Tróia – Sagres – Cap. VIII

O oitavo troço do percurso foi em Vila Nova de Milfontes.

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Troia-Sagres-mapa-Cap9

Início: 25-03-2016, 16:08
Velocidade média: 4.839 km/h
Tempo: 00h 41m 41.030s
Espaço: 3.362 km

Parei no restaurante Porto das Barcas, no topo norte de Vila Nova de Milfontes, a quarenta metros do mar, com uma esplanada virada a poente: uma bela vista e à sombra, que era o que eu precisava para arrefecer o corpo e os ânimos. Entrei, encomendei e vim-me sentar na esplanada.

A costa alentejana está pejada de putos com aspeto de estarem bem na vida: ricos, com grandes carros e mulheres bonitas. Tinha sido assim em São Torpes, era agora assim em Milfontes. Detesto estes putos e o que eles representam, e os restaurantes que frequentam. Prefiro ir comer a uma tasca, com pessoas com vida. Pessoas que lutaram e sofreram para ter uma vida. Mas tinha feito um percurso de quase quinze quilómetros, os últimos a coxear com dores no joelho esquerdo, com um calor insuportável, e, além disso, tinha que ficar encontrável pelo Pedro. Os empregados do restaurante eram simples, mas profissionais. Trataram-me tão bem como a outro cliente qualquer. Eu ia todo sujo, com as calças de ganga com que reparei o carro e tratei da horta nos últimos doze meses, a cheirar a suor, com o cabelo desgrenhado: feio, porco, sujo e… com cara de mau. Mas fui atendido como um doutor.

Pedi um atum braseado – fixe, tinham atum! – e uma garrafa de vinho tinto Diálogo, Douro, 2013.

Quando a senhora me trouxe o vinho a provar, não me soube a nada. Aliás, soube-me a rolha. Mas disse-lhe que estava sem sabor por causa de ter estado a caminhar e que o vinho devia estar bom. Comi as entradas e, entretanto chegou o atum. Estava à espera de uma prato de atum tradicional, mas veio um prato moderno: um lombo de atum, tostado por fora e quase cru por dentro, cortado em rodelas. Vinha acompanhado de vegetais cozinhados – cozidos e salteados em azeite e alho – exatamente o que eu estava a precisar depois de estar a caminhar há três dias.

Entretanto o Pedro chegou. “Tio, é a última vez que me abandonas assim, sem me dizeres nada.” O quê? Um ultimato? Então e os ultimatos todos que eu não disse, mas que deixei transparecer? Por várias vezes mostrei estar chateado com as provocações dele, mas ele continuou, e agora estava a fazer-me um ultimato?

Provavelmente devia ter sido mais claro a manifestar a minha indignação, mas eu sou assim, não imponho a minha vontade a ninguém – exceto em caso de guerra – e só trabalho com pessoas inteligentes e construtivas; os outros abandono-os pelo caminho; que sejam comidos pelos leões.

Respondi-lhe: “então terminamos por aqui”.

“O quê?”, inquiriu ele surpreso. E refez a retorsão: “desistes?”

“Desistes?” pensei eu surpreso. Este sonho é meu e ele pergunta-me se desisto? Acabou-se a conversa.

“Nâo desisto, volto mais tarde para acabar”, respondi-lhe.

“Eu vou continuar”, disse-me ele e estendeu-me a mão.

Apertámos as mãos e ele foi-se embora.

Almocei bem. Almocei mesmo muito bem. Terminei com um café duplo e fui comprar o bilhete do autocarro para casa.

Cap8-Milfontes

O resto do percurso – até Sagres – será concluído em breve, assim que o meu joelho o permitir.

Tróia – Sagres – Cap. VII

O sétimo troço do percurso foi de Porto Covo até Vila Nova de Milfontes.

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Troia-Sagres-mapa-Cap8

Início: 25-03-2016, 09:54
Velocidade média: 2.945 km/h
Tempo: 04h 59m 38.576s
Espaço: 14.709 km

Saímos de Porto Covo próximo das 10h da manhã. Descemos até à praia, passámos pela areia molhada, pois estava varé vazia, e subimos pelo caminho que vai para a ilha do pessegueiro.

Cap8.PortoCovo

Caminhámos pouco mais de um quilómetro por uma estrada de terra até ao entroncamento com a estrada de alcatrão que vem da povoação da Ilha do Pessegueiro. Lá ao fundo, vinham cinco cavaleiros: um instrutor e quatro aprendizes. Continuámos pela estrada, seguidos pelos cavalos. Ao chegarmos ao forte que fica em frente à ilha, encetámos por uma estrada de terra novamente. Os cavaleiros seguiram-nos. O instrutor era um homem, jovem, que ia relatando alguns dados históricos sobre as construções que encontrávamos pelo caminho. As aprendizes eram todas mulheres, mãe e filhas, e sorriam para nó, de quando em vez.

Cap8-Forte

Um quilómetro abaixo do forte, passámos na praia do Queimado. Estávamos prestes a entrar no trilho da Rota Vicentina. Os cavaleiros tinham seguido para leste, por um caminho mais largo.

Cap8-Queimado

Não era minha intenção seguir a rota de ninguém, eu descubro as minhas próprias rotas, mas esta rota era um percurso conveniente, ao longo da costa – embora, com muitos troços de areia, que dificultam a locomoção – e, ponderando as vantagens e desvantagens, decidi continuar.

Cap8-Rota-1

Cerca de um quinhentos metros à frente, reencontrámos os cavaleiros. Na estrada de areia, estava um jipe parado. Avançou um pouco e parou de novo. Passámo-lo e chegámos a um cruzamento. O Pedro, apontou para a direita e disse: “Acho que por ali não há saída”. Estava lá outro jipe parado; entretanto o jipe anterior chegou e seguiu pela estrada “sem saída”; os cavaleiros fizeram o mesmo. Parece que a estrada “sem saída” era o trilho da Rota Vicentina. Mas nós continuámos pela esquerda.

Nesse trilho de ninguém, encontrei uma bota de bebé, número sete, feita na China. Alguém tinha ali parado e perdeu a bota do filho.

Cap8-Bota

O Pedro arrependeu-se e comentou: “provavelmente enganámo-nos, o caminho deve ser aquele do lado”. Eu nem respondi. Estava farto dos erros de navegação dele. E enquanto estivéssemos a andar para sul, eu não estava preocupado. Mais cedo ou mais tarde, haveríamos de encontrar o outro trilho.

Ao chegarmos à praia dos Aivados, voltámos a entrontrar os cavaleiros, vindos de oeste. Tentámos seguir em frente, por um caminho privado, mas os cães – pastores alemães – fizeram-nos reformular as nossas opções. Descemos para a praia, e passámos por cima de um riacho, para voltar a subir a falésia.

Cap8-Aivados-1
Cap8-Aivados-2

A paisagem, dali para sul, é inóspita e de uma crueza indescritível. Lascas de pedra, areia polvilhada com pequenos tufos arbóreos que sobrevivem a maior parte do ano numa secura quase absoluta. A única água que existe é a do mar e é salgada. Talvez de noite se formem gotícolas de água pura na areia por condensação e isso alimente aquelas plantas.

Cap8-Lascas

Andámos dois quilómetros pela falésia a desfrutar daquela paisagem acre e desafiante. Lá ao fundo, na praia, a maior parte do terreno tinha sido areia, entrecortado por duas ou três centenas de metros de pedras redondas. Na próxima caminhada, se estiver uma maré bastante vazia, vou pela praia.

Chegámos à praia do Saltinho que se liga a sul com a prai do Malhã e decidimos descer a falésia até à areia.

Cap8-Saltinho-1

Havia apenas um pescador na praia, em cima de uma rocha. O Pedro, já há muito que queria tomar banho de água doce e, em Porto Covo, os balneários públicos estavam fechados. Indiquei-lhe um chuveiro improvisado, que alguém montou na praia, e disse-lhe que se podia lavar ali. Era um tubo de polietileno preto que alguém colocou na falésia, para encaminhar a água que escorria pelo vale até à praia. Eu tinha o cantil cheio e não tinha sede, por isso não provei a água, mas o Pedro disse que era saborosa.

Entretanto, despi-me e fui até ao mar dar uns mergulhos nas ondas, entre as rochas, com um mar agitado e a 14ºC. Foi bom. Para não molhar a toalha nem os calções de banho, fui nu ao banho. Voltei, sequei-me ao sol, e voltei a vestir-me.

Cap8-Saltinho-2

Entretanto, o Pedro decidiu tomar duche, mas começaram a surgir caminhantes vindos de norte, da Rota Vicentina e a descer para a praia pela mesma encosta que nós usámos. O Pedro acabou por tomar duche por partes: primeiro a cabeça, depois o resto.

E aqui vai o vídeo do duche.

Descemos a praia do Malhão, até chegarmos às falésias de rocha. Subimos pela passadeira e continuámos o caminho.

Cap8-Malhao

Lá de cima, as praias do Saltinho e do Malhão têm um aspeto muito convidativo, limpo, puro e selvagem. Apareçam! Mas não estraguem.

Cap8-Malhao-2

Uns quinhentos metros mais abaixo, na Praia da Angra da Barreta, fotografei uma cegonha no ninho, no topo de uma rocha escarpada, no meio do mar. Não fui o único. Esta deve ser a atração mais fotografada da Rota Vicentina.

Cap8-Cegonha

Pelo caminho, encontrei diversos arbustos de camarinheira. Tinha esperança de encontrar, ainda, algumas bagas para comer. As camarinhas começam a surgir em setembro, mas já cheguei a colher vários quilogramas de camarinhas em março, no Carvalhal. Ao longo dos anos, apercebi-me que as camarinheiras que estão mais longe do mar, mantêm os frutos durante mais tempo no arbusto. Nós íamos a caminhar mesmo em cima da falésia, por isso, a esperança de encontrar bagas comestíveis não era muita.

Cap8-Camarinhas

Por fim, encontrámos uma camarinheira com uma dúzia de camarinhas, já com um aspeto de estarem secas. Não cheguei a prová-las, porque naquele momento, o Pedro voltou a destinar comigo. Ele nunca tinha ouvido falar de camarinhas, fui eu que lhas mencionei pela primeira vez. DIsse-lhe que começavam a aparecer em setembro, mas que já tinha colhido uns quilos em março. Eis quando, depois de ter procurado e encontrado umas camarinahs na árvore, o Pedro rematou: “acho que não há camarinhas agora; se dizes que aparecem em setembro, agora não há”.

