Monthly Archives: Outubro 2015

Ilhas da Ria Formosa – Epílogo

Tinha conseguido chegar ao fim, dentro do prazo previsto. Agora precisava de comer qualquer coisa e tentar chegar ao comboio.

Subi a rua principal e parei na primeira tasca. A cozinheira ainda não tinha chegado – só chegava ao meio-dia e meia – e tinham uma oferta muito limitada. Saí do estabelecimento a insultar toda a gente e parei no estabelecimento seguinte: “A Rota da Caravela”.

O atendimento foi o oposto do anterior. Embora a oferta fosse limitada também, foram extremamente amigáveis e ofereceram alternativas até me convencerem a ficar. Bebi duas imperiais de comi uma tosta – alimentos que, para mim, estão no limite do aceitável – mas adorei o serviço. Obrigado.

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Tive muita dificuldade em conseguir percorrer os dois quilómetros que me separavam da estação de caminhos de ferro de Vila Nova de Cacela. Com um esforço enorme e a arrastar-me, gastei vinte e sete minutos para percorrer os últimos dois quilómetros do percurso.

Ao chegar à estação, meti conversa com um habitante local, que também estava à espera do comboio.

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Mas estava tão cansado que me sentei no chão para refrescar e quase não me lembro do teor da nossa conversa. Recordo-me apenas de que ele se queixou da casa de banho estar fechada à chave e não poder ser utilizada. O edifício da estação também esá fechado.

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O Igor tinha ido de comboio até Faro, para procurar uma farmácia onde pudesse arranjar alívio para as feridas. A minha irmã foi-nos buscar a Faro e levou-nos até à praia do Ancão, onde eu tinha o carro. Depois fomos comer e beber a casa do meu pai no meio do barrocal algarvio. Chegámos a Lisboa na tarde desse domingo às 18h45m.

Umas semanas mais tarde, comecei a pensar num desafio maior ainda: percorrer toda a costa de Portugal a pé.

Ilhas da Ria Formosa – capítulo XIII

O décimo terceiro e último troço foi de Cacela até à Manta Rota.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap13.kml

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Início: 27-09-2015, 11:02
Velocidade média: 3.981 km/h
Tempo: 00h 30m 38.596s
Espaço: 2.033 km

À medida que me aproximada do final, o número de pessoas na praia ia aumentando. Desde uma praia quase deserta no início até um areal altamente povoado no fim, mas com umas dunas quase despovoadas a lembrarem que as pessoas vão, mas a natureza fica.

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O último quilómetro foi feito no meio de dezenas de banhistas, de início, e centenas, já no fim. Foi a praia mais concorrida de todas do percurso. Para mim não foi surpresa. A Manta Rota sempre foi a praia do povo, a praia com mais fácil acesso de todas as que percorri. A Armona e a Fuzeta também costumam ter muita gente, mas no fim de setembro, a frequência dos barcos já não é a mesma que no meio do verão. Além disso, cheguei à Manta Rota, às 11h30m de domingo, num dia de sol e temperatura elevada.

Todos em fato de banho e eu vestido da cabeça aos pés, protegido do sol, e com uma prancha de bodyboard debaixo do braço, num dia com uma ondulação marítima de vinte centímetros. Devia parecer o bobo da praia.

MantaRota-02

Assim que saí da areia, fotografei-me junto ao letreiro que anuncia o nome da praia, para provar que tinha conseguido chegar ao fim.

MantaRota-03

Ilhas da Ria Formosa – capítulo XII

O décimo segundo troço foi a passagem da barra Cabanas-Cacela por dentro de água.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap12.kml

Ilhas-mapa-12

Início: 27-09-2015, 10:21
Velocidade média: 2.117 km/h
Tempo: 00h 01m 36.930s
Espaço: 0.057 km

A água estava ainda parada, mas ia começar a correr daí a uns minutos. Vesti o fato de banho, arrumei a roupa na mochila impermeável, e atirei-me ao último troço na água.

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Eram apenas cinquenta metros e a altura máxima da água não chegava a um metro. Ainda assim, coloquei-me em cima da prancha e nadei, não fosse pisar um peixe aranha mesmo no fim da prova, e acabar por “morrer na praia”. 🙂

Ainda tinha dúvidas se aquela seria a última passagem de água a cumprir. Chegado ao outro lado, perguntei a uns banhistas que por ali estavam se dali até à Manta Rota o caminho era sempre pela areia, se já não havia água. Confirmaram-me que sim.

Ah! Então vou tomar o meu último banho de mar e depois termino. Dei uns mergulhos, nadei durante uns minutos e depois sequei-me, vesti-me e preparei-me para cumprir o último troço.

Ilhas da Ria Formosa – capítulo XI

O décimo primeiro troço foi a ilha de Cabanas, feito o mais rápido possível para tentar apanhar a barra seguinte ainda com maré vazia.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap11.kml

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Início: 27-09-2015, 08:36
Velocidade média: 4.895 km/h
Tempo: 01h 40m 28.115s
Espaço: 8.196 km

Ao chegar a Cabanas, voltei a vestir a roupa e calçar as sandálias, e recomecei a andar. Caminhei ao longo do pontão, para sul, mas percebi que o acesso à praia de mar estava completamente vedado. Apesar de ser domingo e de não haver ninguém a trabalhar na praia, ia ter dificuldades em aceder ao areal. Voltei, então para trás para passar a zona das obras pela orla norte da ilha, junto à ria.

