, aproveitei para urinar junto da paragem do autocarro e beber o café que trazia na mochila. Tudo isto já sem a mochila às costas: tinha-a deixado no banco da paragem de autocarro, enquanto, ao fundo, alguém chegava de carro e entrava em casa: uma moradia, pois vive-se com qualidade em Cavaleiro.

Depois do Cabo Sardão, continuei para o Porto das Barcas, mas decidi procurar um sítio para dormir à beira da estrada. Por várias vezes, parei a caminhada, liguei a lanterna e procurei um sítio escondido e abrigado para montar a tenda.

Das duas primeiras vezes, os sítios onde procurei à beira da estrada, do lado direito, eram zonas pouco abrigadas, com eucaliptos cortados e acácias. Não consegui encontrar um sítio plano onde colocar a tenda. Continuei até encontrar um local, para lá dos arbustos, relativamente abrigado e que me deu confiança para descansar.

A noite estava demasiado fria para conseguir descontrair e adormecer. Além disso, ouvia-se o ruído constante das ondas do mar. Eu estava a cerca de um quilómetro da costa e a orla costeira naquela zona é muito rochosa, o que reforça a amplitude do ruído, com as ondas a esmagarem-se nas pedras.

A meio da noite, o frio era tanto – a temperatura deve ter atingido os 5ºC – que tinha o nariz a a boca gelados e tive que colocar um lenço por cima da cara. A tenda estava toda fechada, exceto um pequena abertura triangular, coberta com uma rede, que servia de respiradouro, e era por aí que o vento frio entrava incessantemente. Dormi apenas duas horas.

Local onde montei a tenda: dentro de um terreno, debaixo das acácias, protegido das vistas.
As coordenadas desse local são 37.589816 N, 8.800508 W.
Cavaleiro-02

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