Perdi o controlo, mas apenas internamente. “O que é que este puto quer? Ouviu bem o que eu lhe disse. Não conhecia as camarinhas. Tudo o que sabe sobre elas fui eu que lhe contei. Disse-lhe que já apanhei muitas em março. O que é que ele pretende? Provocar-me?” Apesar da irritação, continuei. Calado.

Parámos mais à frente, por cima da praia do Burdo, por volta das 13h, para o Pedro almoçar.

Cap8-Burdo

Eu ainda não tinha fome e queria ir comer a um restaurante em Vila Nova de Milfontes. Gosto muito de caminhadas longas – horas e dias sem er ninguém – mas gosto muito, também, de comer e beber boa comida e bom vinho. E se puder conjugar as duas coisas – o asceta e o mundano – acho que não há muito melhor que isto no mundo.

A descansar, enquanto o Pedro almoçava
Cap8-Almoco-1
Cap8-Amoco-2
Cap8-Amoco-3

Voltámos ao caminho e o Pedro voltou a desorientar-se com o rumo: andava para oeste, a caminho do mar, seguro de que estava a andar para sul. Não gostei, mas brinquei com a situação. Começava a ficar com fome e tinha receio de chegar a Milfontes e de não me servirem almoço. Eu queria almoçar bem: um prato cheio, escolhido por mim, e não os restos de um restaurante, servidos como um ultimato – “é isto ou nada” – como já me tinha acontecido várias vezes anteriormente.

E a disrupção definitiva aconteceu. O Pedro sugeriu que caminhássemos novamente por um caminho para oeste, para chegarmos a um trilho mais abaixo, e eu disparei: comecei a andar depressa para sul e não mais parei. Ele gritou por mim duas vezes: da primeira perguntou-se se eu ia almoçar; da segunda, apreveitei a deixa, e disse-lhe que ia comer. Fui depressa, muito depressa. Fiz aqueles últimos dois quilómetros em menos vinte minutos do que ele. Passei a direito por cima de tudo, e parei no primeiro restaurante que encontrei. Assim, ele conseguiria encontrar-me.

Tróia – Sagres – Cap. VI

O sexto troço do percurso foi da praia da Samouqueira até Porto Covo.

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Troia-Sagres-mapa-Cap7

Início: 25-03-2016, 08:45
Velocidade média: 3.857 km/h
Tempo: 00h 32m 00.705s
Espaço: 2.058 km

Acordámos tarde, no dia seguinte. Levantei-me pouco antes das 8h, comi uma bola de arroz e uma laranja, lavei os dentes e fui ver a praia.

Cap6-Samouqueira-1
Samouqueira-2

Assim que saí da tenda, passou um senhor idoso, no sentido norte-sul, seguindo por um caminho demarcado, do qual não tomei consciência no momento.

Mais tarde, vieram duas senhoras por esse caminho, também com vestes de treino desportista, atravessaram o parque de estacionamento renvado e continuaram a marcha, ao longo da falésia. Passaram junto às autocaravanas que estavam estacionadas na estrada de terra, desde a noite anterior, e seguiram na direção da grande duna a norte. Algum tempo depois, voltaram pelo mesmo caminho para Porto Covo.

Samouqueira-3

A praia da Samouqueira é a primeira praia, da costa até Porto Covo, do projeto de requalificação da costa alentejana. As praias de São Torpes, mais a norte, também foram requalificadas, mas não estão ligadas a esta. A última das praias com acessos melhorados, na zona de São Torpes, foi onde levámos dois tiros de caçadeira.

Da Samouqueira para sul, há um percurso limitado por uns rolos de um material plástico, que formam o caminho aconselhado aos caminhantes. Seguimos por essse trilho. Sensivelmente a meio do caminho fotografei a praia do Serro da Águia, que tem um aspeto convidativo, com maré vazia.

Cap6-SerroAguia

Em meia hora chegámos a Porto Covo. O Pedro foi abastecer-se a uma mercearia local e tentou, também, encontrar um balneário público para tomar banho. Eu fiquei sentado num banco de jardim, à sombra, a consultar a Internet, à procura de transportes que me levassem de volta a casa. Tinha uma moínha no joelho esquerdo e uma dor ainda maior na minha relação com o Pedro. Queria sair dali, mas o único autocarro, com destino a casa, tinha saído meia hora antes. Entre ficar um dia em Porto Covo à espera do autocarro do dia seguinte, e tentar chegar a Vila Nova de Milfontes a pé, decidi continuar a caminhar.

Artesanato em Porto Covo
Cap6-PortoCovo

Tróia – Sagres – Cap. V

O quinto troço do percurso foi de São Torpes até à praia da Samouqueira.

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Troia-Sagres-mapa-Cap6

Início: 24-03-2016, 18:34
Velocidade média: 2.304 km/h
Tempo: 03h 25m 17.652s
Espaço: 7.885 km

Deixámos São Torpes, pela estrada municipal 1109, com Sines pelas costas, e com o sol a perder força.

Cap5-STorpes-3

Antes da ribeira de Morgavel, o Pedro decidiu descer para a praia. Queria subir a falésia que limita a praia a sul, e queria fazê-lo pela praia. Sugeri-lhe que passássemos a ponte primeiro e descêssemos para a praia depois, para não termos que cruzar a ribeira na praia. Ele, cuja atitude começava a evidenciar uma teimosia surda, não acatou a sugestão. Descemos, então, à procura de uma passagem sobre a ribeira. Entre rochas, pedras e areia, acabei por meter a bota dentro de uma poça enorme. Mais à frente, farto das indecisões do Pedro, e dos erros de decisão, descalcei-me e passei a ribeira. Ele seguiu-me.

Irritado, subi a falésia com as botas na mão. Ao chegar ao topo, sentei-me, calcei-me e esperei pelo meu sobrinho.

“Aqui está o sítio ideal para montar a tenda, é plano e tem espaço”, disse ele assim que chegou. Era uma estrada no topo da falésia. Uma estrada de terra, com marcas de rodas de automóvel. O Pedro queria montar a tenda no meio da estrada. E, para além disso, no topo de uma falésia com a frente virada a noroeste, numa noite em que se esperava vento moderado precisamente de noroeste.

Já tínhamos discutido sobre a necessidade de proteger a tenda do vento e do som do mar, mas ele não parecia estar preocupado com isso. Primeiro, quis à força montar a tenda na praia, não percebi porquê: talvez por alguma ideia idílica de dormir na areia, ou para poder contar às amigas que dormira na praia. Disse-lhe terminantemente que não: o som da rebentação, com ondas de cerca de dois metros de altura, e o vento esperado de 20 km/h, não nos iam deixar dormir descansados.

Quis, então, montar a tenda no meio de uma estrada, no topo da falésia. Disse-lhe que não, também, e fui procurar um local mais abrigado. Subi uma duna e desci para uma zona mais abrigada, a cem metros da estrada de terra, mas ainda assim, virada para noroeste e vulnerável ao vento. Pousei a mochila, tirei o saco cama, descalcei-me e cortei as unhas que me estavam a incomodar, com a tesoura que o Raúl me trouxera.

Ele assobiou a chamar-me e eu assobiei de volta. Depois levantei-me e subi a duna. Já estava bastante escuro e pareceu-me que ele estava a montar a tenda. Pensei: “se queres ficar aí, fica”, e voltei para o meu lugar. Mais tarde ele apareceu no topo da duna e veio ter comigo. Ao ver-me instalado, perguntou-me se eu queria ficar ali a dormir, que ficasse, que ele iria, lá para baixo, para a estrada. Por um lado era o que eu queria, mas não desejava abrir ali uma fratura na relação e concordámos em ir procurar outro sítio.

Voltámos à estrada de terra e caminhámos mais um quilómetro para sul até chegarmos a uma estrada de alcatrão. Mias à frente, sentámos-nos no parque de estacionamento de um restaurante para jantar. Comi mais duas bolas de arroz, uma maçã e uma laranja. Enquanto comia, consultei o mapa no tablet e percebi que estávamos numa estrada sem saída, junto à praia da Vieirinha.

Após o jantar, fomos novamente à procura de um sítio para montar a tenda. Subi uma duna, logo por trás do restaurante, mas o Pedro não me acompanhou logo. Parecia não estar interessado nas minhas escolhas. Subiu pouco depois. Descemos, então a duna, para leste ao fundo encontrámos um espaço abrigado do vento e dos poucos olhares que pudessem trasitar pela estrada por onde tínhamos chegado. “Se não encontrarmos um sítio melhor, ficamos aqui”, disse o Pedro. Pareceu-me razoável, pelo que o segui na procura de outro lugar. Ele queria ir até ao fim da estrada e, aí, procurar outro sítio por trás das dunas. Assim fizémos.

Estávamos a subir uma duna no ponto 37°53’43.8″N 8°47’43.9″W, quando o Pedro, ao apontar a lanterna para sul, viu três pessoas. Eu vi duas pessoas, mas ele disse que viu uma terceira. Na realidade apenas vimos duas barras refletoras no fundo das calças desses indivíduos, que se moveram, o que nos permitiu confirmar que era gente que ali estava.

Estavam a cerca de trinta metros uns dos outros, tendo eu visto um deles em 37°53’41.4″N 8°47’43.2″W.

De repente, soaram dois tiros de caçadeira na noite. Nós estávamos iluminados pela lua cheia que se tinha levantado há pouco e, por isso, atirei-me de imediato para o chão. O Pedro ainda demorou algum tempo a reagir. Ainda assim, não me sentia seguro, pois o nosso perfil podia ser visto, uma vez que estávamos em contraluz em relação a um monte de areia, iluminado, mais a norte. Corri agachado, contornando a duna até ficar fora da vista dos indivíduos. Gritei ao Pedro para correr também, mas o Pedro demorou algum tempo a reagir, de novo.

Ao chegar à terra plana, caminhámos para a estrada, sempre para nordeste, de forma a ficarmos ocultados pela duna. Na estrada M1109, rumámos a sul, apressados, curvados e sem ruído, até nos sentirmos fora de perigo. Foi a primeira vez que dispararam contra mim, e devo-o à teimosia absurda do meu sobrinho.

Fizémos trezentos metros e entrámos em Porto Covo. Não a povoação – até lá ainda faltavam cinco quilómetros -, mas talvez a freguesia.