Caminhei cerca de quinhentos metros pelo meio de grandes tubos com, talvez, setenta centímetros de diâmetro: uns ligavam a ria ao mar, outros corriam ao longo da orla da ria. Logo quase no início, estavam dois trabalhadores, junto de uma draga, que foram surpreendidos com a minha presença, mas que felizmente me deixaram passar. Todo o extremos udoeste da ilha estava em obras e a alternativa era nadar até ao continente e voltar à ilha quinhentos ou seiscentos metros mais tarde.

Assim que pude, quando já não havia obras, passei para a orla marítima. A maré estava bastante vazia e não se via ninguém até onde a vista alcançava. A paisagem, essa, estava repleta de pequenas maravilhas.

Minhocas de areia
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Uma alforreca em Cabanas
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A cerca de dois quilómetros do início do percurso, cheguei à praia de Cabanas. Eram 9h30m da manhã, não havia ainda ninguém na praia.

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Para a frente, a praia continuava vazia, e na areia ia encontrando itens interessantes.

Peixe que desconheço
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Um space invader
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Entretanto, entre a praia de Cabanas e a Fábrica, filmei-me em andamento.

Para conseguir chegar à Manta Rota por volta da hora do almoço, era necessário passar a barra de Cabanas-Cacela já com a maré a encher. Lembro-me de estar, uns anos antes, na praia da Fábrica e a água começar a correr com toda a força do mar para a ria. Algumas pessoas que estavam do lado de Cabanas foram surpreendidas pela maré e tiveram muita dificuldade em passar para o lado de Cacela. Nesse dia, eu tive que ir buscar a minha mulher e a água ainda só tinha chegado à cintura. Por esse motivo, não podia abrandar a passada, caso contrário poderia ter dificuldades na passagem da barra.

Pouco depois, cheguei a Cacela Velha.

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Não encontrei a barra até lá, mas não fiquei surpreendido, pois já me tinha acontecido algo parecido com a barra Armona-Tavira. Continuei a andar.

Um quilómetro mais à frente encontrei a barra. A maré ainda não tinha começado a encher. Despi-me e preparei-me para passar a última barra daquela aventura louca.

Ilhas da Ria Formosa – capítulo X

O décimo troço foi a passagem da barra Tavira-Cabanas (4 águas) a nado.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap10.kml

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Início: 27-09-2015, 08:09
Velocidade média: 0.962 km/h
Tempo: 00h 15m 54.016s
Espaço: 0.255 km

Depois de mais uma noite muito mal dormida, com um vento fresco a agitar os arbustos em volta e a acordar-me com ruídos estranhos, com medo de ser acordado com mordeduras dos ratos, com o cheiro nauseabundo das fezes enterradas, acordei antes das 6h da manhã e, quando me levantei já o Igor tinha tudo arrumado e pronto a partir.

Ficámos algum tempo a comtemplar o nascer do dia e a discutir estratégias. O Igor estava renitente em continuar, devido às feridas nas coxas. Eu, por outro lado, já não tinha nada que comer, só água. O Igor deu-me um donut e uma salcicha – coisas que nunca como – e foi esse o meu pequeno almoço.

Arrumei o saco-cama, coloquei a mochila às costas e caminhámos até ao cais de embarque da ilha de Tavira, que fica no extremo nordeste da ilha. O Igor deslocava-se com muita dificuldade e decidiu abandonar a empresa. Não consegui demovê-lo. Também não consegui arranjar uma forma de ele proteger as pernas de forma a poder continuar. Levávamos apenas o equipamento mínimo e nenhum desse equipamento era solução para as feridas que ele tinha desenvolvido.

Chegámos ao cais, já o sol batia de frente, quente. Apesar de ser domingo, havia uma draga à entrada da barra, dentro da ria, a escavar o fundo. Lá mais à frente, na ilha de Cabanas, havia obras também. Vários tubos largos, semelhantes aos que encontrámos na Culatra, estavam espalhados pela costa norte da ilha, que se encontrava toda vedada no extremo sudoeste.

Ainda tentei convencer o Igor mais uma vez: só faltavam dez quilómetros para terminarmos o percurso. Não consegui. Apesar de me doerem todas as articulações da cintura para baixo, incluindo as articulações társica e metatársica, e de ter imensa dificuldade em andar, decidi continuar, para não ter que voltar mais tarde para pôr fim àquele empreendimento. O Igor ia ficar à espera do barco-táxi e eu despi-me e desci para a água, com a mochila às costas e a prancha na mão.

A distância entre ilhas é cerca de cem metros, que eu levaria por volta de cinco minutos a fazer a nado. Apesar de quase não haver barcos a circular àquela hora – oito horas da manhã -, em cinco minutos podem aparecer várias lanchas rápidas, com condutores distraídos e passarem-me por cima. Segui, a pé, dentro de água, por cima do lodo, junto ao pontão, até ficar de frente para a ilha de Cabanas. Lancei-me à água, com receio que o manobrador da draga chamasse a polícia marítima. Não sei se é proibido atravessar a barra – há quem atravesse o Canal da Mancha – mas lancei-me com convicção. A meio da barra surgiu uma lancha rápida e eu bati os pés com força, para levantar água e assinalar a minha presença. Penso que o condutor me viu e passou ao lado.

Rapidamente cheguei a Cabanas. Subi até ao pontão e o Igor telefonou-me a dizer que me tinha visto a chegar, e a desejar-me boa continuação de caminhada.

