Tróia – Sagres – Cap. XVI

O décimo sexto e último troço do percurso foi de Vila do Bispo até ao Cabo de São Vicente.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap16.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap16

Início: 02-04-2016, 12:07
Velocidade média: 5.086 km/h
Tempo: 02h 12m 15.146s
Espaço: 11.210 km

Combinei com o Carlos às 14h no Cabo de Sao Vicente. Tinha apenas duas horas para chegar ao fim do trajeto. Era arriscado, uma vez que tinha os pés inchados, já me tinham doídos os joelhos, talvez por má colocação das pernas e dos pés no chão; e, a qualquer momento, poderia ter que abrandar o ritmo, devido a cansaço ou a alguma lesão.

Consultei o mapa no tablet, mas decidi confirmar com a dona do café qual o melor caminho para chegar a pé, o mais rápido possível, ao cabo de São Vicente. Ela disse-me que havia os caminhos velhos, por onde antes se ia até ao cabo, que eram mais diretos e mais curtos: coincidiam com o que eu tinha consultado no mapa. Indicou-me a forma de lá chegar e assim fui.

Conheço bem a Vila do Bispo. Todos os anos passo na vila para comer moreia frita num dos vários restaurantes que servem esse petisco que só os entendidos conhecem. Não sei qual foi a primeira vez que comi uma posta de moreia frita, mas posso enunciar os locais onde já me deliciei com esse pitéu.

  • Em São Torpes, algumas vezes
  • Na Vila do Bispo, muitas vezes, em diversas tascas e restaurantes
  • Nas casas do pai do Carlos, tanto no Algarve, como em Almada, imensas vezes
  • Nas minhas casas, em Almada ou Corroios, muitas vezes também
  • Nas ilhas de Santiago e Santo Antão, em Cabo Verde
  • Em Sines, durante esta caminhada
  • E provavelmente, em muitos outros sítios, dos quais não me recordo

A primeira moreia que apanhei na caça submarina, dei-a ao pai do Carlos para tratar e fritar. Mas a esposa dele não gostou muito da ideia, pois a fritagem da moreia deixa a casa toda suja de óleo. Por isso, a moreia seguinte fui eu que a arranjei, salguei, sequei e fritei. Nesse dia convidei o Carlos para almoçar. A moreia estava tão salgada que comemos apenas duas ou três postas cada um. Tive que demolhar as restantes – como se fossem bacalhau – secá-las novamente e voltar a fritá-las para as poder comer. O Carlos bem estranhou as moscas não se terem aproximado da moreia enquanto secava. Eu tinha deixado a moreia em salmoura durante duas horas, quando deveria ter estado apenas cinco minutos mergulhada em sal.

Vim também a saber – mais tarde – que a moreia deve ser escalada pelas costas e ficar fechada na barriga, segundo me disse o pai do Carlos. Assim fiz das vezes seguintes. Neste momento sou um especialista de secagem e fritagem de moreias.

Passei junto à Caixa de Crédito Agrícola e continuei para oeste e depois para sudoeste. À saída de Vila do Bispo, já numa estrada de terra batida que passava entre umas terras verdejantes de um lado e doutro, passei no meio de uma manada de vacas: umas com os cornos baixos, outras com os cornos levantados.

Sempre a direita, no rumo de sudoeste, e praticamente sem me cruzar com veículos automóveis, caminhei com os pés cada vez menos sensíveis e mais inchados. “Caminhos velhos” é o nome que os locais dão a estes caminhos abandonados após a construção das estradas de alcatrão, mais extensas e que passam mais a sul.

No vídeo digo “estradas velhas”, mas o termo que me tinham mencionado era “caminhos velhos”

Quase sete quilómetros depois, a estrada toma o rumo sul que se mantém durante dois quilómetros, até chegar à estrada nacional. Nessa encruzilhada, havia uma casa abandonada, com duas carroças lá dentro, que, mais cedo ou mais tarde, vão ficar soterradas pela derrocada do teto da construção que certamente se vai desmoronar.

As habitações tradicionais algarvias – feitas de pedra e barro, têm que ser caiadas regularmente, para evitar que a água da chuva entre para dentro das paredes, provocando o desagregamento da estrutura da casa. Também os telhados – geralmente com telha de barro de meia-cana – têm que ser reparados pelo mesmo motivo.

As casas têm paredes grossas, que mantêm o interior fresco no verão, e aquecido no inverno. Resistem, também, bem a pequenos abalos de terra, uma vez que as paredes são geralmente construídas com grandes lajes de pedra que assentam, umas por cima das outras. Nesta casa, a parede oeste está ainda reforçada com o apoio de contrafortes, para lhe dar mais estabilidade.

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Quando uma casa é abandonada, não passam mais de cinquenta anos até que a edificação se transforme numa ruína sem recuperação, num amontoado de pedras, o que faz, destas casas, habitações ecológicas, perfeitamente integradas no ambiente. Provavelmente, é esse o destino desta casa da encruzilhada.

A partir dali, a estrada ganha um piso de alcatrão, mas é demasiado estreita para permitir a passagem simultânea de duas viaturas.

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São dois quilómetros sempre a direito, que eu percorri de forma mecânica, robotizada, com os pés do tamanho de patas de elefante, a bater no chão a cada passada e, a cada passada, cada vez mais espalmados, cada vez mais desfeitos. Imaginava os meus pés como um monte de carne e ossos à solta dentro das botas, como uma mistura líquida, e só me apetecia colocar o mixer – a varinha mágica – dentro das botas, moer tudo e acabar com aquele sofrimento.