Tirei uma fotografia junto da placa da povoação e, logo de seguida, quase fui atropelado por um automóvel que efetuava uma ultrapassagem a mais de 100 km/h: tocou-me de raspão no casaco, e as rodas passaram a dez centímetros dos meus pés. Atribuí mais este incidente à teimosia do Pedro. Posso ter exagerado nestas imputações, mas nada disto se teria passado se tivéssemos estendido a tenda no lugar que eu sugeri.

Cap5-PortoCovo

Andámos, ainda, mais de três quilómetros até encontrarmos um sítio abrigado para dormir.

Os campos junto à estrada estão vedados com cercas eletrificadas para impedir o gado de sair. Pelo caminho, ouvimos os chocalhos das vacas e bois, e vimos muitos deles em sombras chinesas, contra a luz da Lua.

A certa altura, o Pedro perguntou-me onde ficava a estrela polar. Virei-me para trás, identifiquei a constelação da Ursa Maior, segui a direção das duas estrelas periféricas do retângulo, cinco vezes a sua distância e apontei para a estrela polar. Devido à luminosidade da Lua, a estrela Polar era a única estrela, da Ursa Menor, visível naquele momento.

A estrela polar estava quase alinhada com a estrada por onde seguíamos, mas no sentido oposto, pois a estrada está quase alinhada com o sentido norte-sul.

“Não é nada”, disse o Pedro. “Aquilo não é a estrela polar. A estrela polar está ali.” E apontou para a zona da Lua que tinha nascido há pouco mais de uma hora e devia, por isso, estar a 20º do horizonte. “No norte, quando está lua cheia, não é possível ver a estrela polar”, rematou.

Expliquei-lhe que a estrela polar indica o norte e que a Lua nasce a leste. Perguntei-lhe, então, se o mar, que estava à nossa direita, estaria, por essa ordem de ideias, a sul. Disse que sim.

Tenho quase a certeza de que me estava a provocar. Ou isso, ou então atingiu – antes de mim – o ponto de rotura do stress de estarmos a conviver continuamente, sem descanso, há quase dois dias. Comecei a ficar farto do miúdo. Não só tomava decisões erradas e perigosas, por teimosia, como parecia estar a provocar-me propositadamente.

Entretanto, a Teresa ligou-me e pu-la a par da situação. Falei-lhe também do meu joelho. Ela sugeriu que eu abandonasse a caminhada no dia seguinte, alegando dificuldades com o joelho. Já tinha pensado abandonar, por esses dois motivos: pela dificuldade de relacionamento e por causa das dores no joelho esquerdo. Decidi pensar com calma no assunto.

O local onde eu tinha pensado montar a tenda foi um dos últimos com dunas onde nos poderíamos abrigar do som do mar e do vento. Eu tinha dito isso ao Pedro. Dali para a frente, a estrada tinha cercas dos dois lados, com gado e sem dunas que formassem vales para montarmos a tenda. Propus irmos para o parque de campismo de Porto Covo, o que o Pedro recusou.

Não tinha ideia de que existisse, até Porto Covo, um local seguro para pernoitarmos: um local sem vento, afastado do mar e longe da estrada. Tinha esperança de chegar a Porto Covo e ir mesmo para o parque de campismo.

Já passava das 22h quando o Pedro sugeriu que ficássemos a dormir no parque de estacionamento da praia da Samouqueira. Havia, mesmo por cima da falésia, uma fila de acácias curvadas que nos poderiam abrigar do vento. O ruído do mar, esse iria ser uma constante ao longo da noite. Ao som do mar acresceu um ruído surdo de máquinas, talvez vindo de Sines, arrastado pelo vento; de tal forma que parecia que estávamos a dormir dentro de um cargueiro, com o som do motor a trabalhar a noite toda.

Tróia – Sagres – Cap. IV

O quarto troço do percurso foi de Sines até São Torpes.

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Troia-Sagres-mapa-Cap5

Início: 24-03-2016, 15:56
Velocidade média: 3.36 km/h
Tempo: 02h 17m 28.880s
Espaço: 7.698 km

Este troço começou mal. Não sei o que se passou, mas o Pedro começou a desatinar. Saímos do hipermercado, onde o Raúl nos deixou antes de partir para Lisboa, e o Pedro quis andar para nordeste, quando o rumo devia ser para sudoeste. Precisávamos de contornar os hipermercados para caminharmos para sul. Na minha opinião devíamos fazê-lo por sudoeste mas, em condições normais, não gosto de impor a minha vontade a ninguém, por isso, apesar de contrariado, deixei-o tomar as decisões que entendesse.

Quem participa em projetos comigo tem que ter capacidade de decisão e discernimento, para que o grupo seja mais do que apenas um aglomerado de indivíduos. As pessoas cometem erros, mas quando chamadas à atenção, devem ponderar as opiniões dos outros.

Contrariado, encetei a caminhada no sentido nordeste. Uns metros mais à frente, indiquei-lhe um atalho, mas o Pedro disse que não havia passagem. Eu vi, claramente que havia passagem, mas não insisti. Mais à frente, virámos para sudoeste e confirmámos, os dois, que havia passagem.

Contrariado, em Sines, numa rotunda com passadeira circular
Cap5-Sines-1

Cruzámos Sines de norte para sul, dos hipermercados até à Quinta dos Passarinhos. O mapa indicava que devíamos subir duzentos metros para nordeste, para nos mantermos na estrada, mas o Pedro insistiu em seguir no sentido oposto. Avisei-o de que não havia caminho, de que estávamos numa zona elevada de Sines, e que mais à frente iríamos encontrar a falésia. E havia a possibilidade de não podermos descer a falésia. O Pedro brincou com a situação: “Se não houver caminho, voltamos para trás!”

A rua Raúl Solnado não tem saída. Ao chegar ao fundo da via, entrámos por um campo cultivado, o único que não estava vedado, e caminhámos para es-sueste, a direção possível. Foram setecentos metros a caminhar sobre torrões de terra, com trigo pelo meio das pernas. Um esforço que poderíamos ter evitado – que deveríamos ter evitado – se queríamos concluir o percurso até Sagres. Além disso, um terreno tão irregular como aquele podia causar-nos lesões nas articulações.

Sines rural
Cap5-Sines-2

Quase a chegarmos ao fim, o Pedro gritou: “Tio, estamos lixados. Não há saída”. Eu ia à frente dele, talvez uns cinquenta metros, portanto não percebi como ele tinha concluído isso. Estaria ele a ver alguma coisa que me tivesse escapado? Acelerei o passo e avistei uma estrada, na mesma direção em que seguíamos, que descia a encosta até quase à cota do mar. Tivémos sorte, depois daquele esforço todo, não foi necessário voltar para trás.

Farto de perder tempo, e com a bexiga cheia, decidi urinar enquanto andava, para não perder mais tempo. 🙂

Cap5-uninar

Na A26-1, de novo, caminhámos na direção de São Torpes, com as canas a rebentarem por debaixo do alcatrão.

Cap5-canas

Gostava de ter ido pela praia, mas o acesso estava vedado com uma cerca, a distância até ao mar ainda era longa e o terreno muito arborizado, e, por fim, seria necessário passar a vedação da linha de comboio. Mais à frente, teríamos que voltar à estrada, para passar a ponte sobre as águas que fazem o arrefecimento da central termoelétrica de São Torpes.

O Pedro insistiu em ir pela praia. Consegui, com muita insistência, demovê-lo. Mas a teimosia dele deixou-me irritado.

Cap5-STorpes-1

Em São Torpes parei no primeiro botequim para beber uma cerveja, e comer uns tremoços. Não foi por sede ou por fome. Foi, ao invés, uma forma de assinalar um conseguimento, a chegada a uma nova etapa, a chegada à zona balnear, mais ou menos selvagem, que se prolonga por sete quilómetros até Porto Covo.

Paro sempre neste bar. A primeira vez que passei em São Torpes, há cerca de vinte e cinco anos atrás, entrei no estabelecimento e reparei que serviam postas de moreia frita. Comi duas ou três postas, com a Teresa, acompanhadas de cerveja. Desde então, tenho voltado aqui à procura de moreia frita, mas só por mais uma vez tive a sorte de encontrar este petisco regional.

Cap5-STorpes-2

Com a cerveja a borbulhar no estômago, e o sabor amargo dos tremoços na boca, ganhei ânimo para mais uns quilómetros a carregar a mochila às costas, em cima dos ombros cada vez mais doridos à medida que avançávamos. O sol estava quase a pôr-se e precisávamos de encontrar um sítio para dormir.

Tróia – Sagres – Cap. III

O terceiro troço do percurso foi de Melides até Ribeira de Moinhos (Sines).

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Troia-Sagres-mapa-Cap4

Início: 24-03-2016, 07:20
Velocidade média: 3.762 km/h
Tempo: 05h 40m 14.260s
Espaço: 21.333 km

Passámos Melides e, à saída, no entroncamento da EN261 com a saída para a praia de Melides, encontrámos um local rebaixado, escondido dos olhares de quem passava na estrada. Parámos aí e jantámos. O Pedro montou a tenda debaixo de uma azinheira e fomos dormir. A tenda dava apenas para duas pessoas, sem espaço para as mochilas, botas ou sapatos. O sítio não era suficientemente escondido para eu deixar a minha mochila e as minhas botas fora da tenda, por isso, preferi dormir encolhido e acomodar a mochila e as botas na minha metade do espaço interior.

Pus o telemóvel e o tablet a carregar na bateria de chumbo e deitei-me. Estava frio. Tinha levado um saco cama quente e deitei-me com calças, meias e t-shirt. A meio da noite, a temperatura desceu e tive que vestir o casaco e colocar o gorro de lã. Apesar de estarmos a quatro quilómetros do mar, o ruído das ondas foi constante durante toda a noite.

Acordei várias vezes durante a noite com o vento e o frio. A dada altura, desliguei os dispositivos da bateria. Voltei a ligá-los às 5h20 e já não dormi mais. Às 6h15 levantei-me, comi uma bola de arroz e uma tangerina, lavei os dentes e esperei que o Pedro estivesse pronto para continuarmos.

Às 7h10 fui colocar as latas do jantar do Pedro no lixo e às 7h20 partimos para Sines. Às 7h48 filmei alguns automóveis que passavam depressa por nós.

Um pouco mais à frente, no cruzamento com a A26-1, apeteceu-me cantar o La Radio, do Eugenio Finardi.

À chegada aos Brescos, cortámos caminho por uma estrada de terra para evitar os automóveis que passam depressa e sem respeito pelos transeuntes. O silêncio e a frescura do campo pela manhã são revigorantes e não têm preço. Pena foi que só tenhamos tido um quilómetro de descanso.