Ilha de Tavira ao fundo. Autorretrato tirado à chegada a Cabanas
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Ilhas da Ria Formosa – capítulo IX

O nono troço foi a ilha de Tavira.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap9.kml

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Início: 26-09-2015, 18:56
Velocidade média: 4.441 km/h
Tempo: 02h 38m 09.739s
Espaço: 11.706 km

Enquanto caminhávamos, discutimos a situação do barco encalhado. A maré vazia era às 20h05m e o barco tinha encalhado por volta das 18h40m, ou seja, uma hora e vinte cinco minutos antes da maré. Só deveria voltar a ter o mesmo nível de água com que encalhou, lá para as 21h30m. E ainda iria enfrentar alguns bancos de areia, pois de noite é difícil escolher o melhor caminho no mar.

Caminhávamos depressa à espera de encontrar a barra Armona-Tavira, sem saber que já a tínhamos passado. Por duas vezes, pensámos que a estávamos a avistar. Por duas vezes, uma duna mais saliente fazia a areia entrar pelo mar adentro, e dava a sensação de que a ilha acabava aí.

Tavira-01

Mas passaram quatro quilómetros e a ilha pareceia não terminar. Convencemo-nos, então, de que já estávamos na ilha de Tavira e que a passagem anterior tinha sido a da barra Armona-Tavira. Comecei a pensar que poderíamos chegar à barra Tavira-Cabanas com a corrente ainda não muito forte.

Tentámos manter um ritmo de caminhada forte, mas as dores começavam a avolumar-se. Os meus pés tinham manchas de sangue sob a pele, na zona dos calcanhares. Tinham sido causadas pela velocidade excessiva, mas necessária, do primeiro troço, quando foi necessário chegar à Barrinha no estofo da maré vazia.

Entretanto calcei as sandálias velhas. Eram umas sandálias de couro muito velhas e secas, e abriram-me uma ferida por baixo do tornozelo. Felizmente, tinha levado pensos rápidos e coloquei um entre a ferida e o sapato. Mas os pés estavam muito inchados e doridos. Só conseguia alívio ao mergulhar os pés em água fria.

De vez em quando, descalçava-me e descia até à onulação para tentar amainar as dores dos pés. Bastavam trinta segundos ou um minutos dentro de água para conseguir algum alívio. Mas depois, tornava-se difícil recomeçar a andar. Doíam-me todos os músculos das pernas, assim como as articulações dos joelhos e das ancas. Parar era impossível, não parar também. Será que íamos conseguir chegar ao fim? Ainda bem que já só faltavam vinte quilómetros.

Numa das idas ao mar para mergular os pés, encontrei mais uma tartaruga morta. Como é possível haver tantas tartarugas mortas na praia? Encontrámos duas, no mesmo dia, a uma distância de cerca de dez quilómetros entre elas. Comecei a pensar que não era o acaso, nem uma coincidência. Serão apanhadas nas malhas dos pescadores, que depois as lançam no mar já mortas?

Tavira-02

O Igor também começou a queixar-se de dores. Caminhava com uns calções muito curtos e os músculos interiores das coxas roçavam um no outro. Acabaram por fazer ferida numa extensão grande, o que não lhe permitia andar sem sentir uma dor constante.

A maré começou a encher. Aos poucos íamos percebendo que as zonas mais planas de areia granular começavam a ficar cobertas de água. A água começou, então, a subir pelo plano inclinado de areia mais fina. Como as marés eram grandes – a lua cheia tinha sido na noite anterior – a água tinha chegado ao topo da praia na última maré cheia, por volta das 14h, e tinha criado um caminho plano, não inclinado, de areia um pouco mais dura do que o habitual. Decidimos caminhar por aí, para não caminharmos no declive que força as articulações das ancas e dos joelhos.

Chegámos ao molhe da ilha de Tavira por volta das 21h30m. Estávamos os dois completamente de rastos. Não tanto pela fadiga muscular, mas mais por causa das lesões que mencionei atrás.

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Já não havia luz. Olhei para a barra e a água já corria para dentro da ria. Tentei, por várias vezes, convencer o Igor a metermo-nos na água e passar a barra de noite, às escuras. Era sábado, de noite, era o dia de descanso dos barcos de pesca. Era muito raro ver passar um barco. Não consegui convencê-lo. Decidimos, então jantar. Eu tinha previsto jantar num dos restaurantes da ilha de Tavira, e já só tinha comida para mais uma refeição: o pequeno almoço do dia seguinte. Infelizmente, a época balnear na ilha de Tavira termina no dia 15 de setembro: deixa de haver barcos regulares, há apenas alguns restaurantes abertos e só servem almoços. Os poucos banhistas que a ilha recebe vêm em barco próprio, ou em barco-táxi.

Tive que comer a última bola de arroz e a última peça de fruta que levava. Na manhã seguinte, logo arranjaria qualquer coisa para comer.

Depois de comermos e descansarmos, fomos a custo à procura de alguém que nos transportasse para a ilha de Cabanas. Caminhávamos os dois com muita dificuldade: o Igor mais do que eu, mas nunca se queixou. Quando chegámos ao cais de embarque, metemos conversa com quatro ou cinco idosos que ali estavam a conversar, sentados em cima do pontão, a aproveitar a noite sem vento e de temperatura amena.

Perguntei-lhes se haveria alguém que nos pudesse levar até Cabanas – eram cerca de cem metros – e aconselharam-nos a telefonar para os barcos-táxi. Num poste metálico, junto a uma esquina do pontão, havia uma lista com vários números de telefone, mas ninguém atendeu. A minha intenção era passar para ilha de Cabanas ainda de noite e tentar caminhar até às 5h da manhã, dormir até às 7h30m e depois passar a barra Cabanas-Cacela com a maré vazia, de forma a chegar à Manta Rota o mais cedo possível. Mas nada corria a meu favor. O Igor não se queria meter na água de noite e os barcos-táxi não estavam disponíveis àquela hora.

