Tróia – Sagres – Cap. XIV

O décimo quarto troço do percurso foi do Rogil até ao Monte Velho.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap14.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap14

Início: 01-04-2016, 13:11
Velocidade média: 3.799 km/h
Tempo: 05h 10m 55.416s
Espaço: 19.689 km

Assim que cheguei ao Rogil, entrei numa mercearia, peguei em duas garrafas de água, paguei e saí já a beber uma. Ainda tive que esperar que um casal de putos fosse atendido, mas foi rápido. Saí e fiquei cá fora, a apreciar a paisagem, a conquista e o memento de pausa, enquanto bebia a água das Pedras. A senhora que me atendeu, talvez a dona da loja, já sem clientes no interior, ficou à porta a olhar para mim. Era uma senhora idosa – bem, pelo menos, mais velha do que eu – e deve ter achado estranho a minha indumentária – casaco de inverno, chapéu, calças de ganga forte, mochila de caça – num dia tão solarengo. Eu tencionava continuar o caminho para Sagres, por trilhos no meio do campo, longe da estrada principal de alcatrão, pois os automóveis passavam muito depressa e havia o risco de levar um toque por distração, ou cansaço. Percebi que a senhora me observava e, assim que acabei de beber a água, voltei-me para ela, para lhe perguntar se havia um vidrão onde pudesse pôr a garrafa. Indicou-me um logo ali perto. Depois perguntei-lhe se havia caminho dali para Aljezur pelo meio das terras. Aconselhou-me a falar com o dono do quiosque, mais abaixo, do lado oeste da estrada.

Depois de lanchar oito bolos e três cafés na melhor pastelaria das redondezas, coloquei tudo às costas e fui até ao dito quiosque. O dono estava ocupado, portanto, e para meter conversa, pedi mais um café. Já era o quarto.

Disse-me que o canal de água não ia até Aljezur, contrariamente à informação qeu o belga me tinha dado, mas que parava no meio do nada e que, no fim, a água se escoava pelas rochas abaixo e se perdia no mar. Aconselhou-me a seguir os dois quilómetros seguintes pelo alcatrão, para depois virar para oeste, por uma estrada de terra e continuar para sul, pela estrada do canil, até Aljezur. Assim fiz.

Pouco depois de sair do alcatrão, perdi o caminho e andei pelo meio dos torrões de terra, muito embora o mapa do Google me dissesse que eu estava em cima de um trilho.

Passei no meio de arbustos, saltei vedações mas acabei por chegar a um entroncamento de estradas regionais, de alcatrão, perto do parque de campismo do Serrão. Lembro-me que o telefone se foi abaixo, mais ou menos por aquela altura, e deixou de registar o percurso, mas o sítio Web de apoio à aplicação consegue ligar os troços, mesmo que haja pedaços em falta.

A estrada para sul, inicialmente de alcatrão, passou a terra batida e, mais à frente, já na descida para Aljezur, tornou-se num monte de pedras e buracos.

Pelo caminho, aproveitei para telefonar à minha mãe, que tinha caído uns dias antes com as costas num vaso e andava cheia de dores. Partiu três vértebras – uma estava mesmo desfeita – e tinha tantas dores que chegou a pensar em desistir. Mas felizmente estava entretida com uns pintainhos que a minha irmã lhe levou, enquanto foi de férias para fora. Chamou-me louco, por me meter nestes desafios inconsequentes, quando podia estar descansado em casa longe dos perigos inesperados que podem ocorrer num empreendimento destes. Senti-a animada e fiquei descansado.

Ao fundo da descida para Aljezur, passei ao lado do canil que o dono do quiosque do Rogil tinha falado. Não havia ninguém, só cães, tristes, assustados e barulhentos.

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Entrei pelo acesso norte de Aljezur, onde um antigo anúncio em ferro indica o local onde antes começava a povoação.