Cap4-Brescos-1

Apesar das crises e de todos os tumultos financeiros em que vivemos, os sobreiros continuam a ser descascados na altura certa, como se a loucura do fundamentalismo económico não conseguisse penetrar nos rudimentos mais básicos da vida das comunidades.

Cap4-Brescos-2

O Pedro bebe muita água e precisou de encher as garrafas. Encontrámos uma senhora idosa, à porta de casa, a estender a roupa lavada, e o Pedro pediu-lhe água. Ela acedeu e até leh perguntou se eu não queria água também. Ele respondeu-lhe que eu não bebia muito.

Desde o início da caminhada, eu tinha apenas bebido um litro de café, mas a água ainda estava intacta no cantil. Levava um litro de água e ainda não a tinha usado, a não ser um pequeno golo para lavar os dentes. Não bebi água, mas comi apenas arroz, vegetais e fruta, ou seja, água!

Enquanto a senhora enchia as garrafas ao Pedro, fotografei-lhe o jardim.

Cap4-Brescos-3

A estrada A26-1, logo após Brescos, não tem berma para os peões. Temos que andar pela estrada e, sempre que necessário, resguardarmo-nos em cima das ervas rasteiras ou dos arbustos que ladeiam o alcatrão. Por vezes, há uns brincalhões que gostam de nos ver saltar para os arbustos, e foi o que me aconteceu nesta estrada, em que quase fui atropelado.

Ao longo da estrada, os postes de eletricidade e de linhas telefónicas têm sportes metálicos no topo para as cegonhas fazerem ninhos. Vimos várias dezenas de casais de cegonhas nos topos dos postes, neste estrada.

Cap4-Cegonhas

De repente, ao chegarmos a Santo André, aquela estrada estreita e sem bermas desembocou numa rotunda enorme e, do outro lado, tinha início uma autoestrada. Ficámos sem saber por onde seguir. Não consegui encontrar no mapa uma estrada alternativa. Pensámos prevaricar e seguir a pé pela autoestrada, pelo menos até encontrarmos uma via paralela que seguisse o mesmo rumo. Mas entretanto percebemos que a autoestrada ainda não tinha sido aberta: estava a funcionar em modo provisório, com uma faixa única em cada mão, e com um limite de velocidade de cinquenta quilómetros por hora. Havia pessoas a passar a pé e ciclistas nas bermas. Decidimos ir também.

A estrada era tão recente, que ainda se viam os desenhos pintados no chão, que assinalavam os locais onde deveriam ser colocados os sinais de trânsito. Fotografei um desenho de um sinal de cedência de prioridade a 100 metros.

Cap4-A26-1

A futura autoestrada A26-1 passa dentro de Santo André, cortando-a ao meio. Tem alguns viadutos que possibilitam aos santoandrenses passarem por baixo da A26-1 e deslocarem-se entre Santo André Leste e Santo André Oeste, mas todos os anteriores cruzamentos de nível foram eliminados. Será também este o procedimento em cidades maiores, ou há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda categoria no país? Lembro-me, por exemplo, do eixo norte-sul, na zona do Lumiar, em Lisboa, que foi todo construído em cima de um viaduto com alguns quilómetros de comprimento, para não cortar a cidade ao meio. E, além disso, foram colocadas barreiras sonoras, para minimizar o impacto do ruído sobre a população.

Santo André foi construída de raiz, na década de 1970, para alojar os trabalhadores da região industrial de Sines. Foi projetada para cem mil habitantes, mas não chegou a passar dos quinze mil. [1] [2]

A primeira vez que estive em Santo André, foi em 1984, quando terminei a primeira caminhada vindo de Tróia pela areia, com a minha irmã mais nova, o Luís e o Paulo. Tive a sensação de a cidade, então vila, ser um projeto abandonado: casas vazias, por habitar, ninguém nas ruas, ruas por limpar. O vento e o silêncio haviam tomado conta de todo aquele espaço: desolador. Um projeto falhado, ou abandonado pelas entidades decisoras?

Voltei a Santo André há dois anos e estranhei a diferença. Era uma cidade viva, embora não consiga perceber de que vivem os habitantes. Qual é o motor daquela região? As indústrias de Sines? Talvez. Mas ainda assim fiquei com a sensação de uma cidade falsa, tal como a nova Aldeia da Luz, para onde foram empurrados os habitantes da velha aldeia inundada pela bacia do Alqueva.

A autoestrada que corta Santo André é o corolário desta impressão de terra abandonada: uma impressão que eu tenho, alimentada pelos sinais que fui colecionando desde há anos; a impressão de uma terra e uma população desrespeitada.

Vila Nova de Santo André, vista da A26-1
Cap4-SantoAndre

Continuámos pela A26-1 durante uns quilómetros. Apesar do limite de velocidade de 50 km/h, os veículos passavam a alta velocidade, o que não me deixava seguro nem descansado.

Parámos debaixo de um viaduto, à sombra, para descansar. Caminhar debaixo daquele sol, com a mochila às costas e com botas pesadas e fechadas até acima do tornozelo, era um martírio. À sombra estava frio, e o vento que soprava ligeiro ajudou a recuperar o ânimo. Descalcei-me, despi o casaco e massagei os pés. Apetecia-me ficar ali durante mais tempo, mas tínhamos que continuar. Consultei o mapa no tablet e percebi que havia uma estrada paralela, a oeste, que acompanhava a autoestrada até Sines. Decidimos, então, abandonar a A26-1 e passar para a estrada alternativa.

Saltámos a vedação. Primeiro saltou o Pedro; depois eu passei-lhe as mochilas; e, por fim, saltei eu. Quando estávamos do outro lado, percebi que tínhamos passado para a estrada que fica a leste. Aquela estrada, apesar de paralela à autoestrada, não ia até Sines, por isso decidimos saltar de novo para a A26-1, passar o separador para as faixas descendentes, e saltar de novo a vedação para o caminho a oeste.

Era uma estrada de terra e cascalho: árida, seca, coberta de poeira branca. Foi um percurso difícil. Talvez o pior de toda a caminhada. Doía-me o joelho esquerdo e fiz o caminho todo a coxear, a arrastar-me. O ritmo baixou para menos de 4 km/h.

Passámos junto de duas casas abandonadas: a primeira, de 1957, e a segunda, mais à frente, de 1958.

Cap4-Casa-1
Cap4-Casa-2

Parámos junto a uma estrutura de betão, onde me sentei para massajar as pernas. Procurei um ramo de árvore fino e forte para aplicar uma técnica de acupunctura: estimular o ponto E36 do meridiano do estômago, um ponto muito utilizado pelos orientais desde há séculos, para aumentar a capacidade de caminhada.

Para encontrar este ponto, com a perna esticada, coloca-se a palma da mão sobre a rótula, com os dedos para baixo, sobre a perna. Deixa-se o dedo médio entre a tíbia e o perónio. No local onde a ponta do dedo médio cair, junto da tíbia, fica o ponto E36 (ponto nº 36 do meridiano do estômago).

estomago36

Espetei o pau neste ponto durante um minuto e depois massagei-o, pressionando, durante dois a três minutos.

É uma técnica tonificadora do organismo e do sistema de locomoção muito mais eficaz do que ingerir bebidas energéticas, ou do que outras técnicas químicas ou artificiais. Já o tinha feito na travessia das ilhas da Ria Formosa, onde estimulei este ponto com o bico de uma concha partida.

Mais recentemente, nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, alguns atletas estão a utilizar técnicas de medicina chinesa tradicional com os mesmos objetivos. [ver DN]

Com muito esforço, chegámos à saída nº1 da autoestrada, para Ribeira de Moinhos. O caminho para Sines, por Ribeira de Moinhos, permitia poupar dois quilómetros, pelo que saímos da estrada paralela à autoestrada e seguimos para a direita.

Cap4-RieiraDeMoinhos

Era quase uma hora da tarde. Pelo caminho tinha telefonado ao Raul, que tinha combinado almoçar connosco em Sines. Estava na A26, quase a chegar a Sines. Subiu para a A26-1 e virou na primeira saída. Foi ter connosco a Ribeira de Moinhos e deu-nos uma boleia de dois quilómetros até Sines.

Em condições normais não teríamos apanhado boleia, mas o Raúl tinha pressa em almoçar pois tinha que voltar a Lisboa para jantar com os filhos. A boleia pareceu-me a decisão mais acertada para não atrasar alguém que tinha vindo de propósito só para almoçar connosco, fazer-nos companhia e dar-nos ânimo nesta caminhada louca.

Ia à procura de atum – a primeira vez que almocei em Sines comi um excelente bife de atum – mas não tínhamos muito tempo disponível para andar à procura de atum pelos restaurantes de Sines, por isso, ficámos no primeiro que encontrámos.

Almoçámos no “Baía de Sines”. As entradas foram mexilhões fritos e duas postas de moreia frita. O meu almoço foi polvo frito com alho e uma garrafa de 37,5 cl de Borba tinto 2006. Um vinho com 10 anos, com um toque de envelhecido, mas ainda suficientemente fresco para cortar a gordura da refeição. Fiquei satisfeito.

Durante o almoço, o Raúl, cujo pai foi uma alta patente do Exército, contou que em guerra, as marchas têm o limite de doze quilómetros diários, para evitar lesões nos soldados. Nós tínhamos andado quarenta e três quilómetros no dia anterior e, nesse dia, já íamos com mais de vinte e um. E o meu joelho esquerdo já me estava a dificultar a deslocação.

O Raúl propôs-nos levar-nos de volta. Ponderei a proposta, mas recusei e decidi continuar. Obrigado, Raúl, pela companhia e pelo apoio.

Cap4-Moreia

Tróia – Sagres – Cap. II

O segundo troço do percurso foi do Carvalhal até Melides.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap2.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap3

Início: 23-03-2016, 13:48
Velocidade média: 3.948 km/h
Tempo: 05h 11m 38.295s
Espaço: 20.507 km

Durante o percurso até ao Carvalhal, devo ter comido duas peças de fruta – uma tangerina e uma maçã reineta – e bebido meio litro de café frio que levei de casa. À chegada ao Carvalhal, não estava a “morrer de fome”, mas era uma hora da tarde, e era a hora certa para fazer uma refeição mais forte.

Entrámos no Carvalhal por noroeste, vindos dos campos de arroz, do lado dos Brejos da Carregueira de Baixo. Procurámos um sítio para almoçar enquanto percorríamos o povoado para sueste a caminho da estrada nacional número 261. Mesmo à saída, deparámos com um parque de merendas, onde os trabalhadores locais vão almoçar.