Entretanto, chegaram dois pescadores num bote muito pequeno. Para além dos dois, o bote trazia muito material de pesca. Tinha um motor muito fraco e demorou algum tempo a encostar na areia. Fomos ter com os pescadores e expusémos-lhes a situação. Disseram-nos que era arriscado tentar passar a barra com aquele bote devido à forte corrente: o motor não era suficientemente potente para tal. Em alternativa, sugeriram-nos que falássemos com o dono de uma lancha que estava ali atracada. Era de alguém de Tavira, que ainda ali estava e que deveria ainda voltar a Tavira naquele dia.

Eram já cerca de 22h30m e fomos tentar encontrar o dono da lancha. Parámos primeiro no parque de campismo, onde pedimos para encher os cantis com água e procurámos pelo tal marinheiro. O segurança do parque perguntou, lá dentro, a uns clientes que responderam que ele deveria estar num restaurante mais à frente. Os restaurantes estavam todos fechados, mas um deles tinha gente lá dentro. Batemos e pedimos para falar com o dono do barco.

Não nos quis levar. Tinha estado a beber com os amigos e, pelos vistos, ia continuar a beber e a jogar às cartas. Perguntámos se podíamos comer qualquer coisa, ou comprar comida para levar, e negaram. Depois destas recusas todas, decidimos arranjar um sítio para dormir. Com a ilha tão vazia, não foi difícil.

Procurámos uma zona baixa entre as dunas, onde não fôssemos vistos pelos pescadores que estavam em cima do molhe, nem por algum turista desgarrado que se lembrasse de fazer um passio noturno.

A areia estava fria e ligeiramente húmida. Cavei à mão, um espaço que permitisse colocar a prancha, para não dormir em cima da areia. Deitei-me e tentei adormecer. Não foi fácil. Para além da grande luminosidade da lua cheia que já aparecia, bem visível, no alto do firmamento, o vento fraco, mas frio que vinha do mar, e que ao passar nos arbustos fazia-os sussurrar, tornava-se incomodativo. Por fim, infelizmente escolhemos um sítio onde os banhistas iam defecar, no verão, e o cheiro das fezes secas acompanhou-nos durante toda a noite, aumentando o mal-estar.

Ilhas da Ria Formosa – capítulo VIII

O oitavo troço foi a passagem da barra Armona-Tavira a nado.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap8.kml

Ilhas-mapa-08
Início: 26-09-2015, 18:09
Velocidade média: 2.274 km/h
Tempo: 00h 28m 39.002s
Espaço: 1.086 km

Quando deparámos com esta extensão de poças intervaladas por montes de areia, pensámos tratar-se apenas disso: um monte de poças. Mas não conseguíamos vislumbrar o fim das poças, e as dunas mais próximas, para nordeste para lá das poças, pareciam estar a mais de um quilómetro de distância. Ainda ponderámos avançar pelas poças sem nos despirmos pois a água não era muito profunda, tanto quanto a nossa vista alcançava. Mas se, mais à frente, a situação mudasse, poderia ser difícil mudarmos de roupa no meio da areia molhada, com os pés a enterrarem-se e sem um espaço completamente seco para pousarmos a mochila e trocarmos a roupa.

Saímos, então, preparados para águas profundas, pelo meio da água que serpenteava entre pequenos montes de areia. A água corria com força para o mar – a maré estava a vazar – e a configuração da areia e das poças mudava constantemente. Onde agora estava areia, daí a pouco era água, e a maior parte da areia estava tão solta e envolvida por água, que as nossas pernas se enterravam por vezes até ao joelho.

No meio da barra, com a ilha de Tavira lá muito ao fundo
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O caminho todo estendeu-se por mais de um quilómetro, e cerca de metade foi feito a andar a pé nestas areias móveis. À medida que nos íamos aproximando das dunas mais elevadas que se viam lá ao fundo a nordeste e que, segundo o mapa, ainda faziam parte da ilha da Armona sendo estas poças, por esse motivo, um acidente no percurso, começámos a aperceber-nos de uma corrente forte que corria da ria para o mar mesmo junto, e antes, das ditas dunas.

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Eram 18h20m e a maré vazia estava prevista apenas para as 20h05m. Por esse motivo esta corrente forte não era surpresa nenhuma. Mas nós não podíamos esperar que a maré vazasse, caso contrário, arriscávamo-nos a não chegar a tempo à barra Armona-Tavira que deveria estar dois a três quilómetros mais à frente, segundo o mapa. Caminhámos, então pelos montes de areia, no sentido da ria, quase para norte, de forma a apanharmos a corrente o mais dentro da ria possível pois, assim que entrássemos na água, seríamos arrastados para o mar. O objetivo era ir nadando para nordeste, à medida que a corrente nos arrastava para sul, e tentar chegar à areia seca antes de chegar ao mar.

Não foi fácil, foi um esforço intenso. Talvez o esforço mais intenso de toda a travessia das ilhas. Nadar contra a corrente é inglório e perigoso e aqueles foram, provavelmente, os quinze minutos mais , imprevisíveis e assustadores daqueles dias.

Virei-me para as dunas, nadei em frente e estava a ser arrastado, a grande velocidade, para o lado, para o mar aberto. Por mais força que fizesse, a bater os pés, a puxar com os braços, o deslizamento na horizontal era muito superior ao avanço para a frente.