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Cruzei a povoação de norte a sul e, à saída, voltei a enfrentar um problema recorrente: caminhar pelo alcatrão, numa estrada sem bermas e de noite, era muito perigoso, portanto tinha que encontrar uma alternativa.

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Parei, consultei os mapas, e decidi sair da estrada, subir para a direita, para o estádio e ir apanhar a estrada M1003-1. A subida era íngreme e foi difícil. Foi mais de um quilómetro, extremamente inclinado, já no fim do dia, com apenas duas horas de sono, mas, chegado lá acima, foi mais uma vitória.

Junto às antenas de telecomunicações, no topo de Aljezur, na estrada M1003-1.
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A estrada M1003-1 segue para sul durante cerca de um quilómetro e meio, para depois virar para oeste, para a praia da Arrifana. Nesse ponto, continuei para sul, para fazer o resto do percurso pelo meio da serra. Parei um pouco mais à frente para comer qualquer coisa.

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O alcatrão desapareceu e só voltei a vê-lo lá mais para a frente, no episódio dos cães. Apesar disso, e uma vez que não sabia com que frequência iriam passar automóveis naquele caminho, vesti-me para a noite, ou seja, coloquei o gorro refletor, assim como as braçadeiras, nos braços e nos tornozelos.

Não me cruzei com mais carro nenhum naquela serra, naquela noite, até parar para dormir.

Eram 20h e o sol já se tinha posto. Ainda havia luz, mas diminuía a cada minuto. Caminhei talvez mais duas horas, até parar para jantar e dormir. Quando parei já era noite cerrada e já não via onde punha os pés.

Durante essa caminhada pela serra, ao lusco fusco, passei perto de duas ou três casas isoladas, de onde vinha um cheiro a lareira de lenha e a cozinhados caseiros. Apeteceu-me bater à porta de uma daquelas casas e pedir para comer com eles. Mas continuei sempre a andar.

Estranhei que, em todo aquele percurso feito pelo meio da serra, por estradas de terra, praticamente sem habitações, houvesse esgotos, água e eletricidade, como num projeto de urbanização citadino. Foram talvez seis ou sete quilómetros de quase deserto servido por infraestruturas que não existem nalgumas zonas do Algarve mais povoadas.

Por duas vezes, ao passar junto a uma casa, os cães ficaram a ladrar até eu desaparecer por detrás do topo do monte seguinte. Eram habitações vedadas, com os cães do lado de dentro: uma proteção usual em casas, por vezes desabitadas.

Já de noite, numa noite sem lua – estava quarto minguante, a lua nasceria apenas às 3h da manhã – quase a chegar ao Monte Velho, fui atacado por dois cães pastores alemães, no local com coordenadas 37.239145 N, 8.844758 W. Este sítio chama-se Monte Novo, e fica cerca de um quilómetro a norte do Monte Velho, onde montei a tenda e pernoitei, pouco depois.

Vindo de nordeste, do Atlantic Riders, cerca de quatrocentos metros depois, cheguei a um amontoado de edificações, que formam um pátio interior, iluminado com uma luz elétrica branca, que se projeta, por entre as casas, para o exterior. As zonas de claridade são interrompidas por espaços de escuridão, espaços onde a luz é obstruída pelo volume dos edifícios rasteiros.

No silêncio daquele ermo, só se ouviam os meus passos e os meus pensamentos, às vezes ditos em voz alta. De repente, dois ou três cães começaram a ladrar. Olhei para o interior do pátio iluminado e vi dois cães a correrem para mim. Contrariamente a todos os outros encontros com cães, antes e depois deste incidente, não havia barreira nenhuma entre eles e eu, e também não estavam presos com correntes ou trelas.

Cansado, com uma mochila pesada às costas – que não me permitia outros movimentos, para além de andar para a frente, sem o risco de me desequilibrar – tinha que enfrentar os cães: entrei em estado de alerta instantâneo.