Quando chegámos, estava vazio. Pousei a mochila, descalcei as botas, tirei o casaco e o chapéu, que estavam encharcados de suor, e sentei-me a descansar. As unhas dos dedos grandes dos pés continuavam a doer-me. Fui descalço lavar as mãos à bica de água que ficava no centro do parque e voltei. Tirei tudo de dentro da mochila e pus o telefone e o tablet a carregar. Abri as caixas onde levava as bolas de arroz – o meu alimento preferido para viagens e caminhadas – para arejarem e libertarem a humidade que se tinha formado.

Comecei a ouvir o miar de uma gata, vindo do outro lado da estrada, e a aproximar-se rapidamente de nós. A gata miava incessantemente, certamente a pedir comida. Duvido que gostasse daquilo que eu tinha trazido; nem valia a pena desperdiçar comida com ela. Além disso estava bastante gorda; aquele chamamento pareceu-me ser mais gulodice do que fome.

Entretanto, chegaram dois indivíduos numa carrinha de distribuição de produtos alimentares. Cumprimentaram-nos e sentaram-se na outra extremidade do parque a almoçar. Mais tarde, chegaram mais seis trabalhadores que aparentavam, pelas vestes, ter vindo de uma obra, e pela atitude pareciam ser trabalhadores camarários.

Cap3-Carvalhal

Comi duas bolas de arroz, grelos cozidos e puré de pastinaca. A sobremesa foi uma maçã e, no fim, bebi café novamente.

O café é também a minha bebida preferida para as caminhadas. Ponho seis colheres de sopa de café moído num litro de água a ferver e deixo cozer durante cinco a dez minutos. Deixo assentar as borras de café e decanto.

Quanto às bolas de arroz, a receita é a seguinte. Cozo uma chávena e meia de arroz carolino integral biológico, com o dobro de água e uma pitada de sal, durante cinquenta minutos na panela de pressão. Depois de esfriar, faço bolas entre as mãos, que molho previamente com água para o arroz não agarrar. As bolas devem ficar bem apertadas. De seguida, abro um buraco no meio da bola e coloco um pouco – uma colher de chá – de ameixa salgada japonesa – que é um picle ácido e salgado – para conservar e dar um sabor contrastante ao arroz. Fecho o buraco e aperto mais um pouco. Embrulho a bola em alga nori – a alga do sushi – de forma a isolar o arroz completamente do exterior. Com a quantidade de arroz mencionada acima, faço oito bolas. Normalmente, como duas bolas ao almoço, duas bolas ao jantar e uma bola ao pequeno almoço.

Depois do almoço, tentei cortar as unhas, mas só tinha um canivete que me foi oferecido pela Teresa: um canivete suiço, sem tesoura, mas com lâminas muito afiadas. Cortei as unhas à faca. Não consegui cortar muito rente, mas ainda consegui tirar cerca de três milímetros às unhas dos dedos grandes que me estavam a causar o maior incómodo.

A gata tinha conseguido comida junto dos distribuidores de alimentos e estava agora a comer pedaços de carne que os trabalhadores camarários lhe davam.

A sombra dos pinheiros e o vento fresco rapidamente esfriaram o meu tronco, uma vez que só tinha uma t-shirt vestida e, além disso, suada. Mas o esforço da caminhada tinha sido tão grande que o frio parecia não me afetar.

Um dos comensais do segundo grupo veio colocar espinhas de bacalhau junto à cerca do parque e chamou a gata que logo surgiu para acabar de chupar as espinhas.

Estava na hora de voltarmos à estrada. Vestimo-nos, pusémos as mochilas às costas, cumprimentámos os trabalhadores e saímos do parque.

No cruzamento da Avenida 18 de Dezembro com a EN261, havia um vendedor de velharias. O sítio parece abandonado, mas ainda há algumas peças espalhadas pelo local.

Cap3-Carvalhal-2
Cap3-Carvalhal-3
Cap3-Carvalhal-4

Prosseguimos pela estrada, para sul.

Cap3-Estrada

As estradas são locais áridos. Áridos de vida, áridos de vivências, áridos de interesse. Quanto mais congestionadas, mais se aproximam de um não-lugar de Marc Augé. E eu sempre evitei os não-lugares, antes e depois de Marc Augé. Um não-lugar é um lugar onde a geografia é irrelevante, é um lugar idêntico na China, no Zimbabué ou na Suécia. Não se aprende nada num não-lugar: quem experiencia um, experiencia todos. Uma estrada é um não-lugar. É um lugar onde passam automóveis, depressa demais, passam e não param. Não se aprende nada numa estrada: não traz vivências novas; não há aprendizagens diferentes em estradas diferentes.

Caminhámos, sem novidades até Pinheiro da Cruz.

Cap3-PinheiroDaCruz

Pinheiro da Cruz tem uma prisão em regime mais ou menos aberto. Os prisioneiros têm atividades ao ar livre, nomeadamente cultivam uvas e fazem vinho. Passámos a povoação e continuámos país abaixo.

Demos por nós à procura de formas de encher o vazio da estrada. Contámos o número de pilares de plástico abalroados pelaos carros. A estrada está ladeada de pilares de plástico com um metro de altura e com refletores, para guiar os condutores durante a noite, para permitir que vejam melhor, ao longe e com antecedência, o traçado do alcatrão. Mas muitos condutores perdem, momentaneamente, o controlo do automóvel e saem da estrada durante umas dezenas de metros, esbarrando numa série e pilares. Alguns pilares estavam a mais de vinte metros de distância da estrada, tamanho foi o embate que sofreram.

Entretivémo-nos também a compilar uma lista de objetos lançados do interior dos automóveis para as bermas, e havia de tudo: garrafas de vidro, garrafas de plástico, recipientes de iogurte, fraldas de bebé, pacotes de leite, pacotes de sumo, latas de cerveja, sacos de plástico. Para além disso, menos frequentemente, mas ainda assim com alguma regularidade, apareciam partes de automóveis, resultado de embates e acidentes: parachoques, faróis e pneus.

Entrámos na Freguesia de Melides, passámos junto ao desvio para a praia da Raposa e nada de excitante parecia acontecer…
Cap3-Melides-1
Cap3-Raposa
Cap3-Melides-2

Eis senão quando começamos a vislumbrar uma perturbação na regularidade do horizonte. Ao fundo da estrada, perto do ponto onde as linhas paralelas se encontram, saltaram dois semáforos luminosos e brilantes: um amarelo e outro vermelho.

À medida que nos aproximávamos, os semáforos foram ganhando forma: o vermelho era um triângulo de sinalização automóvel; e o amarelo, um colete por cima do corpo de uma miúda nova e gordinha que esperava, receosa, perto do automóvel, por um reboque, mas também pedia a Deus que estes dois gandulos, que se aproximavam a passadas largas, não se metessem com ela, não lhe fizessem mal. Duas preces: tee sorte na última, mas não teve sorte na primeira.

Passei, mas voltei atrás. “É o escape?”, perguntei. “Não sei, não percebo nada de carros”, respondeu a tremer, no meio daquele Alentejo deserto e propício ao desastre.

O tubo de escape estava caído e a miúda deve ter ouvido o barulho da lata a roçar pelo chão e, por isso, parou o carro: não fosse aquilo desmanchar-se tudo ali no meio do nada.

A miúda tinha um ar de fazer pena ao mais cruel dos criminosos, quanto mais a nós pobres caminhantes à procura de algo – qualquer coisa que fosse – dentro de nós.

Pousei a mochila, espreitei para debaixo do carro e vi que o tubo de escape, que vinha da saída do motor, se tinha soltado da panela. Dessoldou-se, ou nunca tinha estado soldado. Não lhe perguntei quem lhe tinha vendido aquele carro, não valia a pena, mas tinham-na enganado.

O Pedro deu-me umas braçadeiras de plástico e prendi o tubo ao chassis. O tubo não iria aquecer o suficiente para derreter as braçadeiras no percurso que faltava até Melides e que era de apenas quatro quilómetros.

Cap3-Carro-1

Não lhe perguntei o nome, mas sei que é enfermeira há duas semanas na prisão de Pinheiro da Cruz. Deve ter acabado o curso este ano, concorreu e entrou, sem cunhas. Vivia em Viana do Castelo, falámos das festas de Santa Luzia, tirámos uma foto juntos, e dissémos-lhe que, se entretanto passasse por nós mais à frente, não queríamos boleia, pois estávamos a caminho do Algarve e o percurso tinha que ser feito todo a pé.

Cap3-Carro

Não gostava de fotografias, a miúda, e nisso acho que abusei. Mas de que outra forma é que podemos quebrar a monotonia de horas passadas na estrada ao som das passadas sempre iguais no ouvido, mas cada vez mais dolorosas no corpo. Não ia certamente espetar um prego na mão como fez o Roy Batty no Blade Runner, para conseguir reavivar a vida que lhe fugia.

RoyBatty-nail

Não. A foto deu-me ânimo para continuar. Agradecemos à miúda por nos ter ajudado a descansar um pouco na nossa viagem que, a cada passo, se tornava mais pesada e difícil. Despedimo-nos e partimos.

A miúda já estava à espera há duas horas pelo reboque, que vinha de Grândola; disse-nos que não esperaria mais de quinze minutos, para além daquele momento. Mas esperou. Vimo-la passar cerca de quarenta e cinco minutos depois, dentro do reboque, quando estávamos quase a chegar à povoação de Melides.

Pouca coisa mais se passou pelo caminho: um local a anunciar que tinha espargos e cogumenlos proibidos, a estrada para a praia da Abeta Nova, onde desagua a ribeira das Fontainhas, e onde almocei, em 1984, no segundo dia da primeira grande caminhada que fiz de Tróia até à lagoa de Santo André, a pé, descalço, pela praia: foi um almoço idílico, junto a um poço e a uma ruina, à sombra das árvores e ao som das rãs a coaxar entoadas com o vento nas folhas. Enfim, pouca coisa.

Cap3-AbertaNova-1
Cap3-AbertaNova-2

Logo depois, o restaurante Tia Rosa, onde, há uns anos atrás, parei depois de um desatino em casa; um desatino que me fez andar cem quilómetros sem parar para comer um arroz de pato famoso e beber uma garrafa de meio litro de um monocasta Touriga Nacional do Esporão, de 1995. Já lá vão uns anos, mas a marca ficou. E aquele arroz de pato não é o meu estilo: não tem contraste; não se cozinha o arroz com a gordura do pato e muito menos se juntam os miúdos e o sangue ao arroz. Num curso de culinária, não passava nos testes preliminares… Mas enfim, há gostos para tudo. Depois fui cozer a bebedeira para a praia da Raposa. À meia noite estava nas palafitas da Carrasqueira a olhar para as estrelas.