Foram quinze minutos aflitivos, sempre com muita atenção, e a cada braçada corrigia as previsões sobre se seria possível chegar ao outro lado, se valia a pena o esforço, ou se desistia e arriscava ser arrastado para o mar para, depois, voltar a terra, a nado, para a praia.

Já estava perto, quando percebi que já tinha pé. Saltei da prancha e arrastei-me, à força de pernas, contra a corrente. Cheguei enfim à areia seca. Não me despi logo, pois pensei que a ainda esperada barra Armona-Tavira estivesse a uns dois quilómetros de distância.

Enquanto esperava pelo Igor, reparei num barco cabinado que tentava entrar pelo canal de água vazante, vindo do mar. A água saía da ria a grande velocidade e via-se, a cada minuto, o nível da água a descer. É normal que seja assim, estávamos numa semana de marés vivas.

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Mesmo junto ao mar o canal serpenteava duas vezes: primeiro para oeste e depois para leste. O barco entrou no canal, aparentemente sem problemas e com uma velocidade razoável, tendo em conta a corrente que lhe era contrária. Mas ao chegar a meio bateu num banco de areia, afocinhou de proa e levantou a ré. O comandante deu mais força ao motor, mas o barco não voltou a sair do sítio. Ainda adernou para ambos os lados, mas não se mexeu mais. Ao fim de dez minutos já tinha o hélice fora de água.

Entretanto, o Igor chegou. Subi até à areia seca para tentar avistar a barra Armona-Tavira, que, segundo o mapa e os meus cálculos, deveria estar a cerca de dois ou três quilómetros de distância. Não consegui vislumbrá-la. Decidimos vestir-nos para voltar a caminhar uma vez que a barra parecia estar ainda longe.

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Continuámos a caminhar, mas só bastante tempo mais à frente é que percebemos que já estávamos na ilha de Tavira. A força da água, e das correntes diárias, tinha dado uma configuração diferente às ilhas e à barra que as separa.

Ilhas da Ria Formosa – capítulo VII

O sétimo troço foi a ilha da Armona em duas partes: primeiro até ao restaurante, depois até à barra Armona-Tavira.

As imagens seguintes contêm os percursos registados pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

Os ficheiros KML dos percursos estão aqui: RiaFormosa-cap7A.kml e RiaFormosa-cap7B.kml

Ilhas-mapa-07A
Início: 26-09-2015, 14:37
Velocidade média: 4.314 km/h
Tempo: 00h 21m 41.696s
Espaço: 1.560 km

Ilhas-mapa-07B
Início: 26-09-2015, 16:26
Velocidade média: 4.582 km/h
Tempo: 01h 36m 34.128s
Espaço: 7.374 km

Eu tinha projetado almoçar num restaurante, aqui na Armona. Era uma das duas refeições que queria fazer fora, a outra seria o jantar na ilha de Tavira. Tinha levado comida para todas as outras refeições e apenas para essas.

Subimos a duna e vimos que o aglomerado de casas ficava a norte, mas teríamos que caminhar pela areia seca o que poderia tornar-se cansativo.

Chegada à Armona, com a povoação ao fundo
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Assim, decidimos continuar ao longo da costa, pela areia molhada. Era fim de setembro, fim das férias para muitos veraneantes, e por isso a praia estava quase vazia. Ao chegarmos ao canto sueste da ilha da Armona, estava um casal de nudistas a apanhar sol de barriga para o ar e de pernas abertas. Ela era jeitosa e deu-nos ânimo para continuarmos. 🙂

Virámos para norte e, uns duzentos metros mais à frente, perguntámos ao nadador-salvador onde se podia almoçar. Eram quase três horas da tarde e muitos restaurantes deixam de servir a essa hora. Além disso, a época alta já tinha terminado, portanto poderíamos ter dificuldade em encontrar refeições.

Indicou-nos um restaurante logo no início do aglomerado de habitações – o restaurante Santo António – e foi para aí que nos dirigimos.

A esplanada ficava a leste do edifício e, por isso, estava à sombra, àquela hora. Estavam duas mesas ocupadas. Numa delas estava um casal de estrangeiros pouco faladores, na outra um grupo de portugueses – turistas de profissão – que não se calou enquanto lá estivémos. Já tinham estado no México, em Cabo Verde, no Brasil, na ilha Margarita, e tinham um forte opinião formada sobre todos aqueles lugares, como se lá tivéssem vivido a vida toda. Custa-me ouvir parvoíces quando pretendo descansar e descontrair e, nem mesmo a frase de Cristo “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” me conseguiu aliviar a tensão.

Olhei para a ementa e decidi de imediato: “um bife de atum, por favor, e uma caneca de meio litro de cerveja”.

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Talvez a cerveja conseguisse descontrair-me os tímpanos e os meus ouvidos passassem a ouvir a fraca ondulação de vinte centímetros, a quinhentos metros de distância, na costa… E resultou: ou me descontraiu os tímpanos ou me aliviou o fígado, e os disparates vindos da mesa oeste deixaram de me incomodar.

O Igor aproveitou para carregar o telemóvel no restaurante: os empregados foram simpáticos e compreensivos.

O bife de atum vinha com uma apresentação gourmet… Nem mesmo no fim das férias conseguem fazer uma prato menos bonito e mais substancial? Eu estava à espera de um prato recheado de acompanhamentos: batatas e legumes cozidos, por exemplo, mas para além do atum, o prato trazia apenas umas fitinhas de qualquer coisa branca e meia rodela de tomate. Lá se foi a minha esperança de comer algo fresco, de ingerir potássio para compensar a perda de líquidos e equilibrar o sal do atum.