O primeiro cão avançou para mim, pelo cone de luz que provinha do pátio: em contraluz, mas suficientemente visível para poder perceber o seu comportamento. Gritei, de frente para ele, energicamente, de forma ríspida e com determinação: “Quieto!”. Ele continuou a ladrar e eu repeti, de forma ainda mais incisiva: “Quieto!”. Ele baixou a amplitude e o ritmo do ladrido e eu percebi que já não representava perigo para mim. Faltava o outro. Virei-me cerca de noventa graus sobre a esquerda para seguir pela estrada e o primeiro cão voltou a ladrar forte. Voltei-me de novo para ele e gritei outra vez: “Quieto!”. Fiquei parado de frente para ele e voltou a reduzir a intensidade do ladrido. Voltei-me então para o outro cão e avancei.

O outro cão tinha ficado num espaço de escuridão absoluta, escondido da luz por uma casa. Ladrava continuamente para mim, mas eu não sabia se ele estava perto ou afastado de mim, não lhe via os movimentos e não conseguia prever se me iria atacar ou não. Qualquer movimento que eu fizesse poderia despoletar um ataque e eu só saberia quando ele estivesse em cima de mim. Decidi gritar-lhe, com força e de forma autoritária. Por três vezes gritei “Quieto!” até que a intensidade do ladrido baixasse. Esperei uns momentos, virei-me e segui caminho.

Os cães ladraram durante um pouco mais, talvez um minuto, e depois calaram-se.

Deixei a estrada de alcatrão e segui pela estrada de terra castanha que leva à Carrapateira. Queria tentar chegar à Carrapateira e dormir numa pensão: tomar um banho de água quente e dormir cinco ou seis horas. Na noite anterior só tinha conseguido dormir duas horas por causa do frio e, para essa noite, estavam previstos cinco graus de temperatura, tal como na noite anterior.

Continuei pela estrada de terra mas, com aquela escuridão, não era possível distinguir os buracos e as pedras soltas que existiam ao longo da estrada. Caminhar naquelas condições era arriscado, por isso decidi começar a procurar um sítio para montar a tenda. Tinha que encontrar um sítio plano e abrigado do vento, para que o efeito do frio não fosse tão intenso durante a noite. Com a pequena lanterna de leds da bateria do telemóvel, procurei primeiro do lado direito da estrada: era uma encosta virada para oeste, e o vento previsto para essa noite era de noroeste. Não encontrei nenhum espaço plano suficiente para colocar a tenda. Voltei à estrada e parei, mais à frente, do lado esquerdo debaixo de um pinheiro: havia um espaço quase plano no declive que subia até ao topo do monte, mas ficava mesmo virado para noroeste, portanto voltei à estrada.

Desci pelo caminho, pesquisando, tanto à esquerda, como à direita, mas a arborização era intensa e não permitia a montagem da tenda. Continuei a descer, passei por baixo de um pinheiro caído e, mais à frente, o caminho desembocou numa encruzilhada. Era uma zona plana desbastada de árvores. À esquerda e à direita abria-se uma via de terra batida bastante mais ampla do que a vereda que me levou ali. À frente, debaixo de um amontoado denso de arbustos, uma cama de folhas secas tinha a área ideal para eu instalar a tenda.

Já dentro da tenda, comi duas bolas de arroz e uma maçã. Lavei os dentes e deitei-me. A Teresa tinha-me telefonado um pouco antes e sugeriu-me que tapasse a janela de respiração da tenda, para que não entrasse tanto frio. Às escuras, consegui tapá-lo e isso atrasou a entrada do frio, o que me permitiu dormir quatro horas, mas reteve a humidade dentro da tenda. Na manhã seguinte todos os objetos estavam cobertos com uma película fina de pequenas gotícolas de água, assim como o interior da tenda. Levantei-me às 6h. Não pude esperar que a tenda arejasse: enrole-a e meti-me ao caminho.

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