Cap3-TiaRosa

Quase a chegar a Melides, ainda passámos numa povoação onde eu não gostaria de morar. E o motivo é o nome da povoação, não é mais nenhum. Os caveirenses são certamente boas pessoas como o são todos os habitantes das redondezas, mas Caveira é um nome pouco convidativo, tremebundo, afastador.

As vinhas da Caveira, by John Steinbeck
Cap3-Caveira-1
Cap3-Caveira-2

O meu amigo Raul, tinha combinado fazer uma parte do percurso connosco. Telefonei-lhe a combinar um almoço, no dia seguinte, em Sines. Combinámos, também, que ele passaria antes em minha casa para trazer a carteira do Pedro, e um cinto para as minhas calças que me caíam e que eu atara com uma fita de nylon encontrada no caminho, assim como uma tesoura para eu cortar as unhas mais rentes.

E chegámos, por fim, a Melides, onde dormimos no primeiro recanto que encontrámos, junto à estrada, mas resguardado dos olhares de quem passasse. Não tivémos muito tempo para escolher, pois o Pedro já não conseguia andar e a estrada à saída de Melides parecia perigosa para prosseguirmos o caminho pela noite.

Cap3-Melides-3
Cap3-Melides-4
Cap3-Melides-5

Tróia – Sagres – Cap. I

O primeiro troço do percurso foi de Tróia ao Carvalhal.

A imagem seguinte contém o percurso registado pela aplicação Highway Star que desenvolvi para o sistema operativo Android.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Troia-Sagres-cap1.kml

Troia-Sagres-mapa-Cap2

Início: 23-03-2016, 07:54
Velocidade média: 4.447 km/h
Tempo: 05h 04m 22.134s
Espaço: 22.559 km

Os ferries atracam em Tróia no cais sul – que fica do lado leste da península, no Rio Sado – contrariamente aos catamarans, que atracam no topo norte da península, na doca do Adoxe. Como viajámos no ferry, devido ao preço, decidimos não caminhar, nesta parte inicial do percurso, pela areia da praia, para não termos que atravessar a península de leste a oeste até ao mar. Assim, seguimos pela estrada nacional 253-1 até à Comporta.

Cap2-EN253-1

Quase a chegar à Comporta, a península estreita-se e tem apenas cerca de quinhentos metros de largura. Nessa zona, em vários pontos da estrada, consegue-se ver água dos dois lados: o mar a oeste e o rio a leste.

Vista Leste: o Rio Sado
Cap2-Sado

Vista Oeste: o Atlântico
Cap2-Atlantico
Cap2-Atlantico-2

A estrada é plana, quase uma reta, e os automóveis passavam em grande velocidade: empregados nos serviços turísticos, fornecedores de produtos, empreiteiros. A maior parte dos automóveis passou no sentido sul-norte, contra nós, que caminhávamos na berma esquerda da estrada.

Cap2-Estrada

Cerca de duas horas após o início da caminhada, e doze quilómetros depois, chegámos à Comporta.

Cap2-Comporta

Decidimos fazer o resto do caminho, até ao Carvalhal, pelo meio dos campos de arroz, no caminho de terra batida que desce ao longo do canal que alimenta os campos de cultivo. Desta forma, evitámos o ruído dos automóveis, assim como o perigo constante de podermos ser atingidos por um condutor distraído. Os dez quilómetros restantes até ao Carvalhal foram percorridos nessa estrada.

Entrada nos campos de arroz
Cap2-Adega

O canal encontra-se ladeado de hortas e de pequenas construções de apoio às atividades agrícolas, na margem leste. De vez em quando, surge uma ponte artesanal. Algumas dessas pontes estão bastante deterioradas, mas outras são robustas e permitem até a circulação automóvel.

Cap2-ponte

Pouco depois de sairmos da Comporta, passámos por um agricultor que amanhava as suas terras, do outro lado do canal. Foi o agricultor mais novo de todos os que vimos no percurso. Teria pouco mais de cinquenta anos, contrariamente aos outros que encontrámos, que teriam já sessenta ou setenta. Cumprimentámo-lo e, ao ver-nos com as mochilas, perguntou-nos onde íamos. “Para o Algarve”, respondeu o Pedro. “Por aqui não se vai para o Algarve”, retorquiu de imediato. Mas depois, ficou um pouco parado a pensar e anuiu: não o disse verbalmente, mas percebeu-se.

“Eu já fui de Córdova a Sevilha, são duzentos e oitenta quilómetros, demorei vários dias”, continuou o agricultor, que não só era mais novo mas também tinha um aspeto diferente dos outros, um ar alternativo. “O caminho é sempre pela serra. Ia com outro tipo que andava depressa e me deixava para trás. Quando eu olhava, lá ia ele ao fundo. Mas quando chegava a noite, ele tinha medo e ficava parado. E aí eu apanhava-o.”

Mais tarde, quando escrevi este texto, confirmei que a distância de Córdova a Sevilha são cento e quarenta quilómetros, ou seja, metade do que ele referiu. Provavelmente estaria a falar da distância de ida e retorno.

Falámos um pouco mais, despedimo-nos dele e continuámos.

A meio do percurso, deparámos com um cavalo cansado ou, pelo menos, a descansar. O Pedro fez-lhe uma festa a meio da cabeça, entre os olhos e o nariz, e o cavalo levantou-se. Com receio que começasse aos coices, afastámo-nos. Provavelmente, queria apenas mais carícias, mas o desconhecimento causa medo e, por via das dúvidas, recuámos para uma distância de segurança. Ignorância de citadinos? Talvez.

Cap2-Cavalo

Ao longo do canal, apercebi-me da existência de pequenas comportas artesanais que vedavam a entrada de água para os talhões de cultivo de arroz. Nunca tinha reparado naqueles artefactos, apesar de aquele sítio ter sido objeto de peregrinação minha durante cinco ou seis anos há uns vinte anos atrás. Nessa altura, ouvia muito o Kind of Blue do Miles Davis e os temas desse disco ficaram conhecidos, para sempre, na minha casa, como a música dos campos de arroz.

Estudei Antropologia entre 1995 e 2000 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e desenvolvi o gosto pela observação dos artefactos e ferramentas tradicionais, pelo que a descoberta das comportas da Comporta foram um motivo de rejúbilo para mim. Tinha decidido fazer esta caminhada para obter
proveitos de contentamento pessoal, de superação física e espiritual, mas tinha acabado de ser surpreendido por um outro tipo de satisfação: a descoberta do génio e engenho humano, que me deixa orgulhoso de ser um ser pensante pertencente a uma espécie criativa e laboriosa.

As comportas da Comporta
Cap2-comportas-1
Cap2-comportas-2
Cap2-comportas-3
Cap2-comportas-4

Nesta última fotografia, vê-se o tubo que está tapado pela prancha de madeira, e que é destapado para irrigar o campo de arroz que fica a oeste, do outro lado do caminho por onde transitávamos.

Pelo caminho, na zona da Torre, apanhámos e comemos três nêsperas para refrescar a garganta.

Cap2-Torre

À chegada aos Brejos da Carregueira de Baixo, parámos para verter águas e descansar os ombros do peso das mochilas, assim como os pés que já quase caminhavam há vinte quilómetros sem parar.

Descobri, nesse momento, que as unhas dos pés não estavam suficientemente curtas e que, com o andar, batiam nas botas e iam acumulando dor e lesões na raiz. Tinha, com urgência que resolver este assunto, para que não me caíssem unhas como na caminhada da Cova do Vapor para o Espichel. Durante as caminhadas seguintes, avisei insistentemente os participantes para cortarem as unhas dos pés e, inexplicavelmente, fui esquecer-me de o fazer nesta caminhada enorme, talvez a mais exigente que farei.

Ao fundo as núvens ameaçavam chover novamente. Já tinham caído umas pingas de água na península de Tróia e cairam mais umas gotícolas depois desta fotografia, mas nunca mais choveu até Vila Nova de Milfontes.

Cap2-Brejos-1

Durante todo o percurso do canal, por várias vezes apoderou-se de mim uma sensação de desolação, num espaço humanizado mas sem gente, e onde o lixo e os artefactos caducos abundavam.

Cap2-Brejos-2

Quase a chegar ao Carvalhal, filmei um minuto e meio do percurso.

Chegámos, enfim, ao Carvalhal, cinco horas após o início da caminhada, e vinte e dois quilómetros depois. Procurámos um sítio para almoçar, não sem antes fotografarmos alguns pontos de interesse.

Cap2-Carvalhal-1
Cap2-Carvalhal-2
Cap2-Carvalhal-2B

Estávamos quase a sair da povoação, à procura de uma sombra de um pinheiro grande, quando descobri que caminhávamos pela Avenida 18 de Dezembro: o aniversário da minha mãe.

Cap2-Carvalhal-3

Tróia – Sagres – Introdução

Agendei a descida até ao Algarve, pela costa, para as férias da Páscoa. Fui acompanhando as previsões do tempo, que estava muito variável, mas que se manteve seco durante o percurso até Vila Nova de Milfontes.

O cartaz (2ª versão) do percurso, a pedir caminhantes voluntários, foi o seguinte:

Troia-Algarve-2

Desde logo tive a participação do meu sobrinho Pedro como assegurada. Alguns mostraram-se interessados, mas já tinham outros compromissos agendados. Outros – o Carlos e o Raúl – manifestaram interesse em fazer um troço do percurso connosco.

O percurso é extenso e, para ser realizado em cinco dias, obrigava a caminhar cerca de quarenta quilómetros por dia. À velocidade confortável de quatro quilómetros por hora, isto significa caminhar dez horas por dia. Ora, com o peso da mochila às costas e o piso por vezes irregular, que leva a nem sempre assentar os pés da forma mais correta no chão, a probabilidade de ocorrerem lesões é elevada.

Desta vez, para além do equipamento que levei nas últimas caminhadas, decidi levar uma bateria de chumbo de 12V e 9Ah, para poder carregar as baterias do telefone, onde iria registar o percurso, e do tablet, onde poderia consultar os mapas de satélite para escolher o melhor caminho em cada momento.