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Ainda tínhamos muito tempo até à próxima maré baixa e a barra seguinte estava a cerca de oito quilómetros, portanto não havia pressa. Bebi um café, fui à casa de banho, recostei-me na cadeira e, uma hora e meia depois de chegarmos, partimos outra vez.

Caminhámos pela praia durante meia hora. Subimos, então, a duna para ver o aspeto do interior da ilha.

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A vista era a paisagem típica das ilhas da Ria Formosa, pequenos arbustos, com um cheiro seco, muito seco, e ligeiramente doce, mas também muito caraterístico, proveniente da planta do caril, entre muitas outras.

Com a maré a vazar vão ficando gravadas, na areia, pequenas impressões, algumas delas muito curiosas e interessantes.

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A meio caminho da praia da Fuzeta, deparámos com uma visão pouco agradável: uma tartaruga morta no meio da areia. Já estava morta há uns dias, exalava um cheiro a defunto, a pele estava esbranquiçada e faltavam-lhe partes das extremidades.

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Já se viam pessoas a passear pela areia, pelo que devíamos estar próximos da praia da Fuzeta. Pouco depois, chegámos à zona balnear da praia da Fuzeta Mar.

Tirei tantos autorretratos – o seguinte até foi o primeiro de todos – que um indivíduo, aparentemente moldavo, se ofereceu para fazer a fotografia. Declinei agradecido, mas o meu gosto no que toca a enquadramentos não é muito comum, por isso prefiro ser eu a fotografar-me.

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Esperávamos que a barra Armona-Tavira fosse cerca de três quilómetros mais à frente, tal como vinha indicado nos mapas que consultámos. No entanto, as correntes marítimas e a maleabilidade dos cordões dunares, tornam a configuração e o formato das ilhas imprevisível.

Bastou um quilómetro e meio para chegarmos à nova barra. A princípio nem nos apercebemos de que seria a barra Armona-Tavira, pensámos que era apenas uma poça grande que teríamos que passar até chegar à barra mais à frente.

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Naquele bico de areia, extremo leste da ilha da Armona, estava um magote de gente a apanhar banhos de sol. Um sol que já tombava para oeste e começava a escassear. Enquanto nos preparávamos – despíamos a roupa e vestíamos os fatos de banho – ficaram a olhar para nós a tentar perceber o que iríamos fazer.

Vestimos os fatos de banho e metemo-nos na água. Percebi alguma surpresa nas caras dos banhistas, enquanto desaparecíamos água adentro, com uma mochila cheia de roupa às costas e uma prancha de bodyboard debaixo do braço.

Ilhas da Ria Formosa – capítulo VI

O sexto troço foi a passagem da barra Culatra-Armona a nado.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap6.kml

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Início: 26-09-2015, 13:58
Velocidade média: 2.126 km/h
Tempo: 00h 15m 58.643s
Espaço: 0.566 km

Enquanto esperávamos pela paragem da maré, passaram alguns barcos na barra Culatra-Armona. A barra tem cerca de 560 metros, precisaríamos de dez a quinze minutos para a atravessar a nado, e por isso havia o risco de nos cruzarmos com uma lancha, ou um barco de pescadores.

Pouco tempo antes de entrarmos na água, passou um barco de recreio perto de nós com uns indivíduos de aparência russa ou eslava: dois homens e uma mulher. A mulher ia à frente, no convés, em topless. Pararam umas dezenas de metros à frente, do lado da ria, saíram do barco, vieram até terra; ouvia-se o som das vozes deles, embora fosse incompreensível.

Quando a água deixou de correr, preparámo-nos para entrar – mochila nas costas e prancha na mão – e avançámos mar adentro. Entretanto, do mesmo lado de onde tinha vindo o barco anterior, chegou uma lancha da polícia marítima. Aproximou-se dos russos e parou. Interpelaram-nos e, antes que viéssem ter connosco e nos proibissem de atravessar a barra a nado, deitámo-nos em cima das pranchas e começámos a nadar.

Com maré cheia, a barra tem quinhentos e sessenta metros. Já tinha nadado mais de metade quando surgiu um barco de pescadores. Era uma barco cabinado e alto. Decidi bater os pés com força, para levantar água e tornar-me visível. Penso que ele me viu, pois desviou-se e continuou o caminho para sul.

Cheguei à ilha da Armona em quinze minutos. Pousei a prancha e a mochila e fiquei à espera do Igor, que se atrasou por ter algumas dificuldades em nadar com a mochila às costas. Entretanto o barco do pescador voltou para trás e não viu o Igor. Passou perto, mas sem perigo. Daí a pouco inverteu o rumo e voltou a navegar para sul. Aparentemente andava a pescar ali mesmo na barra, mas não viu o Igor e voltou a passar perto dele.

Um pouco mais tarde, o Igor chegou à Armona e sentámo-nos na areia a descansar durante uns minutos.

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Ilhas da Ria Formosa – capítulo V

O quinto troço foi a ilha da Culatra, com paragem a meio para pequeno almoço.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: RiaFormosa-cap5.kml

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Início: 26-09-2015, 08:36
Velocidade média: 2.827 km/h
Tempo: 02h 56m 31.618s
Espaço: 8.318 km

Chegámos à Culatra! Conseguimos passar a barra de Faro.

