Tróia – Sagres – Epílogo

Na mesa ao lado, na esplanada, estavam três algarvios que falavam de pesca, de feiras e festas, e de mulheres descascadas. As mulheres iam passando, para um lado e para o outro, o que era um regalo para os olhos.

A certa altura, uma miúda espanhola que vinha a guiar, parou o carro no meio da estrada, saiu, deixou a porta aberta e veio até às rulotes comprar um refrigerante. Nenhum veículo conseguia passar – ela bloqueou a estrada nos dois sentidos – mas ninguém reclamou. Aquilo foi, no mínimo, falta de consciência cívica. Pode ter sido pior que isso, pode ter sido falta de respeito por nós portugueses: provavelmente não teria aquele comportamento na Alemanha.

O Carlos ainda demorou a chegar. Não consegui ficar à espera. Voltei a vestir o casaco e comecei a caminhar na direção de Sagres. Parei junto ao marco quilométrico, sentei-me e esperei ali.

Epilogo

Ele chegou por volta das 15h. Trazia o folar e a fruta, que eu comi durante o caminho.

Parámos no Cercal, para comprar uns bolos de amêndoa e uns bolos de torresmos. Outrora, os bolos de torresmos não tinham açúcar. Eram muito apreciados pelo pai do Carlos e por mim, em resumo, por velhos dinossauros que já não constituem o grosso do mercado gastronómico português. Para vender pratos tradicionais às novas gerações, é necessário torná-los doces, bonitos, enfim, descaraterizados. Infelizmente o açúcar tornou os bolos de torresmos intragáveis: a banha, com o açúcar e a farinha eram demasiado enjoativos. Não consegui comer um inteiro.

Adormeci pelo caminho e só acordei em casa. Quando tirei a tenda do saco, escorreu bastante água para o chão, talvez dois decilitros, provenientes da humidade acumulada na noite anterior.

Uns dias mais tarde, convidei o Carlos e o Raúl para uma ouriçada em minha casa, pelo grande apoio que me deram neste troço da empresa de percorrer o país a pé.

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