A bateria pesa 2520g o que se poderia tornar um óbice ao sucesso da empresa, mas, por outro lado, era a garantia de que teria o apoio de artefactos eletrónicos para me ajudarem a tomar as melhores decisões. E eu já estou habituado a ser um burro de carga.

Saímos de minha casa antes das sete da manhã do dia 23 de março de 2016. A Teresa levou-nos até Setúbal de carro, onde apanhámos o barco para Tróia, às 7h30. Queria começar o mais cedo possível e, por isso, apanhámos o primeiro ferry do dia. Havia um barco mais cedo – um catamaran – mas o preço dos bilhetes é quase o dobro do dos ferries.

Na bilheteira, o Pedro apercebeu-se de que tinha deixado a carteira em casa. Queria voltar para ir buscá-la. Se voltássemos atrás, perderíamos o barco seguinte, só apanharíamos o das 9h30m e a caminhada começaria duas horas mais tarde do que o previsto. Eu tinha dinheiro suficiente para os dois e propus emprestar-lho, mas o Pedro estava preocupado com o cartão de identificação: tinha receio de ser intercetado pela polícia e de não se poder identificar.

O Pedro teimou em voltar para trás, mas eu nunca voltaria para trás: eu iria apanhar o barco das 7h30m, em qualquer circunstância, mesmo que o deixasse ali sozinho. Tentei demovê-lo, disse-lhe que lhe emprestava o dinheiro e que não se devia preocupar com a identificação: eu nunca tinha sido abordado pela polícia nas caminhadas. É verdade que a GNR tinha anunciado que iria reforçar a vigilância, devido aos ataques em Bruxelas, no dia anterior, mas eu preferia arriscar, ao invés de atrasar o início do projeto e de, com isso, criar algum desânimo logo no início.

Enquanto discutíamos, o empregado da bilheteira pediu-nos para nos decidirmos. Atrás de mim, outro passageiro, que ainda não tinha adquirido o bilhete, mostrava alguma impaciência, pois a hora de saída do barco aproximava-se.

Lembrei-me que o Raúl tinha combinado ir almoçar connosco a Sines no dia seguinte. Podia pedir ao Raúl para levar a carteira do Pedro. Consegui a muito custo, com esse argumento, convencer o Pedro a entrar no barco, mas aquele foi o primeiro indício da teimosia do meu sobrinho, que se veio a mostrar fraturante uns dias mais tarde.

Cap1-Sado

Chegámos a Tróia às 7h55m e saímos do barco juntamente com os trabalhadores que fazem este percurso diariamente para irem trabalhar, nas tarefas de apoio e suporte aos empreendimentos turísticos que, tal como a Acacia dealbata, invadiram e dominaram a península, outrora selvagem e local de veraneio do povo de Setúbal.

Cabo Espichel – Setúbal

Caminhada Cabo Espichel – Setúbal, a 12 de março de 2016

Lancei o repto e apareceram vários participantes, talvez motivados pela divulgação das fotografias da caminhada da semana anterior.

  • Pedro Belo, Sílvia Rodrigues e a sua cadela Suki, de raça pug
  • Cláudia Rodrigues e a sua cadela Goma
  • Nuno Lourenço
  • Carlota Mendonça, Cristina Mendonça e uma amiga

Provavelmente não se aperceberam da dificuldade e da extensão do percurso, e do tempo que iríamos demorar, assim como do esforço total. Deviam pensar que era como nos contos de fadas: começa agora e daqui a pouco já acabou… sem dor.

O ficheiro KML do percurso está aqui: Espichel-Setubal.kml

CaboEspichel-Setubal

Trip name: Cabo Espichel – Setúbal
Average speed: 3.96 km/h
Time: 11h 37m 54.019s
Total length: 46.062 km

O Pedro e a Sílvia chegaram a horas; tínhamos combinado às 8h da manhã em minha casa. O Pedro queixou-se da hora: disse que era muito cedo. Eles podiam ter saído mais tarde e ter ido diretamente para o cabo Espichel. A hora de saída no Espichel era apenas às 9h da manhã.

Tinha combinado com a Cláudia, em minha casa, às 8h da manhã, mas estava à espera que ela chegasse mais cedo, como de costume, para conseguirmos cumprir o horário. Íamos os dois até Setúbal para eu deixar a minha carrinha que depois levaria todos os participantes de volta para o Espichel. Mas a Cláudia perdeu a cadela, enquanto a passeava de manhã, e atrasou-se a tentar encontrá-la pelas ruas de Almada: chegou às 8h15m.

O Nuno, saiu de Almada diretamente para o cabo Espichel e deu boleia à Catarina, à Carlota e à amiga delas.

Saímos para Setúbal, eu no meu carro e a Cláudia no dela, às 8h18m. Deixei o meu carro na praia do Albarquel e rumei, com a Cláudia para o cabo Espichel.

Ao chegar ao cabo Espichel, juntámos todos os participantes e iniciámos a caminhada às 9h40m.

Espichel

Partimos do Igreja da Nossa Senhora do Cabo Espichel e seguimos até ao farol. Depois rumámos a leste pelos trilhos de terra batida.

Farol

A cara de felicidade dos participantes era um sinal de que não faziam ideia do que os esperava. Ainda bem.

Continuámos para leste e, a certa altura, perdemos o caminho. Tivémos que passar pelo meio do mato, cerca de seiscentos metros. Houve um troço de aproximadamente cinquenta metros no qual alguns dos caminhantes se arranharam nos arbustos. Amaldiçoaram-me em surdina, de forma a eu ouvir, mas não me falaram diretamente. Devem ter medo de mim. 🙂

Voltámos a apanhar o caminho e continuámos até à Serra da Azóia, primeira povoação após o Espichel.

Próximo da Azóia, o Pedro comentou que não estávamos a cumprir com o ritmo necessário: tínhamos feito poucos quilómetros para o tempo que já tínhamos gasto. Achei curioso, o comentário, quando eram precisamente o Pedro, a Sílvia e a cadela pug deles, que nos estavam a atrasar. Parámos muitas vezes à espera que chegassem e se juntassem ao grupo, uma vez que eram os mais lentos. Não esperei mais por eles.

Azioa-1

A zona da Azóia, apesar de parecer deserta, tem uma vida própria muito ativa. Pastam ovelhas, cultivam cereais, e fazem queijo e pão. Durante alguns anos, fiz férias na Aldeia Nova da Azóia, na casa de um amigo meu que está hoje emigrado na Suiça. Com ele, tomei conhecimento de inúmeros recantos na costa sul do cabo Espichel: a Cova da Mijona, a Praia das quinhentas pessoas, a piscina natural, a praia da Baleeira, a praia do Guindaste, etc.

Paredes meias com a casa dele, vivia a padeira da Aldeia e todas as manhãs tínhamos pão quente dentro de um saco. Foram férias inesquecíveis.

A contrastar com estas atividades mais próximas da natureza, estavam alguns dos amigos com quem partilhávamos a casa e que, logo pela manhã, bebiam uma caneca de vinho moscatel. 🙂

Azoia-2

Na Serra da Azóia havia dois cafés que, entretanto, fecharam. O primeiro a fechar foi o do pai de uma das namoradas do meu amigo Paulo. O outro ainda se manteve aberto durante mais uns vinte anos, mas acabou por fechar e é, agora, uma casa de habitação.

Seguimos pela Rua da Pedra do Mar, para depois descermos pelo caminho que leva à Cova da Mijona. O Pedro e a Sílvia tinham projetado andar apenas oito quilómetros e depois voltarem para trás. Despedimo-nos deles por telefone e continuámos.

No desvio da Rua da Pedra do Mar para a Cova da Mijona, há um cato enorme que fotografei.

Cato

Neste local, o meu filho mais velho apanhou, há uns anos atrás, uma perdiz com uma semana de vida, à mão. Fotografámos o acontecimento e deixámos a perdiz seguir a sua vida. Já tive uma perdiz em casa, quando era criança: apanhámo-al na barragem do Divor e mantivémo-la em casa durante dois anos. Um dia escapou e nunca mais a vimos. É uma ave fantástica.

A Júlia com o perdigoto que o Manuel apanhou, foto de 2009
Soltas070_08

Até à Cova da Mijona é sempre a descer. Depois tempos que subir cerca de um quilómetro até à pedreira de Santana. Houve queixas, quando viram a subida, mas penso que foi apenas pelo susto, pela surpresa, porque conseguiram todos ultrapasar o obstáculo sem dificuldade. Naquele momento já só restávamos seis participantes: eu, o Nuno, a Cláudia, a Carlota, a Catarina e uma amiga das duas.

Quando chegámos à pedreira, ficaram todos extasiados, como se tivéssemos chegado ao fim da prova. Parámos para várias sessões fotográficas, e isso deu-nos algum descanso.

Pedreira

Passámos a cerca exterior da pedreira e caminhámos pela estrada a sul. Fomos dar a um beco sem saída e tivémos que voltar para trás. Seguimos então pelo caminho mais a norte. Apesar de ser sábado, a pedreira estava em funcionamento, embora com atividade reduzida. Passámos sem que nos vissem à frente dos escritórios, e continuáms apra sul, para Sesimbra. Descemos pela estrada da praia do Cavalo e chegámos ao porto de abrigo. Parámos durante uns minutos para nos refrescarmos.

PorotSesimbra

As miúdas mais novas ficaram encantadas com os professores e alunos das escolas de surf, canoagem e vela. Desejaram ficar por ali o resto do dia, mas não podia ser: tínhamos um objetivo a cumprir.

Passámos o porto de abrigo e continuámos ao longo da marginal.

Sesimbra-PortoAbrigo
Sesimbra-Marginal

A zona marginal de Sesimbra foi toda remodelada, ou requalificada, como é bonito dizer-se agora, e está bastante agradável. Há algumas exceções, no entanto: a escarpa junto ao porto de abrigo tem um aspeto feio, sujo e perigoso; pelo menos um edifício abandonado, mesmo ao meio da marginal, mas que foi embelezado com um grafito.