Um dia, há muitos anos atrás, morri ali; e voltei a nascer. Estava a fazer caça submarina do lado leste do molhe da Culatra/Farol e apanhei um polvo com três quilogramas e meio. O polvo era enorme e tive imensa dificuldade em dominá-lo. Tinha o polvo preso no arpão da espingarda e queria pendurá-lo na boia para poder continuar a caçar, mas o polvo era demasiado grande e rápido. Demorei talvez quinze minutos para conseguir fazê-lo. Era de manhã, numa lua de marés vivas e a maré estava a encher. Eu estava concentrado a lidar com o polvo e não dei conta de estar a ser, lentamente, puxado pela corrente. Quando me apercebi, já estava demasiado próximo da entrada da barra e a corrente era tão forte que, apesar do desespero com que bati os pés não consegui contrariar a força da água. Deixei-me levar e centrei a minha atenção em evitar embater nas pedras do molhe. Entretanto a boia ficou presa nas rochas. Tive que largar a arma, que estava atada à boia por uma corda com cerca de quinze metros, e deixei-me levar pela água. Passei ao lado de um cargueiro enorme, à entrada da barra, e depois junto a uma traineira. Acenei a pedir ajuda, mas o pescador acenou-me de volta, como se me cumprimentasse. As ondas eram enormes e tapavam-me a visibilidade. Olhei para o fundo e não vi nada, apenas água por ali abaixo: mais de cinquenta metros de profundidade. Desisti. Logo depois, já no interior da Ria, a barra alarga, a água tem mais espaço, a ondulação diminui e a corrente acalma. Nadei para o molhe. Entretanto a boia, que se tinha soltado, veio com a corrente e pude recolhê-la, assim como a arma e o polvo. Foi a segunda vez que nasci.

Chegámos à Culatra. O maior obstáculo estava vencido. Já nada nos podia parar, nem mesmo a próxima barra com mais de quinhentos metros de comprimento. Senti uma felicidade extrema e uma força enorme para continuar.

Chegada à Culatra
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Barra de Faro, uma barra concorrida. Aqui a Culatra, ao fundo a Barreta.
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Partimos, ao longo do molhe, a caminho do farol. Ainda não eram 9h e quase não se via ninguém, para além dos pescadores.

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Ao fim de um quilómetro, chegámos ao fim do pontão. Nesse local, para leste, para o lado do mar, estão as ruínas de um antigo pontão que, em 1984, ainda protegia uma pequena praia que tinha um acesso por uma escada de pedra, um pouco mais a norte.

Fotografia do pontão que protegia a prainha, durante uma agitação marítima de levante. Foto minha de 1984.
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Numa noite de agosto de 1984, por volta da meia noite, fui fazer caça submarina para a prainha. Cerca de meia hora mais tarde, ouvi um burburinho, vindo do pontão e tirei a cabeça para fora da água para tentar perceber o que se passava. Eram os meus parceiros de férias, que caminhavam pelo pontão, naquela noite sem lua, a gritar “invasão, invasão”. Prolongavam bastante a primeira sílaba, carregada talvez pelo vodca e pelo gin que tinham bebido no café da Associação dos moradores do Farol, e o som – caso seja possível reproduzi-lo em escrita – era algo como “in-iinn-vasão, in-iinn-vasão”. Voltei a mergulhar a cabeça, mas pouco depois o rumor aumentou de amplitude. Um deles – o Miguel – atirou-se para a prainha, na escuridão, de uma altura de quatro metros, e bateu com o calcanhar numa pedra. Gritou de dor, os outros correram a ajudá-lo, mas os sete decilitros de gin que tinha bebido depressa ajudaram a dor a diluir-se. Não sabemos se partiu o calcanhar – que inchou – mas coxeou durante o resto das férias.

Cerca de duzentos metros mais à frente, e um ano depois, junto escadas de acesso à prainha, sentei-me com o Joaquim a comer uma melancia de quatro quilogramas. Comemos metade cada um e ficámos a repousar durante mais de uma hora deitados com as costas em cima do cimento escaldante do pontão. A ondulação era fraca e a água tinha cerca de cinquenta centímetros, lá em baixo, junto às escadas que davam acesso à prainha. O topo das escadas elevava-se, talvez, dois metros e meio em relação à água, e quando vinha uma onda a água teria setenta e cinco centímetros de altura. Decidi mergulhar para a água a partir dali. Esperando que viesse uma onda, e saltando bem para a frente, podia chegar quase na horizontal, e compensar a baixa profundidade da água. Se tivesse visto o filme Mar Adentro, que só foi produzido vinte anos depois, talvez tivesse pensado melhor antes de mergulhar. Bati com a cara no fundo, raspei com o peito, fiquei a sangrar do nariz e com a boca cheia de areia.

Chegada ao farol
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A zona do balnear do Farol mudou muito desde que lá estive nos anos oitenta. As imediações do farol, antes despovoadas, têm agoras mais construções e estabelecimentos comerciais.

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Depois de passarmos o farol, descemos até ao areal e começámos a caminhada pela areia. A maré estava vazia, as dores nos pés pareciam ter acalmado, e a areia húmida estava suficientemente compacta para permitir caminhar a um bom ritmo.

Ao fim de quartrocentos metros, deparámos com uma obra no meio da praia.

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Um tubo largo e enorme descia pela areia, vindo das dunas, até ao mar. Passámos por cima do tubo e continuámos o percurso. Mais à frente, ouvia-se o som de uma escavadora, que espalhava areia pela praia. Um trabalhador da obra soprou um apito e obrigou-nos a contornar a obra pelo norte, pela zona das dunas. O caminho pela areia seca das dunas é mais difícil, pois os pés enterram-se e derrapam na areia. Fizémos cerca de seiscentos metros pela areia mole, até ao fim da obra, e depois voltámos à areia molhada.