A meio do caminho, pareceu-me que os movimentos descoordenados dos braços, conjugados com uma má respiração, estavam a interferir com as batidas e o ritmo do coração. Provavelmente foi só uma sugestão, pois o coração bate sempre, a vida toda, apesar dos excessos e de outras barbaridades que nos apeteça fazer. Grande companheiro, o coração. Adotei, então uma passada mais calma, acompanhada por um movimento natural dos braços e uma respiração longa e descontraída. E o ritmo voltou.

De início, e como o Carlos se atrasa muitas vezes, planeei ir até ao cabo de São Vicente e depois voltar para trás, para Sagres, para ficar com esse percurso já feito, antes que ele chegasse para me levar de volta a Almada. Na minha senda pela costa de Portugal, ainda me faltava caminhar do cabo de São Vicente até à praia do Ancão, onde tudo começou. E esse percurso teria que ser feito mais tarde. Mas o melhor era iniciá-lo a partir de Sagres, pois Sagres é bem servida por transportes públicos, e poderia chegar lá com facilidade, em qualquer altura, para concluir o troço algarvio. No entanto, cada vez tinha mais dificuldades em andar, tinha imensas dores nas pernas e nos pés, e a possibilidade de voltar para trás, para Sagres, era cada vez mais remota.

Depois de uma pequena curva à direita, com contracurva, cheguei, novamente, à estrada N268 que me levaria ao termo deste projeto Tróia-Sagres iniciado uma semana antes.

Faltavam pouco mais de dois quilómetros para concluir o trajeto. O céu estava praticamente limpo, o sol quente, e eu tinha um casaco de inverno vestido e um chapéu na cabeça. Caminhava todo tapado do sol das duas da tarde para não me queimar, mas isso não me permitia arrefecer o corpo que, para além de quente, suava. Apesar de tudo, penso que essa foi a melhor opção.

Sensivelmente a meio caminho, passei na Fortaleza do Beliche. É uma zona com imensos pesqueiros, onde já vi apanhar vários sargos à cana, todos com mais de um quilograma e meio.

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Para trás, para o lado de Sagres, fica a praia do Beliche, a última grande praia de areia do barlavento algarvio, com uma extensão de areia de leste a oeste, de mais de quinhentos metros. Para chegar à praia, é necessário descer umas centenas de degraus, o que fiz muitas vezes no passado. A praia tem um separador natural a meio – no local onde o promontório avança para o mar – que divide o areal em duas partes quando a maré está cheia. A metade oeste da praia é, tradicionalmente, frequentada por nudistas. Lá no canto oeste, fotografei, uma vez, os meus filhos mais velhos a fazer surf.

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Muitos anos antes, estava eu dentro de água a fazer caça submarina, bem afastado do areal e tocaram-me nas costas. Assustei-me, pois não tinha sentido ninguém aproximar-se e a probabilidade de haver alguém ali, àquela distância da praia, era muito baixa. Aliás, aquela praia sempre me assustou. Sempre tive medo que surgisse um tubarão por detrás daquelas laminárias enormes e compridas que ondulam desde as rochas no fundo até à tona de água. Tocaram-me, assustei-me, virei-me e era um banhista francês, com uns óculos e tubo de mergulho, que me fez sinal para mergulhar e olhar para um buraco numa rocha. Assim fiz, e assim que assomei a cara ao buraco, assustei-me de novo: o buraco estava tapado com uma boca e uns olhos.

O buraco era ocupado por uma boca castanha enorme, de uma ponta a outra, com uns olhos pintados por cima. Não consegui pensar, afastei-me do local e subi os seis metros que me separavam da superfície. “E agora?”, perguntei eu ao francês. “Agora, dispara”, indicou-me ele.

Refeito do susto duplo, oxigenei o sangue durante um minuto, com umas inspirações prolongadas, enquanto refazia as ideias. O que eu tinha visto lá embaixo era um charroco enorme. Era o primeiro charroco que via dentro de água. Tinha a ideia de o charroco ser um peixe pacífico, relativamente lento, e portanto não deveria constituir perigo, apesar de ser grande e ter uma grande boca. Mergulhei, arpoei-o e trouxe-o para cima. Enquanto subíamos, não se mexeu. Lembro-me de o ver a rodar devagar em torno do arpão devido ao atrito da água. Quando o tirei para fora, sacudiu-se energicamente duas ou três vezes e parou.

Foi nessa praia, também, que cacei a única tremelga que alguma vez vi dentro de água. Nem me apercebi do que tinha apanhado, de início pensei que era uma raia. Só, mais tarde, já na areia, quando levei duas descargas elétricas na mão, que me deixaram o braço dormente, é que percebi que se tratava de uma tremelga.

Faltava pouco para chegar ao fim e já tinha desistido da ideia de voltar para trás até Sagres. Não que eu não conseguisse andar, mas as dores eram muitas e o risco de desenvolver uma qualquer lesão aumentava a cada minuto.

Pinheiro que foi crescendo, todo retorcido, sob a força do vento de Sagres
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Cheguei, enfim à extremidade do cabo de São Vicente, vindo de Tróia, após quatro dias e meio a caminhar, interrompidos por uma paragem em Vila Nova de Milfontes.

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Fui até ao ponto mais sudoeste possível e parei o registo do percurso que estava a ser feito pela minha aplicação HighWay Star. No passado era possível ir mais longe, mas o caminho para a ponta mais sudoeste estava bloqueado. Não era possível, sequer, ver o rochedo em forma de pénis ereto que fica dentro de água, no prolongamento sudoeste, a vinte metros do continente, e que costumava ser uma grande atração para os turistas.

Voltei para trás. Despi o casaco e sentei-me numa mini esplanada a beber uma cerveja, enquanto esperava pelo Carlos.

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