Sesimbra-grafito

Mesmo a chegar ao centro de Sesimbra, fica o café onde, um dia…

Sesimbra-BoteDOuro

No dia 18 de fevereiro de 1985, segunda-feira de Carnaval, após termos assistido ao concerto do Leonard Cohen no pavilhão do Dramático de Cascais, colados à Lena d’Água, que cantava ali ao meu lado e por cima do Cohen, todas as canções do alinhamento, metemo-nos no Simca do meu pai e fizémos oitenta quilómetros até Sesimbra. Ao chegar, entrei numa tasca – o Bote d’Ouro – para beber umas misturas para aquecer para o Carnaval. Nisto, meti conversa com dois tipos, desconhecidos, e começámos a cantar as canções heróicas do Fernando Lopes Graça, em voz alta, aos berros, no meio do café. E os tipos cantavam bem. Cantavam mesmo bem. Uns meses mais tarde fui ao Cine Incrível, em Almada, ver os Sétima Legião. E esses dois desconhecidos estavam no palco.

Continuámos, sempre a direito e por caminho plano, até à praia da Califórnia.

Sesimbra-California

Mas as facilidades terminaram aí; depois foi necessário subir uma encosta íngreme de mais de três quilómetros, que começam com uma escada em caracol, no interior de um edifício, que faz parte do caminho da saída nascente de Sesimbra.

A meio caminho, já havia muitas reclamações, mas já se sentia o fim da subida.

Sesimbra-nascente

Quase no topo da encosta, parámos para almoçar. As mi+udas já tinham pedido há algum tempo para parar, mas ainda não tínhamos encontrado uma sombra. Eu andava já, há algum tempo à procura de um sítio afastado da estrada e com uma árvore grande que fizesse sombra para todos. A Cláudia, entretanto, passou-se e começou a subir sem dar ares de querer parar. Consegui fazê-la “voltar à Terra”, e juntar-se ao espírito do grupo que rapidamente passou de um esforço intenso, a uma calma comensal.

Almoco

Descalçámo-nos e assentámos as plantas dos pés nas ervas verdes rasteiras. Daí a pouco, já nenhum de nós se lembrava de que tínhamos andado quatro horas, sem parar, debaixo de um sol escaldante e desgastador.

Depois do almoço, voltámos à estrada e virámos no primeiro desvio de terra à direita. Eu tinha memorizado, por alto, os quarenta quilómetros do percurso, mas não tinha a certeza absoluta do caminho a seguir. Sabia que havia ali um desvio que passava junto às pedreiras leste de Sesimbra e que dava acesso a Casais da Serra. Além disso, o tablet teimava em não receber os mapas via Internet. Virámos naquele desvio, depois da Cláudia me obrigar a garantir, com certeza absoluta – que é coisa que nunca tive, certezas – de que o caminho era aquele. Mas não era ali: era oitocentos metros mais acima.

Caminhámos três quilómetros até percebermos que estávamos a descar para o mar e que o caminho não tinha continuação. Tivémos que passar por uma ribanceira, uma encosta muito inclinada, que era um problema para a Cláudia, que sofre de vertigens. Antes da caminhada, tive que prometer-lhe solenemente que não iríamos caminhar por precipícios. Aquilo não era exatamente um precipício, mas ausava-lhe vertigens. Ouvi, lá atrás mais um comentário, pelas costas: “Este gajo está a gozar comigo”, mas desceu sem ajuda. Na volta, quando tivémos que retornar, já precisou de ajuda: fechou os olhos e eu levei-a pelo braço.

Entretanto, enquanto discutíamos quem continuava e quem ficava, apareceu uma miúda estrangeira, com uma mochila às costas, que vinha da praia até onde não tínhamos chegado a descer. Confirmou-nos o que já tínhamos concluído: aquele caminho não tinha saída.

Sesimbra-serra-1

Voltar atrás foi muito doloroso para todos eles. Decidiram não continuar. A Carlota ligou ao pai, que estava a descansar, para os ir buscar a Santana. Eu continuei.

Despedi-me e voltei pelo caminho por onde tínhamos vindo. Quando pude, subi a serra, para chegar ao topo.

Sesimbra-serra-2

Continuei pelo trilho que passa no bordo da serra, até encontrar um marco de aspeto estranho. Não é uma marco geodésico comum. É quase um cilindro, arredondado na base superior e terminado num bico. Até lá caminhei sempre para oeste, mas depois tiver que seguir duzentos metros para norte.

Risco-1

Virei outra vez para oeste e fiquei com as serras do Risco e da Arrábida, de frente.

Risco-2

A Serra do Risco sempre foi uma quimera para mim. Via-a de longe, em forma de onda a rebentar no topo da montanha… e nunca imaginei que fosse possível subi-la até ao topo. Mas houve uns “malucos” que abriram caminho até lá e, devido a erros de rumo, acabei por ir parar lá acima. Agradeço a quem?

No topo da serra do Risco
Risco-3
Risco-4

Encontrei um casal lá no topo: ele, talvez da minha idade; ela, mais nova. Perguntei-lhe se sabia se havia caminho para baixo, para leste. Ele perguntou-me o mesmo, quase em simultâneo. Concluímos que tínhamos vindo do mesmo sitio, de oeste. Tinham deixado o carro na base da serra e estavam a acabar de chegar ao cume. Com um nervosismo disfarçado, ele perguntou-me: “Achas que conseguimos chegar lá abaixo antes do pôr do sol?”

Continuei. Ao chegar ao marco geodésico, deparei com dois caminhos: um prosseguia para leste, o outro para norte. O caminho para norte pareceu-me mais favorável, nomeadamente porque começava logo a descer. Segui para norte, mas foi um erro. A certa altura deixou de haver caminho e fiquei envolto em mato com silvas e uvas de cão: ambas prendem a roupa e arranham. Em pouco tempo tinha as mãos todas a sangrar e a roupa toda rasgada. Não conseguia sair dali e o sol estava a aproximar-se da horizontal.

Casaco

A Teresa ligou-me a perguntar onde é que eu estava. Combinámos que eu iria tentar carregar o percurso até ao momento atual, para o site do Highway Star, mas não conseguia obter rede de dados. Pus-me em bicos de pés, com o telefone na mão e o braço esticado para o céu, e lá consegui enviar o percurso. O meu objetivo é que a Teresa visse onde eu estava, no mapa de satélite, e me desse indicações do caminho para a clareira mais próxima. Mas antes dela me contactar outra vez, já eu tinha conseguido sair daquele novelo.

Foi a terceira vez que me aconteceu ficar preso no mato daquela região. Das outras duas vezes anteriores, foi na Arrábida e, de uma dessas vezes, demorei três horas a encontrar uma saída, debaixo de um calor intenso, com as gotas de suor a queimarem-me os olhos. Espero não voltar a fazer uma asneira como esta.

Precisava de chegar à estrada N379-1 para ir para o Portinho da Arrábida e, depois, para Setúbal. Pelo meio, havia uma terra vedada, com gado bovino à solta, que eu tive que atravessar. Primeiro tentei contorná-la, mas no limite deparei com um bosque e já tinha tido a minha conta de silvas e uvas de cão. Saltei o arame farpado, passei as terras e o gado, e voltei a passar a cerca, para a panhar a estrada de terra do outro lado.

O casaco estava todo rasgado e cheio de sangue. O ar estava frio, não o podia tirar: virei-o do avesso. Passei pelo prado verde que se vê à direita, quem vem de Casais da Serra para o Portinho da Arrábida, e ao qual, em minha casa, chamamos Vale Encantado. Já agora, se leventarem um pouco os olhos, logo acima do Vale Encantado, está a serra do Risco: uma serra em forma de onda a rebentar.

ValeEncantado

O Vale Encantado é bonito, visto de longe. Um dia, há vários anos, decidimos ir vê-lo de perto: foi uma desilusão. Lá em baixo, junto ao vale, o chão é um aglomrado de torrões de terra que, quando chove, se transformam num lamaçal, ou até num pântano. Foi o que confirmei desta vez: a água escorria de diversas fontes para o vale, que se transformara num lamaçal impossível de transpor. Tive que o contornar.

Encontrei um fotógrafo a capturar imagens de flores e, apesar do meu tempo ser escasso, decidi fazer o mesmo, com o meu telefone, que tira fotografias de qualidade baixa.

Ranunculo

Cheguei à estrada nacional 379-1 e caminhhei quatro quilómetros até chegar ao Portinho da Arrábida. Já perto, tirei um autorretrato, com Tróia ao fundo. Tróia iria ser o início da próxima etapa do projeto “Percorrer Portugal a pé”.

TroiaAoFundo

Depois do desafio que foi subir a encosta da Califórnia, em Sesimbra, tínhamos discutido se iríamos descer até ao Portinho, para depois termos que subir novamente até à estrada, pelo parque de estacionamento da praia do Creiro. Ninguém escolheu esta opção. Todos queriam ir pela estrada que passa por cima do Portinho da Arrábida, para evitar mais declives, principalmente grandes subidas.

Como ninguém estava presente, desci mesmo até ao Portinho. Parei no primeiro bar e bebi uma cerveja, para comemorar a chegada.

Portinho-1

O bar ficava na descida para a povoação. A placa indicadora do início do povoado, ficava umas dezenas de metros mais abaixo. Quando a fotografei, já não havia sol.

Portinho-2

Caminhei, já de noite, até à praia do Creiro e subi para a estrada, pelo acesso ao parque de estacionamento. Os reataurantes da praia estavam a funcionar e, num deles, estava um grupo, com umas doze pessoas, bastante animado, a jantar.

Não é fácil caminhar sozinho, ainda por cima de noite. Eram 19h25m, já não havia luz do sol. O céu estava totalmente escuro e não havia iluminação na estrada.

Caminhar à noite, com carros a passar, sem roupa refletora, é perigoso e, ao mesmo, tempo assustador.

Passei a praia de Galápos, e cheguei à Figueirinha onde comi a última bola de arroz e a última maçã.
Galapos
Figueirinha

Sentei-me à beira da estrada, em cima do murete do parque de estacionamento, descalcei-me e jantei. Doíam-me os pés. Mais tarde acabei por perceber que aquelas botas não eram indicadas para grandes caminhadas. A bota direita causou-me uma lesão na articulação do pé. O pé, ao bater na zona onde os atacadores terminam, desenvolveu um inchaço entre o tarso e o metatarso, que demorou mais de uma semana a passar. Ainda fui com essa dor, embora residual, para o início da caminhada de Tróia, mas as novas botas, mais adequadas para caminhadas, que comprei, não pressionavam essa zona do pé, pelo que fiquei sem dores no fim do primeiro dia.

Voltei à estrada e, quinze minutos depois, cheguei ao Outão.

Fábrica do Outão

Demorei mais de uma hora a chegar a Setúbal. Passei por vários restaurantes de choco rito, que estavam apinhados de gente.

Setubal

Foi duro, mas o facto de ter conseguido chegar ao fim, foi reconfortante.