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A cerca de dois quilómetros de distância do farol, fica a zona dos hangares. Outrora um local com meia dúzia de edificações para guardar equipamento de pesca, está agora transformado numa zona de suporte a turismo quase selvagem, com uma míriade de construções ilegais na zona da ria.

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Um quilómetro mais à frente, fica a zona balnear da povoação de Culatra. Parámos para tomar o pequeno almoço.

Eram 9h30m e não havia ninguém na praia.

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De leste a oeste, não se via uma única pessoa sobre a areia. A praia da Culatra tem esta caraterística: mesmo no pico do verão, há imenso espaço para desfrutarmos da areia, da água, da calmaria, e podermos ter realmente férias. E não há o risco de deixar de ser assim. Porquê? Porque para ir à praia da Culatra é necessário andar meia hora de barco – e só há barcos de duas em duas horas – e, depois, é preciso andar meia hora a pé até chegar ao mar. Tendo em conta que à maior parte dos veraneantes não lhe passa pela cabeça apanhar o barco das 7h da manhã, nem sequer o das 9h, terá que fazer o percurso debaixo da torreira do sol do meio-dia e nunca mais lá volta. 🙂

Quando estou de férias no Algarve, no verão, levanto-me às 5h45m para, depois de um percurso de cinquenta minutos na Via do Infante mais algumas estradas regionais, apanhar o barco das 7h da manhã, em Olhão, e ter uma praia de dez quilómetros só para mim durante duas horas. É esse o meu conceito de paraíso na Terra.

Aproximámo-nos da barraca de suporte à zona concessionada e parámos à sombra para tomar o pequeno almoço.

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O meu pequeno almoço foi uma bola de arroz e fruta. Enquanto comíamos, chegaram os banheiros que nos pediram para nos afastarmos da barraca, porque precisavam de trabalhar. Terminámos o pequeno almoço e fomos para o meio do areal. Tínhamos bastante tempo até à próxima mudança de maré e já não faltava muito para chegarmos ao extremo leste da ilha, por isso aproveitámos para descontrair.

Lavei os dentes, fiz uns estiramentos, dei uns mergulhos e fui aos sanitários.

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Os equipamentos de suporte têm vindo a aumentar na praia da Culatra, nos últimos anos. Inicialmente, era uma praia selvagem. Depois passou a ter o apoio de um nadador-salvador que vinha de Olhão todos os dias. Mais tarde, construíram uma passadeira de madeira, para evitar que os banhistas se deslocassem por cima das dunas, construíram os sanitários e a barraca de suporte às atividades balneares.

Tenho sentimentos mistos em relação a estas alterações. Por um lado, gosto do ambiente selvagem e natural que uma praia pode proporcionar; por outro lado, se a praia começa a ser mais frequentada, é bom que haja equipamentos de apoio, nomeadamente sacos para o lixo e recolha desse lixo, pois os veraneantes não são os seres mais conscientes deste mundo.

Povoado da Culatra, ao fundo
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Adoro a Culatra. Gosto de pessoas que têm uma vida independente, uma vida dura, e que lutam todos os dias para conseguirem colocar comida no prato. Os pescadores desde sempre tiveram a minha admiração.

A Culatra é a única povoação, das ilhas de Ria Formosa, com uma escola. Tal como os outros aglomerados de casas destas ilhas, não é considerado um povoamento legal, pela administração local e central. No entanto, a administração central construiu uma escola e um infantário, com professores e educadores pagos pelas entidades públicas; e, sempre que há eleições, há mesas de voto na ilha.

A casa de banho é outro dos equipamentos bem vindos numa praia que, apesar de ter um acesso difícil, tem bastantes visitantees, principalmente na hora de mais calor. Quando cheguei à casa de banho, a água corria pela sanita: o autoclismo estava avariado. Tentei compô-lo para evitar a perda de água – que é um bem precioso, no Algarve de verão -, mas precisava mesmo de ser substituído. Fechei a torneira e fui informar o responsável pela barraca da praia. Inicialmente recebeu-me mal, já nos tinha expulso de perto da barraca – deve ter pensado que ficámos por ali a dormir na noite anterior, que éramos uns vagabundos – mas depois, quando percebeu a minha preocupação, agradeceu-me – disse-me que já tinha comunicado aos responsáveis – e foi tentar reparar o autoclismo.

Espalhei protetor solar na cara, coloquei os óculos escuros, pois íamos caminhar contra o sol, que ao refletir na água multiplica a intensidade luminosa, pus a mochila às costas e recomeçámos a caminhada. Tínhamos cerca de cinco quilómetros pela frente, até à barra Culatra-Armona, e a mudança da maré era só daí a três horas.

Pelo caminho, encontrámos apenas uma mulher, que tinha entretanto chegado no barco das 9h.

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Mais à frente, a pouco mais de um quilómetro do final do trajeto, estava um sofá perdido nas dunas.

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Não consigo imaginar como terá chegado ali, mas aproveitámos para fazer a fotografia mais inesperada e improvável de toda a caminhada.

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Quinze minutos mais tarde chegámos ao extremo leste da ilha da Culatra. A corrente estava ainda bastante forte. Tivémos que esperar cerca de duas horas até a maré encher completamente e só depois pudémos atravessar para a Armona.

Na Culatra, com a Armona ao fundo
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A espera foi longa. Voltámos a barrar-nos com protetor solar e fomos várias vezes mergulhar para nos refrescarmos.

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